Fogos no Pantanal brasileiro levam autoridades a decretar estado de calamidade

Esse decreto facilita a cedência imediata de recursos e permite, pela Constituição brasileira, que possa ser solicitada a intervenção do Exército, da Força Aérea e dos organismos nacionais que sejam necessários neste tipo de conjuntura.

Nesta região, dezenas de voluntários e os bombeiros de Mato Grosso arriscam as suas vidas para salvar animais que fogem do fogo que se arrasta pelo Pantanal, cuja cobertura vegetal diminuiu pelo menos 15% apenas este ano.

Enquanto esperam por mais recursos, equipamentos e apoio do Governo federal para o combate aos incêndios florestais, voluntários e socorristas do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil admitem estar em desvantagem face ao incêndio.

“Os incêndios continuam e, apesar do cenário, somos a instituição que deve estar na linha da frente para tentar minimizar o impacto do fogo. Temos de cuidar dos animais e da segurança das pessoas”, disse à agência espanhola Efe Sheila Sebalhos, tenente-capitã do Corpo de Bombeiros de Mato Grosso.

Voluntários juntaram-se ao trabalho dos bombeiros, na sua maioria guias turísticos, proprietários de pousadas, pequenos agricultores e pessoas que, sensibilizadas com a emergência, viajaram de estados como São Paulo (sudeste) ou Bahia (nordeste) para ajudar no trabalho de resgate de animais.

Além de resgatar animais como ouriços, aves de grande porte, veados, crocodilos, jacarés, marsupiais, búfalos, tamanduás e até onças (o maior felino do continente americano e que tem o seu maior habitat na região), os voluntários também arriscam as suas vidas para preservar a precária infraestrutura daquela área.

“Tivemos de proteger pontes e pousadas dos incêndios. Até alguns colegas que defendiam uma casa foram cercados por incêndios e atingidos com pequenas queimaduras”, disse Ailton Lara, proprietário de uma pousada, guia turístico e um dos coordenadores de um grupo de apoio.

Também o governo do Mato Grosso do Sul decretou hoje situação de emergência devido aos incêndios que lavram no estado.

“A situação de emergência vai durar por 90 dias. Isso fortalece ações conjuntas das Defesas Civil estadual e federal. Planos de trabalho vão nortear as ações de combate aos incêndios florestais em todos os 79 municípios, incluindo questões financeiras, de contratação de membros de brigada, aluguer de aeronaves e até custear equipas de outros estados que virão para trabalhar”, disse o governador de Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja.

O clima seco e as temperaturas de até 43 graus Celsius são apontados como os principais responsáveis pelos incêndios, mas as autoridades suspeitam também de fogo posto, com a Polícia Federal (PF) a determinar hoje, em Mato Grosso do Sul, uma operação que investiga se parte do fogo foi causada por ação humana.

Em causa está a Operação Matáá, que, segundo a PF, visa “apurar a responsabilidade criminal pelas queimadas na região do Pantanal Sul”, através de 10 mandados de busca e apreensão contra suspeitos de atear fogo na região a fim de preparar a terra para cultivos agrícolas, como soja, ou para pasto de gado.

“Por meio da análise de imagens de satélites e o sobrevoo das áreas, a PF conseguiu identificar o início e a evolução diária dos focos de queimadas da região. O dano ambiental apurado supera mais de 25 mil hectares do bioma Pantanal, atingindo áreas de preservação permanentes e os limites do Parque Nacional do Pantanal Mato-grossense e da serra do Amolar”, indicaram as autoridades em comunicado.

O avanço de um incêndio na terra indígena Tereza Cristina, no estado de Mato Grosso, obrigou, no domingo, à retirada de 45 índios do povo boe bororo do local.

De acordo com a Fundação Nacional do Índio (Funai), órgão tutelado pelo Governo, a retirada do grupo foi preventiva, já que o fumo denso das queimadas e a proximidade do fogo ameaçavam a população. O grupo foi deslocado para a Casa da Saúde Indígena (Casai) e para habitações de familiares, segundo o portal de notícias G1.

Este ano, os incêndios no Pantanal aumentaram mais de 230% em relação a 2019 e as críticas à falta de uma política ambiental mais enérgica por parte do Governo do Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, não demoraram a chegar.

“O desprezo do Governo Bolsonaro pela agenda ambiental é crónico e tem grande poder de destruir os nossos biomas”, escreveu a ex-candidata presidencial, ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, na rede social Twitter.

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