Novo livro reflete sobre a “paisagem construída pelas pescas portuguesas”



O novo livro “A Arquitetura do Bacalhau e Outras Espécies”, de André Tavares e Diego Inglez de Sousa, reflete sobre como a relação de Portugal com vários peixes deu origem a construção, física e social, ao longo de séculos.

O livro nasceu de um projeto de investigação ao qual André Tavares esteve ligado a partir de 2017, no Laboratório de Paisagem, Património e Tecnologia da Universidade do Minho, com financiamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia, tendo desde então ganhado uma dimensão alargada através do projeto, também coordenado por Tavares, agora no Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, “Fishing Architecture. The Ecological Continuum between Buildings and Fish Species”, que vai decorrer até 2027 e conta com financiamento do Conselho Europeu de Investigação.

Apesar do destaque para o bacalhau, o livro contém capítulos dedicados à sardinha, ao atum, à pescada e ao polvo, peixe-gato e tamboril.

“Neste livro, a arquitetura do bacalhau são as secas construídas em vários pontos da costa portuguesa, mas também os armazéns frigoríficos que lhes serviram de apoio, os cais de acostagem que acolhiam os navios da pesca e comércio, as lojas e entrepostos que garantiam a sua distribuição”, pode ler-se no prólogo.

Logo de seguida, e lembrando que se trata de fenómenos “menos evidentes”, são mencionadas enquanto exemplo de “arquitetura de peixes as casas e os bairros de pescadores, construídos em função das pessoas, segundo critérios de investimento e objetivos centrados em terra, e não imaginados em função das dinâmicas dos ecossistemas marinhos”.

“O interesse em compreender esta arquitetura não está na forma do edifício ou no elogio da virtuosidade do arquiteto, mas, sim, na manifestação construída da presença humana na natureza. A pesca é um processo predatório importante nos equilíbrios precários dos ecossistemas — os humanos são predadores vorazes — e os objetos construídos para apoio às atividades de pesca contribuem para ampliar a sua capacidade de exploração de recursos naturais”, recordam os autores.

Assim, é realçado que “a arquitetura dos peixes revela vários aspetos dessa interação permanente entre terra e mar, demonstra que o mar é um lugar e não apenas uma linha do horizonte, e que as construções que [se fazem] em terra têm consequências nesse ecossistema”.

O livro chama ainda a atenção para o facto de “olhar para o peixe como motor da construção [permitir] ultrapassar o viés nacionalista da história e inscrever a construção da arquitetura da pesca no contexto das dinâmicas ambientais do Atlântico Norte”, para além de permitir “relativizar a celebração identitária de muitas arquiteturas vernáculas, cujas géneses, lógicas e sentidos são partilhadas em tantos lugares equivalentes em ambos os lados do Atlântico”.

“Do final dos anos de 1930 a meados dos anos de 1950, o bacalhau construiu uma parte substancial da paisagem portuguesa, cultural e fisicamente. Tirando partido da fisiologia do bacalhau, o Estado Novo investiu seriamente na construção de uma gastronomia nacional, capaz de dar sentido à narrativa do passado e presente glorioso de uma nação de marinheiros e evitar a transformação tecnológica e comercial inevitável no pós-guerra. Foi essa a principal razão pela qual Portugal passou a ser sinónimo de bacalhau quando, na maior parte dos livros de história da pesca atlântica do bacalhau, Portugal é apenas uma nota de rodapé”, sublinha a obra.

Nesse sentido, para lá da propaganda estabelecida pelo Estado Novo em torno da pesca, a construção dos bairros de pescadores, principalmente entre os anos 1930 e 1950, procurou fazer com que essas edificações marcassem “o imaginário das pescas e sugerem ser o reflexo construído dos ecossistemas marinhos: os pescadores pescam os peixes, os bairros dos pescadores são a arquitetura dessa atividade. Mas não são. Ao invés de marcarem a dinâmica da pesca, os bairros seguiam os conflitos sociais decorrentes da atividade industrial e procuravam apaziguar as constantes tensões sociais decorrentes do trabalho”.

“Ler a história do bacalhau pela arquitetura das suas construções oferece uma imagem alternativa à história oficial do ‘bacalhau nacional’, tornando evidentes as contradições do Estado Novo e um certo improviso das políticas de Henrique Tenreiro [responsável pelas pescas na ditadura]. Independentemente da crítica social, o que a história da arquitetura mostra é a necessidade de estudar e considerar os ecossistemas com que as políticas terrestres se relacionam para evitar destruir os ecossistemas que asseguram a sobrevivência das populações e, também, para revelar a violência que resulta de políticas que não consideram a sua própria dimensão ecológica”, concluem, no prólogo.

“A Arquitetura do Bacalhau”, que teve colaboração de várias pessoas com destaque para Marta Labastida, Daniel Duarte Pereira, Aitor Ochoa Argany e José Pedro Fernandes, conta com edição da Dafne e vai ter uma primeira apresentação no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, na quinta-feira, às 18:30, seguindo-se o Museu Marítimo de Ílhavo, no sábado, e o Cinema Passos Manuel, no Porto, no dia 07 de dezembro.



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