Macacos-do-japão, afinal, pescam mesmo para sobreviver à escassez de alimento no inverno



Os macacos-do-japão (Macaca fuscata) são primatas característicos das ilhas japonesas e a Ciência classifica-os como sendo omnívoros, ou seja, apresentam uma alimentação variada, como frutos, plantas e insetos. São amplamente conhecidas fotografias destes animais peculiares refastelados em fonte de água quente e o seu pelo esbranquiçado e farto e a face rosada tornam-nos inconfundíveis.

Macaco-do-japão numa fonte de água quente para se proteger do frio.

Apesar de no passado terem sido capturadas imagens que mostram estes animais a alimentarem-se de peixes, o comportamento era tido como excecional e oportunista, uma forma de compensar a falta de vegetação, coberta pela neve ou destruída pelo frio, que ocorre durante os meses de inverno. No entanto, uma nova investigação sugere que a pesca pode afinal ser um comportamento habitual entre os macacos-do-japão.

Analisando a população destes primatas que reside na região montanhosa de Kamikochi, nos Alpes japoneses, um grupo de cientistas acredita ter encontrado provas de que a captura e consumo de peixes por estes macacos é um comportamento mais frequente e mais intencional do que se supunha, e não é mero fruto do acaso.

“Os macacos-do-japão de Kamikochi nos Alpes japoneses enfrentam um dos ambientes mais frios e austeros durante o inverno, altura em que a escassez de alimento os coloca em risco”, escrevem os cientistas num artigo publicado no final do ano passado na revista ‘Scientific Reports’. Os primatas podem ter desenvolvido esse comportamento precisamente para diversificar as fontes de alimento e, assim, para evitarem morrer à fome.

Os especialistas usaram equipamento de filmagem e sensores para documentarem 14 casos de macacos que pescam para se alimentarem, um comportamento que foi observado “entre, pelo menos, três grupos diferentes de macacos” e que, argumentam, “parece ocorrer independentemente da altura do dia e das condições meteorológicas”.

Agora que este comportamento foi confirmado e documentado cientificamente pela primeira vez, acredita-se ser “uma extensão de comportamentos existentes e documentados de alimentação de vegetação que cresce acima da superfície da neve, bem como de matéria vegetal aquática e de insetos que se encontram nessas plantas”.

Os autores argumentam que os cursos de água, como ribeiras, que contêm essas plantas são também habitados por salmonídeos, peixes da família do salmão, pelo que “é natural pensar que, talvez, os macacos possam desviar-se da sua alimentação insectívora e procurem uma à base de peixe”.

Algumas das imagens captadas pelos investigadores mostram que os macacos-do-japão apanham peixes vivos diretamente dos cursos de água.
Fonte: Artigo publicado na revista ‘Scientific Reports’

A pesca no mundo dos macacos é, segundo os especialistas, um comportamento “extremamente raro”, sendo que já foram observados orangotangos e alguns babuínos a apanharem peixes em pequenos lagos, embora esses peixes tenham ficado presos nas margens ou os corpos de água tenham secado, pelo que a técnica não se assemelha à observada nos macacos-do-japão, que pescam a suas presas enquanto essas nadam nos riachos.

Nos vídeos captados, é possível ver que os macacos, quando se alimentam perto dos riachos, tendem a focar a sua atenção nos peixes que passam por perto, uma reação que os cientistas atribuem a uma “pré-adaptação” desses animais para a pesca, uma capacidade já existente, mas que não sobressaía.

No entanto, os investigadores não sabem ainda como esse comportamento terá surgido nem como se terá disseminado entre os macacos. “É genético? É um tipo de cultura que pode ser transmitida dentro do grupo?”, questiona Koji Tojo, da Universidade de Shinshu e um dos autores do artigo.

É precisamente a essas perguntas que os investigadores querem responder, com trabalhos futuros, especialmente porque nem todos os macacos demonstram interesse na pesca, apenas alguns.



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