Investigadores testam cereais com maior potencial para salvar o tartaranhão-caçador e aumentar produção nacional



Investigadores do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV) estão a realizar ensaios de seleção de variedades de cereais para escolher aquelas que mais se adaptam ao ciclo reprodutivo do tartaranhão-caçador (Circus pygargus) e às regiões onde são cultivadas.

O objetivo é salvar esta espécie ameaçada da extinção iminente e aumentar a produção cerealífera nacional, aliando a conservação da natureza ao fomento da agricultura, foi hoje divulgado em comunicado.

Desenvolvidos no âmbito do projeto “LIFE SOS Pygargus – Ações urgentes de conservação das populações de tartaranhão-caçador em Portugal e Espanha”, coordenado pela organização não governamental de ambiente Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, estes ensaios envolvem ainda a Associação Nacional de Produtores de Proteaginosas, Oleaginosas e Cereais (ANPOC) e a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), parceiras do projeto.

Primeira campanha de ensaios já arrancou

A primeira campanha de ensaios de seleção das variedades de cereais arrancou em dezembro de 2024, na Quinta do Valongo, em Mirandela (pertencente ao Polo de Inovação de Mirandela da CCDR-N), em Trás-os-Montes, num total de 20 variedades testadas das espécies trigo mole, trigo barbela, centeio, aveia e triticale. As mesmas variedades também estão a ser testadas em ensaios no Polo de Inovação de Elvas do INIAV, no Alentejo.

Cultivo de variedades de cereais no Polo de Inovação de Mirandela da CCDR-N.
Foto: Palombar

Os ensaios visam selecionar as variedades daqueles cereais mais adaptadas ao ciclo reprodutivo do tartaranhão-caçador, mais ajustadas ao clima da região onde são cultivadas e mais resilientes às alterações climáticas, bem como resistentes a doenças, sendo por isso mais produtivas e também com maior valor nutricional.

Variedades de colheita mais tardia são essenciais para salvar a espécie

O tartaranhão-caçador é uma ave migratória em elevado risco de extinção, que, vinda de África, permanece em Portugal entre março e setembro. A sua população diminuiu 80% nos últimos dez anos. Nidifica no solo, sobretudo em campos agrícolas com cereais e forragens, e, cada vez mais, a ceifa, em particular para feno, coincide com o seu período reprodutor.

Todos os anos, diversos fatores ameaçam a espécie, causando a mortalidade e/ou uma grande redução do sucesso da reprodução, colocando em risco a sua sobrevivência em Portugal e Espanha. Um fator importante é a perda de habitat, devido ao declínio acentuado da área semeada com cereais e a sua substituição por culturas permanentes, ou outros tipos de uso do solo, como a construção de infraestruturas. A substituição das áreas de cereal por forragens e as alterações climáticas aumentaram significativamente as atividades de ceifa durante o período de nidificação, com forte impacto nos casais reprodutores por destruição dos ninhos e aumento das taxas de predação.

Quanto mais tardia for a colheita de cereais, maior probabilidade as crias de tartaranhão-caçador terão de vingar e sobreviver, contribuindo para salvar a espécie. Esta será, por isso, uma característica fundamental a apurar na seleção das variedades.

“O futuro do tartaranhão-caçador está fortemente ligado à sustentabilidade do cultivo de cereal, depende da nossa capacidade de conciliar agricultura e conservação, criando valor para ambas. Escolher cereais que respeitem o ciclo de vida desta espécie não é apenas salvar o tartaranhão, é promover paisagens agrícolas mais biodiversas e sustentáveis para todos, com uma valorização de práticas amigas das aves e dos consumidores”, destaca o biólogo Joaquim Teodósio, coordenador do projeto.

Melhoramento e seleção genética

As diferentes variedades de cereais testadas, todas de origem nacional, são provenientes do Programa de Melhoramento Genético de Cereais do INIAV. Este programa baseia-se em cruzamentos direcionados e controlados, os quais são realizados no campo entre germoplasma de uma mesma espécie de cereal, selecionando aqueles genótipos que reúnam as características pretendidas, as quais são posteriormente avaliadas e validadas por seleção genética em campo.

