No verão de 2024, na costa sudoeste da região autónoma insular da Sardenha, em Itália, o entomólogo Oscar Maioglio, que aí estava de férias, deu conta de uns pequenos louva-a-deus num arbusto a cerca de uma dezena de metros da linha costeira.
Pareciam-se com uma espécie que já se conhecia, a Ameles andreae, mas tinham asas muito mais curtas. Recolheu alguns exemplares para uma observação melhor em laboratório. Depois, contactou o seu colega Roberto Battiston, do Museu de Arqueologia e Ciências Naturais “G. Zannato”, na região italiana de Montecchio Maggiore. Há vários anos que Battiston estuda os louva-a-deus no país.
Depois de muito debate, de observações comportamentos dos insetos recolhidos, da comparação com inúmeros exemplares de coleções de museus e até de análise genéticas, os especialistas chegaram, por fim, à conclusão de que estavam perante uma espécie até então desconhecida da Ciência. Além disso, é endémica da Sardenha, o que significa que, pelo menos até agora, não foi encontrada em qualquer outro lugar do planeta.
A nova espécie foi batizada com o nome científico Ameles serpentiscauda e tem um comportamento de corte invulgar. As infames fêmeas de louva-a-deus são conhecidas por devorarem os seus parceiros depois do acasalamento ou até mesmo durante o ato. No que pode ser visto como um exemplo flagrante de tenacidade reprodutiva, mesmo depois de decapitados, os machos são capazes de fertilizar os ovos da fêmea.
Os machos desta nova espécie, para escaparem ao destino fatídico dos machos de outras espécies de louva-a-deus, lançam-se em danças elaboradas para conquistarem uma fêmea, agitando o seu abdómen como se fosse uma cobra, para hipnotizar, assim parece, a parceira. Esses movimentos serpentinos da secção posterior do seu corpo, umas vezes mais bruscos, outras mais fluidos, valeram-lhe o nome serpentiscauda.
A investigação sobre esta nova espécie sugere que a dança dos machos parece apaziguar a fêmea, numa tentativa de evitar que por ela sejam devorados. A dança não é uma performance exuberante, mas antes uma “linguagem de amor” composta por conjuntos de micromovimentos. Os cientistas acreditam que a descoberta desta nova de comunicação dos louva-a-deus mostra que estes insetos não são tão tímidos e solitários como se pensava.
Apesar de poderem ser mais populares do que outros grupos de insetos, os louva-a-deus são considerado raros e ainda pouco se sabe sobre eles. Em todo o mundo, são conhecidas perto de 2.500 espécies de louva-a-deus, um número muito inferior às centenas de milhares de espécies descritas de borboletas e besouros.
Atualmente, estão descritas apenas 13 espécies de louva-a-deus em Itália, e a última, além da nova Ameles serpentiscauda, fora descoberta na Sicília há quase 44 anos. Por isso, a descoberta da nova espécie está a ser vista como prova de que a diversidade biológica em Itália é muito maior do que se pensava.
Embora seja uma área relativamente remota, o local onde a nova espécie foi encontrada tem vindo a regista níveis cada vez mais elevados de turismo e de pressão urbana, o que levante preocupações sobre os impactos que podem ser causados no habitat de um pequeno inseto que, tanto quanto se sabe, vive apenas numa estreita área na costa com algo como umas poucas centenas de metros de comprimento.
Por tudo isso, os investigadores propõem que a nova espécie Ameles serpentiscauda dê entrada na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza já com a classificação de “Criticamente em Perigo”.
O risco de extinção da nova espécie “é real”, avisa Battiston. “Tivemos o privilégio de observar uma espécie nunca antes descrita no mundo, um animal recém-descoberto que está já em risco de extinção e merece toda nossa atenção”, salienta o investigador e primeiro autor do artigo que dá conta da descoberta.
“Vivemos num país com uma biodiversidade extraordinária, que todos os anos nos revela novas e inesperadas surpresas. Mas, ao mesmo tempo, isso recorda-nos de que temos também uma responsabilidade para com o estudo e proteção desta nova espécie”, considera o também curador no Museu de Arqueologia e Ciências Naturais “G. Zannato”.









