Expansão de minas existentes escapa a escrutínio apesar de riscos ambientais e sociais crescentes

Abertura de novas minas abranda, mas intensificação de explorações antigas levanta preocupações globais, alerta estudo.

Green Savers Redação

A expansão e intensificação de minas já existentes está a receber menos atenção regulatória e pública do que a construção de novas explorações, apesar de poder acarretar impactos ambientais e sociais mais graves a longo prazo. O alerta é deixado por um estudo internacional publicado na revista científica One Earth, do grupo Cell Press.

Segundo a investigação, liderada por Deanna Kemp, da Universidade de Queensland, na Austrália, as empresas mineiras em todo o mundo estão a apostar cada vez mais na chamada brownfield mining — a exploração prolongada e aprofundada de minas já em funcionamento — para responder à crescente procura global de minerais essenciais à transição energética.

“Grande parte do debate político centra-se na aprovação de novas minas de minerais críticos, o que é importante”, explica Kemp. “Mas o nosso estudo chama a atenção para uma mudança mais profunda: a expansão contínua de minas existentes e as responsabilidades ambientais e sociais de longo prazo que isso cria.”

Procura impulsionada pela transição energética

A necessidade global de minerais tem aumentado de forma consistente nas últimas décadas, impulsionada sobretudo pelo desenvolvimento de infraestruturas de energia limpa. Metais como cobre, cobalto e lítio são fundamentais para veículos elétricos, redes elétricas e baterias. Algumas estimativas apontam para um aumento da procura até seis vezes superior até 2040.

Perante este cenário, as empresas mineiras têm preferido expandir operações já licenciadas, uma opção geralmente mais rápida e menos sujeita a escrutínio público do que a abertura de novas minas — um processo que pode demorar até 15 anos entre licenciamento e desenvolvimento.

No entanto, esta prática tende a gerar mais resíduos, ocupar maiores áreas de terreno e provocar impactos acumulados mais significativos nos territórios afetados.

Riscos ambientais e sociais concentrados

Para compreender a dimensão global do fenómeno, a equipa analisou dados de produção mineral e investimento, identificando 366 locais de exploração brownfield em todo o mundo. Cruzando esta informação com imagens de satélite e indicadores sociais e ambientais, os investigadores chegaram a conclusões preocupantes.

Mais de 20% destas minas localizam-se a menos de 50 quilómetros de áreas ecologicamente intactas ou pouco modificadas, incluindo regiões de tundra ártica e zonas montanhosas de grande altitude. Mais de metade situa-se a menos de 20 quilómetros de áreas protegidas ou de elevada biodiversidade, o que pode representar uma ameaça direta a ecossistemas sensíveis.

O estudo revela ainda que muitas destas explorações se concentram em países com elevados níveis de desigualdade estrutural, onde o acesso à educação e ao emprego é desigual. Mais de um terço das minas analisadas encontra-se em países afetados por conflitos armados ou militarização.

No total, cerca de 80% das minas brownfield estudadas estão localizadas em contextos que combinam múltiplos fatores de risco, como escassez de água, fraca governação e liberdade de imprensa limitada.

“O que mais nos impressionou foi o facto de muitas destas minas operarem em contextos com camadas complexas de desafios sociais e ambientais”, sublinha Kemp. “São situações em que a fiscalização é mais difícil, ao mesmo tempo que os riscos se acumulam.”

Expansão difícil de detetar

A investigadora alerta ainda que algumas expansões estão a ocorrer no subsolo, recorrendo a novas tecnologias de mineração, o que dificulta a sua deteção e avaliação através de imagens de satélite. Por esse motivo, os autores admitem que o impacto real destas operações possa estar subestimado.

Para Kemp, a resposta passa por adaptar os enquadramentos legais à realidade atual do setor. “Se minas maiores, mais profundas e com maior duração forem o caminho para viabilizar a transição energética, então os sistemas de regulação devem refletir essa prática”, defende. “Isso implica avaliar as expansões mineiras pelos seus efeitos cumulativos e de longo prazo, e não tratá-las como decisões de rotina em comparação com novos projetos.”

O estudo reforça a necessidade de um olhar mais atento sobre uma transformação silenciosa da indústria mineira, cujas consequências poderão marcar o ambiente e as comunidades durante décadas.

Partilhe este artigo


Nova Edição

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.