No início de ano 2018, a Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza, lançou uma acção nacional denominada “12 meses/12 iniciativas” com o objectivo de chamar atenção para 12 problemas ambientais que ocorrem em território nacional e para os quais urge encontrar soluções. Depois do olival intensivo em Janeiro, das podas abusivas em Fevereiro e da pesca/comércio ilegal de meixão em Março, o problema ambiental em destaque este mês situa-se no distrito de Vila Real, e é o caso da utilização de herbicidas.

Em comunicado, esta associação lembra que Portugal tem registado melhorias ao nível ambiental, “sobretudo nos últimos 20 anos, em áreas tão diversas como os resíduos, a água ou o tratamento de efluentes domésticos, existem ainda diversos problemas ambientais que teimam em persistir em várias regiões do país – descargas ilegais de efluentes industriais nos nossos rios, excesso de monoculturas agrícolas intensivas, povoações sem tratamento de esgotos e uma área florestal de eucalipto em expansão, são apenas alguns exemplos que têm provocado impactes gravíssimos no país, tais como a poluição no rio Tejo, a degradação do solo, as vagas de incêndios florestais e o despovoamento do território.”

A Quercus, através do seu Núcleo Regional de Vila Real dedicou o mês de Abril ao tema da utilização de herbicidas. Nesse sentido, tem vindo a recolher dados e informações e está a preparar, em parceria com a Câmara Municipal de Vila Real, um Workshop sobre a temática do Glifosato. Este será direccionado para os Presidentes das Juntas de Freguesia do Concelho e terá lugar no dia 18 de Maio, pelas 18 horas, na Agência de Ecologia Urbana, em Vila Real. Terá como principal objectivo a sensibilização para esta problemática da aplicação dos herbicidas, mostrando quais as consequências que advêm da sua aplicação e quais as alternativas viáveis e credíveis que podem ser utilizadas para eliminar as ervas daninhas.

Os herbicidas têm sido introduzidos na agricultura (e horticultura) principalmente para combater as ervas daninhas que competem com as culturas no consumo de nutrientes e luz solar, resultando numa redução no rendimento das colheitas. Outras utilizações comuns são erradicar espécies de plantas invasoras ou plantas indesejáveis nas explorações agrícolas, auxiliar na gestão dos espaços públicos, por motivos estéticos ou práticos (por exemplo, passeios, pavimentos e caminhos de ferro) ou para o controlo das ervas daninhas em jardins privados.

No Workshop a organizar, a Quercus pretende demonstrar que embora o uso de pesticidas sintéticos na agricultura possa ter ajudado a aumentar a produção de alimentos, isso acarretou grandes custos para a saúde humana, o ambiente e os recursos naturais.

A aplicação de herbicidas

Em Portugal o DL º35/2017, de 24 Março 2017, regula a aplicação de produtos fitofarmacêuticos. Este Decreto-Lei proíbe a aplicação de pesticidas em espaços públicos, não fazendo qualquer tipo de impedimento a quem usar estes produtos, por exemplo na agricultura.

“É assim urgente informar a população sobre quais os impactes negativos da utilização de pesticidas na saúde humana (trabalhadores, suas famílias, residentes e consumidores) e no ambiente, bem como quebrar o mito de que a agricultura intensiva baseada no uso de pesticidas contribuiu para reduzir a fome no mundo. Esse tipo de agricultura tem sobretudo ajudado, sim, a aumentar o consumo de alimentos e o desperdício alimentar, especialmente nos países industrializados”, alertam os responsáveis da Quercus.

Existe a percepção errada e geral de que os herbicidas são seguros para a saúde humana e têm pouco impacto no ambiente. Com base neste equívoco, os humanos desenvolveram práticas agrícolas e investiram em desenvolvimento tecnológico que depende completamente do uso de pesticidas e herbicidas, tendo muitos agricultores abandonado completamente as técnicas agrícolas mais sustentáveis. “Como resultado, todos os dias, toneladas de herbicidas são libertadas nos campos e seus arredores, que não só colocam a saúde humana em risco, mas também interferem nos processos biológicos presentes na natureza e nos serviços ecossistémicos. As ervas daninhas tornam-se resistentes, os solos erodidos e inférteis, as culturas susceptíveis a agentes patogénicos e doenças, e os agricultores sentem-se obrigados a usar cada vez mais pesticidas para combater as novas pragas, e acabam presos numa “armadilha de pesticidas”.

De forma semelhante a outros pesticidas, devido às suas propriedades, quando essas substâncias são usadas em campos abertos, elas também afectam outras espécies de plantas não-alvo na área e nos arredores, e através de uma cascata de interacções ecológicas acabam por afetar a biodiversidade. Além disso, essas mesmas propriedades possibilitam a interacção com células vivas de espécies animais, incluindo a dos seres humanos, e podem resultar em toxicidade. Os herbicidas também podem ser tóxicos para os microrganismos benéficos do solo causando um declínio na biodiversidade, nos nutrientes do solo, fertilidade e sistemas de defesa, tendo isso um impacto direto na agricultura, onde as culturas dependem da qualidade do solo. Em geral, o uso desses produtos químicos tem sido tão elevado e intensivo que causou um grande impacto não apenas na saúde do solo e na produção agrícola, mas também na saúde humana, no ambiente e nos seus ecossistemas.

“Já temos todas as ferramentas necessárias para começar gradualmente a construir um modelo agrícola livre de pesticidas e mostrar que o controle de ervas daninhas é possível usando outros meios além de herbicidas prejudiciais. Existe uma necessidade urgente de desenvolver métodos tecnológicos de agricultura que não dependam do uso de pesticidas”, defende a Quercus.

Ao integrar as diferentes práticas agrícolas disponíveis (por exemplo, métodos preventivos, agronómicos e mecânicos) com o amplo conhecimento que adquirimos sobre as características biológicas e ecológicas das ervas e culturas de plantas, hoje os agricultores são capazes de superar os principais desafios agrícolas e gerir o crescimento das ervas daninhas com sucesso, mantendo um alto rendimento agrícola, evitando espécies resistentes, protegendo a biodiversidade e a erosão do solo e reduzindo as emissões, entre outros.

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