Linces e coiotes escapam aos predadores, mas acabam por morrer às mãos dos humanos

Linces e coiotes estão a dispersar-se para áreas com forte presença humana para escaparem a predadores de topo como o lobo e o puma. Mas os encontros com os humanos têm resultado na morte de muitos desses animais.

Filipe Pimentel Rações

Os ecossistemas são complexas redes de interações entre organismos (incluindo humanos), bem como entre eles e elementos da paisagem, como o solo, rios e montanhas. Em equilíbrio, o tamanho das populações é determinado pela disponibilidade de alimento e de presas e pelo número de predadores.

Numa investigação feita no estado de Washington, nos Estados Unidos da América, no âmbito do projeto Washington Predator-Prey Project, os cientistas procuraram perceber de que forma a presença de predadores de topo, como o lobo (Canis lupus) e o puma (Puma concolor), estavam a influenciar as populações de predadores menores (mesopredadores) como o coiote (Canis latrans) e o lince-pardo (Lynx rufus).

Lince-pardo (Lynx rufus).
Foto: mandarinblues / Wikimedia Commons

Em condições ‘normais’, os superpredadores estariam a controlar os números de linces e coiotes, impedindo a sua proliferação descontrolada, mas percebeu-se que essas duas espécies encontraram forma de escapar, dispersando-se para zonas urbanas com forte presença humana.

Acontece que os mesopredadores têm conseguido, de facto, escapar às garras dos lobos e dos pumas, mas têm encontrado o seu fim às mãos de um outro superpredador.

Debruçando-se sobre áreas rurais nessa região dos EUA, os investigadores concluíram que era três vezes mais provável que os linces e os coiotes fossem mortos às mãos dos humanos, caçados ou através de armadilhas, do que pelos lobos e pumas.

Laura Prugh, investigadora de ecologia da vida selvagem na Universidade de Washington e principal autora do artigo divulgado recentemente na ‘Science’, explica que os linces e os coiotes começaram a deslocar-se para áreas com maior presença humana para fugirem aos seus predadores.

Coiote (Canis latrans) a atravessar uma estrada de asfalto nos Estados Unidos.
Foto: Alan Schmierer / Wikimedia Commons

Contudo, apesar de esse comportamento indicar que “os coiotes e os linces provavelmente entenderam que esses grandes predadores eram uma ameaça maior do que as pessoas”, os humanos eram “de longe a maior causa de morte”.

Para chegarem a essas conclusões, os cientistas estudaram a atividade de centenas de lobos, pumas, linces e coiotes com coleiras GPS entre o final de 2017 e o verão de 2022, abrangendo uma multiplicidade de contextos, como florestas, zonas de campismo, de caça e de pesca, áreas agrícolas, de exploração madeireira e zonas residenciais.

Imagem de coiote com coleira GSP captada por fotoarmadilhagem.
Foto: Savanah Walker / coautora do artigo

De acordo com os dados recolhidos, sempre que os lobos e os pumas se instalavam numa área ocupada por linces e coiotes, estes dois últimos acabavam por se dispersar para áreas com grande presença humana, procurando alguma forma de abrigo.

“Os coiotes e os linces começaram a usar áreas que tinham quase o dobro da influência humana comparando com os locais onde estavam antes de os grandes carnívoros terem chegado”, afirma Prugh.

E os encontros entre humanos e mesopredadores tendem a não acabar bem. A investigação revela que dos 24 coiotes e dos 22 linces acompanhados pelos cientistas, metade foram mortos por pessoas, sobretudo depois de terem atacado animais de gado e galinhas.

No entanto, os investigadores asseguram que a mortalidade causada pelos humanos não representa uma ameaça às populações de linces e coiotes, dois dos mesopredadores mais abundantes na América do Norte. Ainda assim, avisam que nem todos os mesopredadores são tão resilientes, e que algumas espécies, como a marta (Pekania pennanti), reproduzem-se mais lentamente e as suas populações estão mais vulneráveis às atividades humanas.

Os cientistas dizem que sã precisos mais estudos para perceber melhor a forma como esses mesopredadores ocupam e vivem em espaços com grande presença humana, não só para se poderem avaliar os riscos para os animais, mas também para as pessoas.

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