Ilídio Anastácio: “Um paradigma possível”



“QUANDO DECIDIMOS REFLECTIR ETICAMENTE SOBRE ALGUM ASPECTO EM PARTICULAR, ambiental no caso, somos naturalmente impelidos para uma simplificação das situações, estabelecendo criteriosamente o que será eticamente bom ou correcto, assim como o que será eticamente mau ou incorrecto.

Esta simplificação maniqueísta (bom versus mau), em regra, cai invariavelmente na ideia de que o Homem é mau e a Natureza é boa, logo o Homem estraga a Natureza. O ambiente seria, portanto, um domínio puro, vítima da ganância, inconsciência e brutalidade humana. Bem, sejamos claros, a espécie humana tem, de facto, dizimado não só espécies como ecossistemas inteiros, contaminando terras, rios, mares e atmosfera e sugado os recursos naturais até à exaustão. Esta situação é incontornável.

Ainda assim, em minha opinião, não poderemos aceitar a perspectiva maniqueísta na qual a espécie humana é uma figura bizarra e destruidora do mundo natural e do próprio planeta. Penso que este juízo corresponde a um paradigma ruinoso e que consiste em entender o Homem como alguém que está além da Natureza, fora dela, e que a destrói para seu benefício imediato.

Ora enquanto a Humanidade for considerada um elemento externo face à Natureza, continuamos invariavelmente no paradigma Homem Predador da Natureza. Esta simplificação, este paradigma, tão limitado, e ainda que esteja subjacente à nossa sociedade de consumo que se expande à escala global, contrasta com aquilo que de facto as coisas são. A realidade é complexa, tudo está interligado, tudo está dependente entre si e os seres humanos estão inexoravelmente ligados aos ritmos naturais. A simplicidade do paradigma maniqueísta da sociedade de consumo não tem sustentação na realidade.

O que se afigura como um paradigma mais sustentável é a Humanidade ser parte integrante da Natureza, dos seus ecossistemas e não um elemento externo que a consome. Eis um ponto de partida. Aqui estamos perante um paradigma, um modelo se quisermos, mais complexo, menos linear, do qual deverão surgir interpretações e ideias eticamente mais interessantes, menos rígidas e mais contextualizadas.

O distanciamento do Homem face à Natureza não tem suporte real porque a Humanidade surgiu na Natureza e independentemente da sua evolução cultural e tecnológica, não consegue deixar de ser, essencialmente, um ser plenamente biológico. Mas também é mais do que isso, é mais que os ciclos naturais. E portanto estamos perante a complexidade.

Julgo que ao nível ambiental muito mais do que categorizar a ética deve ser agregadora, aceitar a diluição de fronteiras rígidas, apresentar pontos de partida reais (ainda que com incertezas), sem dogmas e sem receio do desconhecido, tendo em vista a vida boa, a satisfação e o prazer de viver, mas em conformidade com um paradigma equilibrado e sustentado na realidade: a Humanidade é parte integrante da Natureza. Quais as implicações deste modelo? São aquelas que cada um está disposto a assumir. Estaremos verdadeiramente dispostos a isso?

Teríamos de ficar atentos e alertados para as consequências ambientais dos bens que adquirimos, considerando todo o ciclo de vida do produto, comprar o que de facto necessitamos, Reduzir, Reciclar, Reaproveitar… porque nos preocupamos, porque gostamos da Natureza, porque queremos viver numa casa limpa e durável… a Terra. E fazê-lo não por condescendência, não por sermos melhores, não por sermos piores, não por obrigação, mas porque estarmos todos ligados, todos dependentes uns dos outros, e como tal partilhamos o mesmo destino.

A singularidade dos seres humanos encontra assim um desafio decisivo: viver em harmonia com a Natureza e ao mesmo tempo viver bem, com conforto, com alimentação adequada, com tecnologias avançadas. Todos sabemos da absoluta insustentabilidade da actual sociedade de consumo, mas alterar esse rumo não deverá estar dependente de uma catástrofe anunciada ou de uma questão de sobrevivência, devemos fazê-lo pela nossa felicidade, pelo nosso bem-estar, pelo prazer de podermos estar uns com os outros.

Deverá ser a felicidade o móbil da mudança e não a desgraça. E assim, com esse poderoso objectivo, assumir uma atitude modesta e parcimoniosa face ao que a nossa casa nos pode oferecer. A Natureza terá de viver com a nossa cultura, com a complexidade das nossas sociedades, pois todos habitamos o mesmo planeta e o ser humano é o denominador comum que tem como responsabilidade a sua harmonização.

Em jeito de resumo diria apenas que o que importa, em minha opinião, é nos reposicionarmos perante o mundo natural, não como alguém que se coloca numa posição superior arrogando-se ao direito de ser tolerante, condescendente, ou caritativo, nem tão pouco uma posição inferior em que nos consideramos como pouco mais que um vírus planetário, mas sim como alguém que ao assumir a sua própria natureza se assume como parte integrante da Natureza, assumindo um destino comum. Este enquadramento muda tudo e é um desafio permanente, e difícil, no qual o génio humano terá de saber encontrar o seu próprio caminho e, portanto, novas soluções para todos podermos viver bem.”

Ilídio Anastácio é leitor do Green Savers. Quer publicar o seu artigo no nosso agregador? Envie-nos o seu texto para info@greensavers.sapo.pt ou cmartinho@gci.pt. Estamos à procura da sua inspiração ou desabafo.

Foto: josef.stuefer / Creative Commons



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