Enguia-europeia: Açores têm papel central numa das migrações marinhas mais misteriosas do mundo



A enguia-europeia (Anguilla anguilla) tem “a mais longa e complexa migração oceânica” de todas as espécies de anguilídeos. Mas desde que, há 100 ano, o biólogo Johannes Schmidt apresentou uma teoria de que esses animais migravam da Europa até ao Mar de Sargaço, percorrendo uma distância de até 10.000 quilómetros, os cientistas não tinham ainda conseguido confirmar que essa viagem realmente era realizada. Isto é, até agora.

Um grupo de cientistas de vários países, incluindo Portugal, encontrou o que considera ser “a primeira evidência direta” da migração e enguias-europeias adultas para o Mar de Sargaço, o presumido local de reprodução, perto da costa da América do Norte. Para esta investigação,  publicada na revista ‘Nature’, foram colocados transmissores de satélite em 26 enguias de rios dos Açores e o seu movimento foi acompanhado durante períodos entre os 40 e dos 366 dias.

Enguia-europeia com um transmissor de satélite
Fonte: Nature

Aludindo aos trabalhos de Schmidt como “o maior passo” em direção à resolução do mistério de como e onde as enguias se reproduzem, “que tem mistificado gerações, desde Aristóteles até Freud”, os autores do artigo reconhecem que “é difícil determinar com exatidão a extensão temporal e espacial da desova”. Por isso, dizem que “de todas as espécies de enguias anguilídeas, a enguia-europeia tem a migração oceânica mais longa e complexa”.

Através de mecanismos de monitorização, os cientistas perceberam que, apesar de partirem de vários países, as rotas migratórias da enguias-europeias convergiam nos Açores, e que a migração até ao local de desova, no Mar de Sargaço, poderá demorar mais de 18 meses.

As evidências recolhidas suportam a tese de que é nos Açores que as jovens enguias se desenvolvem até atingirem a idade adulta, depois embarcando na migração através do Oceano Atlântico, até ao Mar de Sargaço.

“Apesar de a jornada das enguias-europeias a partir dos Açores ser a rota de migração ‘mais curta’ para Mar de Sargaço (…), continua a ser maior do que a rota de migração completa de algumas espécies tropicais de anguilídeos”, salientam os cientistas.

Crê-se que o período de desova desses animais marinhos começa, todos os anos, em dezembro, atinge um pico entre fevereiro e março e estende-se até maio. “Isto fornece um período entre um e seis meses durante o qual as enguias que migram dos Açores têm de completar a sua jornada e processo de maturação sexual”, para se poderem, depois, juntar aos outros membros da espécie na região do Mar de Sargaço.

“Contudo, nenhuma das enguias marcadas neste estudo migraram suficientemente rápido (mais de 12 km por dia) para chegarem à área de desova antes do fim do período de desova reconhecido”, aponta o artigo, o que sugere que as enguias-europeias optam, ao invés, por “uma migração longa e lenta”, que lhes permita conservar as suas energias e reduzir o risco de morte.

Dessa forma, as enguias alcançam a maturidade sexual nos Açores e só chegam ao local de desova a tempo do que os cientistas descrevem como “o segundo período de desova após o início da sua migração”.

Depois de desovarem no Mar de Sargaço, as larvas das enguias regressam às águas do Reino Unido e de outros países na Europa “através de uma rota diferente”, transportadas pela corrente do Atlântico Norte, por meio da qual chegam aos rios europeus.

Embora o estudo não tenha permitido compreender de que forma a migração das enguias-europeias é influenciada por fatores como correntes marinhas, campos magnéticos e temperatura das águas, os cientistas mantêm que a confirmação da rota migratória até ao Mar de Sargaço “é uma descoberta encorajadora que completa o mapa da rota de migração para a desova que emergiu ao longo dos últimos dez anos e ajudará a perceber como melhor desenvolver o trabalho futuro”.

Além disso, os resultados investem-se de uma importância adicional quando se percebe que, desde a década de 1980, as populações de enguias-europeias caíram 95% e são consideradas hoje uma espécie ameaçada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Este estudo “destaca a importância de mais investigação sobre todos os aspetos do ciclo de vida [das enguias-europeias] (…), para informar medidas que conservação que permitam a recuperação sustentável” da população desses animais marinhos.

A investigação foi liderada por Rosalind Wright, da Agência Ambiental do Reino Unido, que afirma que “esta é a primeira vez conseguimos seguir as enguias até ao Mar de Sargaço, e estamos muito contentes por termos a primeira prova direta da chegada das enguias-europeias adultas à sua área de desova”.

“A sua jornada revelará informação inédita sobre a migração de enguias”, diz Wright.

Por sua vez, José Manuel Azevedo, da Universidade dos Açores, refere que “esta descoberta enfatiza o papel dos Açores no ciclo de vida das enguias” e que o trabalho desenvolvido ajudará cientistas e conservacionistas a exigirem mais medidas “para recuperar os habitats das enguias em todo o arquipélago”.



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