Fim dos combustíveis fósseis só é possível com mudança da “natureza pós-colonial e extrativista dos Estados ocidentais modernos”



Regras ambientais mais apertadas e exigentes só por si não serão suficientes para acabar com os combustíveis fósseis, sugere artigo publicado na revista ‘Energy Research & Social Science’.

Marcel Llavero-Pasquina, da Universidade Autónoma de Barcelona e primeiro autor do artigo, defende que “uma mudança política mais profunda que desafie a natureza pós-colonial e extrativista dos Estados ocidentais modernos é necessária para ditar o fim da era dos combustíveis fósseis”.

No final do ano passado, na 28.ª cimeira das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP28), foi aclamado o início do fim dos combustíveis fósseis, quando os governos do mundo apoiaram um documento no qual se apelam a uma “transição para lá dos combustíveis fósseis”. Contudo, algumas vozes insurgiram-se contra as exclamações de celebração, avisando que o facto de não se ter declarado o ‘fim à vista’ da energia fóssil deixa escancarada a porta para a continuação da degradação ambiental fruto das emissões de gases com efeito de estufa libertados pela queima de combustíveis como o petróleo e o gás.

Embora várias petrolíferas, procurando navegar a ‘onda verde’, tenham tentando distanciar-se da imagem de entidades que destroem o planeta em busca de lucro à custa da saúde, futuro e até sobrevivência de ecossistemas e espécies, incluindo a nossa, explorando energias renováveis mas sem deixar cair o fóssil, investigadores de Espanha e do Chile avisam que essas empresas continuam a expandir as suas operações, em contraciclo com as crescentes exigências sociais e políticas de proteção ambiental.

Os autores deste mais recente trabalho analisaram conflitos socioambientais causados pela indústria extrativista fóssil em todo o mundo, usando os registos do Atlas Global da Justiça Ambiental (EJAtlas). E como protagonista escolheram a petrolífera francesa TotalEnergies e os 50 conflitos a que é associada nessa base de dados.

A escolha, argumentam no artigo, deve-se ao facto de a empresa estar a seguir uma ‘narrativa verde’, “ao ponto de decidir mudar o seu nome de Total para TotalEnergies em 2021” que dizem servir para transmitir ao público uma imagem de diversificação energética, com a aposta em renováveis.

“Contudo, o mix energético da TotalEnergies é ainda mais de 99% baseado em combustíveis fósseis e a empresa lançou 30 novos projetos fósseis desde janeiro de 2021”, escrevem no artigo, acrescentando que a empresa tem usado “o seu poder diplomático e político para perpetuar as ligações coloniais e pós-coloniais de França às suas antigas colónias, especialmente em África”.

Por tudo isso, os investigadores consideram que a TotalEnergies é um bom exemplo de como a indústria fóssil tem vindo a explorar países menos desenvolvidos para alimentar sociedades industrializadas, provocando, no seu encalço, conflitos sociais e ambientais que afetam fortemente comunidades locais e povos indígenas, as suas culturas e modos de vida e subsistência, e perpetuam velhas formas de colonialismo ou dão azo a novas configurações dessa relação de domínio.

“O crescimento incessante da economia global e a dissipação inexorável de energia fazem com que as empresas de petróleo e gás estejam constantemente a expandir as suas operações nas periferias do mundo para responderem à procura das economias industrializadas”, assinala, em comunicado, Llavero-Pasquina.

À medida que essa procura cresce, avançam aquilo que os investigadores chamam de as “fronteiras de extração” e “a exploração do ambiente e das comunidades locais e indígenas em áreas não industrializadas”, gerando movimentos locais de oposição aos empreendimentos extrativistas e conflitos.

“Isso é evidente, por exemplo, nos casos dos conflitos gerados pela empresa francesa TotalEnergies relativamente à extração de combustíveis fósseis no Sul Global, onde povos indígenas lutam contra essas atividades que tanto prejudicam o seu ambiente e modo de vida”, salienta Llavero-Pasquina, que, por isso, considera que as petrolíferas acabam por servir como “vetores de uma opressão que liga as sociedades que gozam dos benefícios de energia abundante àquelas que sofrem os impactos da sua extração”.

O investigador argumenta que a análise destes conflitos socioambientais evidencia “como os Estados ocidentais e os gigantes privados do petróleo e do gás se beneficiam mutuamente”, uma vez que, “no caso da TotalEnergies, vemos como as relações diplomáticas e militares francesas abrem caminho à extração de petróleo em antigas colónias francesas”.

E sugere que “é provável que, através da diplomacia do petróleo, a empresa estenda a influência pós-colonial francesa por todo o continente africano e mais além”.

Embora o trabalho se tenha focado na TotalEnergies, os autores consideram que as suas conclusões poderão eventualmente abranger outras grandes petrolíferas, como a ExxonMobil, a Chevron, a BP, a Eni e a Shell, entidades que, segundo os investigadores, têm como função “explorar e expandir as fronteiras de extração de energia nas periferias do mundo” em prol das economias industrializadas.





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