Entrevista: “Através do corpo, do movimento, do som e da presença, conseguimos compreender o impacto das nossas ações no ambiente”

Perante os crescentes riscos associados às alterações climáticas, este ano, o Festival Periferias – Festival Internacional de Artes Performativas – dedica-se a uma temática emergente que irá conduzir a criação e programação da associação de Sintra: as EcoGeografias. Em entrevista à Green Savers, Susana C. Gaspar, codiretora artística do Chão de Oliva – Centro de Difusão Cultural em Sintra, explora esta 15ª edição, que contará com mais de 20 espetáculos e iniciativas, entre 5 e 15 de março.

Ana Filipa Rego

Portugal viveu um dos “comboios de tempestades” mais longos de que há memória e segundo Carlos Pires, Professor do Departamento de Ciências da Terra e Energia (DCTE) da UL e investigador do Instituto Dom Luiz, estes episódios extremos não são meras exceções estatísticas, mas sinais de uma mudança duradoura do clima, agravada pela exposição criada por décadas de práticas de ordenamento que têm deixado o território vulnerável. Perante os crescentes riscos associados às alterações climáticas, na sua 15ª edição o Festival Periferias – Festival Internacional de Artes Performativas – dedica-se a uma temática emergente que irá conduzir a criação e programação da associação de Sintra: as EcoGeografias.

Em entrevista à Green Savers, Susana C. Gaspar, codiretora artística do Chão de Oliva – Centro de Difusão Cultural em Sintra, revela que o objetivo com esta temática é estabelecer um diálogo sobre como os nossos hábitos influenciam o ambiente e como a terra define as nossas experiências e práticas em sociedade. A responsável considera que as artes performativas “têm uma força única porque não se limitam a explicar ou a informar, fazem-nos sentir” e que, “através do corpo, do movimento, do som e da presença, conseguimos compreender o impacto das nossas ações no ambiente e também refletir sobre o nosso lugar no território”.

Susana não tem dúvidas: “não podemos proteger a natureza sem cuidar de quem nela habita, nem construir comunidades saudáveis sem pensar no impacto que têm no planeta”.

De que forma é que o conceito de “EcoGeografias” propõe uma leitura crítica da relação entre território, comunidade e responsabilidade ambiental?

O conceito de “EcoGeografias” propõe-nos olhar para o território como um lugar vivo de relações entre comunidade, cultura e natureza. O nosso objetivo com esta temática é estabelecer um diálogo sobre como os nossos hábitos influenciam o ambiente e, simultaneamente, como a terra define as nossas experiências e práticas em sociedade. Nesta edição do Festival Periferias procuramos envolver a comunidade local, promover a responsabilidade ambiental e a reflexão crítica a partir de diferentes criações artísticas. Temos uma programação cultural diversa, de diferentes áreas artísticas, que articulam dimensões políticas, sociais e poéticas, para relembrar que cada ação tem impacto.

O nosso objetivo com esta temática é estabelecer um diálogo sobre como os nossos hábitos influenciam o ambiente e, simultaneamente, como a terra define as nossas experiências e práticas em sociedade

Como é que as artes performativas podem contribuir para uma maior consciência ecológica, para além do discurso científico e político já existente?

As artes performativas têm uma força única porque não se limitam a explicar ou a informar, fazem-nos sentir. Quando assistimos a um espetáculo, somos convidados a experienciar o mundo de outra forma, a entrar no lugar de quem ou do que está a ser retratado. Isto cria uma ligação emocional que muitas vezes é mais profunda do que qualquer dado científico ou discurso político. Através do corpo, do movimento, do som e da presença, conseguimos compreender o impacto das nossas ações no ambiente e também refletir sobre o nosso lugar no território.

Através do corpo, do movimento, do som e da presença, conseguimos compreender o impacto das nossas ações no ambiente e também refletir sobre o nosso lugar no território

Esta edição procura cruzar as dimensões ambiental, social e humana. Considera que não é possível falar de sustentabilidade sem integrar estas três vertentes?

Sem dúvida. Na minha opinião, falar de sustentabilidade não faz sentido se nos limitarmos apenas ao aspeto ambiental. O equilíbrio ecológico está sempre ligado às pessoas e às comunidades, às suas formas de viver, às desigualdades sociais, às necessidades culturais e económicas. O ambiental, o social e o humano são dimensões interdependentes. Não podemos proteger a natureza sem cuidar de quem nela habita, nem construir comunidades saudáveis sem pensar no impacto que têm no planeta.