“É importante salientar que, neste tipo de cereais, pertencendo a espécies autogâmicas, não existe polinização cruzada, ou seja, uma das metodologias usadas para promover a variabilidade genética, essencial num programa de melhoramento genético, são os cruzamentos artificiais induzidos. Ao cruzarmos indivíduos dentro da mesma espécie promovemos a recombinação, a seleção dos melhores genótipos e o melhoramento genético, obtendo, desta forma, novas variedades com características superiores às existentes. De referir que, neste tipo de melhoramento, não há edição ou modificação de genes, apenas recombinação e seleção dos genótipos que melhor cumprem os requisitos pretendidos”, explica Rita Costa, investigadora do INIAV.

Criar uma organização de produtores de cereais no Norte do país

O projeto quer incentivar o cultivo das variedades de cereais selecionadas no norte do país, impulsionando a produção cerealífera nacional, ao mesmo tempo que se protege o tartaranhão-caçador, espécie que tem, nessa região, uma área vital. Com este propósito, a ANPOC pretende criar uma organização de produtores de cereais no Norte, a qual será fundamental para alavancar o setor e promover a segurança alimentar, aumentando a oferta nacional desta matéria-prima essencial.

“Uma das particularidades mais notáveis deste projeto é o facto de responder, de forma integrada, aos três pilares da sustentabilidade: ambiental, social e económica. A criação de uma Organização de Produtores a Norte do país é peça fundamental para este efeito, pois permitirá agrupar os agentes agrícolas, criar escala e potenciar negócios que fomentem eficazmente a produção de cereais na região. Unir agricultores e desenvolver trabalho em fileira, desde a produção à comercialização, sem esquecer a investigação, é crucial para sustentar o projeto a longo prazo”, refere Astride Sousa Monteiro, diretora executiva da ANPOC.

Cereais direcionados para a produção de pão com valor acrescentado

Os cereais cultivados, trigo e centeio, são utilizados para produzir pães diferenciados e de valor acrescentado para as lojas Continente. Estes produtos têm um papel importante na sensibilização dos consumidores sobre o tema da biodiversidade. O Clube de Produtores Continente é um parceiro chave deste projeto, empenhado na oferta de pão produzido a partir de cereais nacionais provenientes de searas com biodiversidade e que garantem a conservação de espécies em risco, como é o caso do tartaranhão-caçador.

“Este projeto resulta de um consórcio multidisciplinar e permite-nos salvaguardar uma espécie que sabemos estar em vias de extinção. Seja através da seleção das melhores variedades e da partilha de condutas adequadas junto dos produtores, procuramos alinhar estas boas práticas às necessidades do mercado e dos nossos clientes, oferecendo um pão produzido a partir de cereais nacionais provenientes de searas monitorizadas para proteger o tartaranhão-caçador”, afirma Ondina Afonso, presidente do Clube de Produtores Continente.

Alargar o cultivo de variedades selecionadas a Espanha 

O LIFE SOS Pygargus tem como território de intervenção as principais áreas de distribuição da espécie na Península Ibérica. Nesse sentido, também é fundamental que se encontrem soluções para aumentar a área cultivada com cereais amigos do tartaranhão-caçador na raia luso-espanhola, contribuindo para ampliar o habitat para a nidificação e melhorar a sobrevivência das crias, bem como reduzir a mortalidade da espécie. Para tal, será fundamental o papel desempenhado pela Consejeria de Agricultura, Ganaderia y Desarrollo Sostenible – Junta de Extremadura, em Espanha, igualmente parceira do projeto, que irá trabalhar no sentido de incentivar o cultivo destes cereais nessa região espanhola, em sinergia com o LIFE Agrosteppes e o Centro de Investigaciones Científicas y Tecnológicas de Extremadura (CICYTEX).

Tartaranhão caçador.
Foto: Pedro Alves / Palombar

“Os responsáveis técnicos do projeto da Junta de Extremadura consideram que o LIFE SOS Pygargus, que combina a conservação de espécies ameaçadas, como o tartaranhão-caçador, com a preservação do meio agrícola e dos sistemas agrícolas, além da melhoria e incentivo do cultivo e produção de cereais, é fundamental. Isto porque, além de garantir o futuro da espécie, também tem um impacto positivo na manutenção da população rural e do meio agrícola”, salienta María Jesús Palacios, responsável pelo Departamento de Vida Silvestre da Junta de Extremadura.






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