Não podemos proteger a natureza sem cuidar de quem nela habita, nem construir comunidades saudáveis sem pensar no impacto que têm no planeta.

A exposição “Uma Borboleta nos Escombros” evoca tanto a perda de património como os incêndios florestais. Que reflexão pretende suscitar sobre memória, resiliência e reconstrução num contexto de crise ambiental?

Esta exposição parte de uma experiência muito pessoal e dolorosa, da perda do nosso espólio no incêndio do Armazém da Messa, há relativamente um ano. Tendo este ponto de partida, quisemos, ao mesmo tempo, suscitar uma reflexão mais ampla sobre memória e resiliência. Mostrar os objetos e páginas que recuperámos, ao lado das imagens de incêndios na natureza, com impacto na vida humana, é honrar essa história. Recorda-nos do que aconteceu e relembra-nos da importância da prevenção de incêndios no futuro. A memória é fundamental como caminho para a ação. Esta exposição, claro, é também uma homenagem à capacidade de reconstrução. A borboleta que dá nome à exposição apareceu no dia em que fomos vasculhar os escombros. Entre cinzas e papeis queimados, vimos esta borboleta a voar e vimos nela um sinal inesperado de vida e continuidade no meio da destruição. Em situações destas, há pequenas possibilidades de renascimento, de continuidade e de diálogo com o que nos rodeia. A exposição pretende, portanto, sensibilizar para o impacto das crises ambientais e salientar que a memória e a ação coletiva podem transformar a dor em força criativa e reconstrução.

Esta exposição parte de uma experiência muito pessoal e dolorosa, da perda do nosso espólio no incêndio do Armazém da Messa, há relativamente um ano. Tendo este ponto de partida, quisemos, ao mesmo tempo, suscitar uma reflexão mais ampla sobre memória e resiliência

O espetáculo “Raizame”, centrado nas alterações climáticas, resulta de uma parceria com o Gabinete de Sustentabilidade Ambiental e Transição Energética da Câmara Municipal de Sintra. Que importância têm estas colaborações institucionais na promoção de práticas mais sustentáveis?

Extrema importância. O Raizame é um teatro documental criado a partir de relatórios, artigos de jornal, vídeos e outros recursos para refletir sobre a crise climática e todas as “raízes” dos problemas que nos levam a um colapso iminente. Trabalhar com a Câmara Municipal de Sintra possibilita que o espetáculo estabeleça uma ligação com conhecimento técnico e políticas de sustentabilidade. Através desta parceria, temos apresentado a estudantes do ensino secundário exemplos reais, discutido soluções e lançado um debate sobre temas como fast fashion ou consumo excessivo. No início os estudantes ficam muito tensos, mas acabam por alinhar no jogo teatral, descontraem e já não desligam do que estão a ouvir. No final, conversamos sempre e percebemos o impacto deste espetáculo nos estudantes.

O Raizame é um teatro documental criado a partir de relatórios, artigos de jornal, vídeos e outros recursos para refletir sobre a crise climática e todas as “raízes” dos problemas que nos levam a um colapso iminente

Para além dos conteúdos artísticos, o próprio festival adotou medidas concretas de sustentabilidade na sua organização e produção? Se sim, quais têm sido as prioridades

Temos tido essa preocupação de forma muito presente nos últimos anos. Por um lado, reduzir a nossa comunicação em papel, por exemplo. Contudo, sendo um elemento importante de comunicação para algumas pessoas, optamos por garantir o recurso a papel certificado nas impressões que são necessárias. Tentamos reduzir a pegada ecológica não recorrendo ao uso de plástico e, sempre que possível, solicitando materiais emprestados e reutilizando outros que já temos. A verdade é que a preocupação com a sustentabilidade é, de facto, fundamental na nossa área – não só na vertente ambiental, mas também económica. Já vem sendo uma prática das nossas companhias de teatro a reutilização de figurinos e cenografia, por exemplo. Sabemos que temos um longo caminho pela frente e continuamos comprometidos na melhoria das nossas práticas.

Já vem sendo uma prática das nossas companhias de teatro a reutilização de figurinos e cenografia, por exemplo. Sabemos que temos um longo caminho pela frente e continuamos comprometidos na melhoria das nossas práticas

De que forma é possível sensibilizar o público mais jovem para as questões ambientais através da experiência artística, evitando discursos moralizantes?

A pergunta quase já dá a resposta! É importante fugirmos de um discurso moralista se queremos partir de um processo de sensibilização. Primeiro, construirmos pensamento crítico, contribuir para que cada jovem perceba por si e possa tomar as suas próprias decisões. No Raizame, por exemplo, recorremos a vídeos e exemplos do dia a dia que fazem os jovens refletirem sobre o impacto das suas escolhas, desde o consumo de roupa até à utilização de tecnologia, sem lhes impor uma culpa. Procuramos também equilibrar os temas mais sérios com sinais de esperança e soluções práticas. Na realidade, a arte permite criar empatia e é nesse espaço de reflexão conjunta que os jovens se sentem motivados a pensar e agir, sem que a mensagem seja pesada ou autoritária.

É importante fugirmos de um discurso moralista se queremos partir de um processo de sensibilização

A sustentabilidade é um tema que pode gerar ansiedade, sobretudo nas gerações mais novas. Como equilibrar a consciência crítica com a criação de esperança e sentido de ação?

Acima de tudo, devemos descortinar a realidade e os desafios, sem sugar toda a energia das pessoas. Por exemplo, nos espetáculos do Periferias abordamos problemas sérios, mas também partilhamos histórias de sucesso, pequenas ações e projetos inspiradores que comprovam que é possível fazer a diferença. A ideia é que a consciência crítica não paralise e desperte curiosidade e vontade de agir. Acredito que quando o público percebe que pode contribuir de forma concreta, mesmo com gestos simples, sente-se motivado e encontra esperança. A ecoansiedade é real, mas vejo a arte a desempenhar um papel fundamental no equilíbrio entre atenção ao que nos rodeia, ação e esperança no futuro.

A ecoansiedade é real, mas vejo a arte a desempenhar um papel fundamental no equilíbrio entre atenção ao que nos rodeia, ação e esperança no futuro

Considera que a programação cultural deve assumir um posicionamento claro face à crise climática, ou entende que o papel da arte é sobretudo o de questionar e abrir espaço ao debate?

Penso que a arte consegue fazer ambas em simultâneo. Por um lado, pode assumir um posicionamento e dar visibilidade a problemas urgentes, como é o caso da crise climática. Por outro, o seu maior valor está muitas vezes em abrir espaço para reflexão e diálogo e levantar questões que não têm respostas simples. No Periferias, tentamos equilibrar essas dimensões: apresentamos conteúdos que sensibilizam e informam, mas também criamos momentos de debate e laboratórios que permitem ao público experimentar, questionar e até propor soluções. Acredito que é nesta combinação entre posicionamento e espaço de debate que a programação cultural se torna mais potente e transformadora.

Penso que a arte consegue fazer ambas em simultâneo. Por um lado, pode assumir um posicionamento e dar visibilidade a problemas urgentes, como é o caso da crise climática. Por outro, o seu maior valor está muitas vezes em abrir espaço para reflexão e diálogo e levantar questões que não têm respostas simples

Num território como Sintra, marcado por uma forte identidade natural e paisagística, que responsabilidades acrescidas sentem enquanto estrutura cultural?

Sinto que a nossa responsabilidade é dupla. Devemos cuidar do património natural e cultural que nos rodeia e reconhecer que cada ação, desde a produção de eventos até à ocupação do território, tem impacto. Assim como utilizar a cultura como forma de envolver a comunidade e inspirar comportamentos mais sustentáveis. No Periferias, tentamos essa abordagem com espetáculos educativos que evidenciam como podemos viver de forma mais equilibrada com o ambiente que habitamos. Em territórios tão ricos como Sintra, essa responsabilidade de cuidado e de transmissão de valores ambientais e culturais torna-se ainda mais evidente. Enquanto estrutura cultural, sentimos responsabilidade por este território e a nossa missão é também trabalhar para que a sua identidade natural e paisagística seja protegida. Este ano, uma das nossas criações artísticas irá homenagear, precisamente, as florestas de Sintra (e não só).

Sinto que a nossa responsabilidade é dupla. Devemos cuidar do património natural e cultural que nos rodeia e reconhecer que cada ação, desde a produção de eventos até à ocupação do território, tem impacto. Assim como utilizar a cultura como forma de envolver a comunidade e inspirar comportamentos mais sustentáveis

Acredita que esta edição do festival poderá influenciar práticas futuras do próprio Chão de Oliva no que diz respeito à sustentabilidade ambiental?

Claro que sim. Também nós estamos num lugar de aprendizagem e é a partir da troca entre artistas e público que, muitas vezes, despertamos para outras práticas.

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