O plano de um engenheiro brasileiro para acabar com mudanças de meio de transporte no dia-a-dia

Todos os dias, cerca de 9,5 milhões de passageiros são transportados nos autocarros e metro de São Paulo, no Brasil, o que equivale a praticamente toda a população de Portugal. Muitos destes têm de fazer as chamadas “baldeações” – mudança de meio de transporte – para chegar a casa, trabalho ou outro destino final.

Para acabar com este martírio do dia-a-dia, o engenheiro Renato Oliveira Arbex está há cinco anos a trabalhar num cálculo matemático para que todos os cidadãos consigam ir directamente para casa, num único transporte, e ganhem mais algumas horas para si.

Segundo o doutorando de Engenharia de Transportes da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, esta mudança na estratégia de transportes da cidade possibilitaria também a redução de autocarros na cidade, com tudo de positivo que isso significaria para o ambiente da cidade.

“A nossa intenção é fazer como que os autocarros tenham comodidade e confiança semelhante à do metro, que passa a cada cinco minutos e tem poucas mudança”, explicou Arbex à BBC Brasil. “Para além dos benefícios para os utilizadores, as empresas gastarão menos para operar o sistema com uma frota menor.”

O ponto de partida para a pesquisa de Arbex passou por uma análise do desenho das linhas da cidade e a mapeamento das que passam por terminais e grandes corredores.

Em seguida, o engenheiro fez um levantamento dos pontos de partida e chegada de cada um dos passageiros, elaborando uma teia com milhões de traços. Com os dados em mão, definiu, através de um programa desenvolvido por ele, quais as melhores vias e rotas para cada passageiro.

O software combina todas as rotas possíveis até atingir o número de linhas capazes de atender todas as pessoas da melhor maneira possível. A intenção é reduzir os tempos de viagem, as mudanças de transporte e até a quantidade de autocarros  nas ruas.

A confiança do engenheiro no sucesso da pesquisa aumentou após concluir um estudo semelhante numa região da Suíça para sua tese de mestrado, em 2013. Nele, Arbex obteve o melhor resultado entre todos os investigadores que usam a área como teste desde 1978, eliminando 99% das mudanças de transportes

Má experiência de metro

O engenheiro começou a estudar mobilidade urbana durante a sua graduação em engenharia civil na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Tinha uma rotina de ida e volta para a faculdade muito cansativa, usava dois autocarros e um deles estava muito lotado. Sempre me perguntei se não haveria um desenho de uma rede mais optimizada, com menores tempos de viagem e menos lotados”, explicou à BBC Brasil.

O seu projecto para São Paulo depende sobretudo de cálculos, mas a maior dificuldade é representar, numa conta, a forma como as pessoas escolhem seus trajectos. “Há muitas pessoas a sair do Tucuruvi (zona norte) para vários destinos diferentes. O cálculo deve pensar como esses passageiros e mostrar qual caminho eles fariam caso pudessem evitar as mudanças de transporte”, diz.

Outro desafio é reduzir o tempo de viagem dos passageiros que moram nas áreas mais afastadas – o algoritmo também visa eliminar as linhas que dão muitas voltas até o destino. A intenção é valorizar os grandes corredores, que atingem as maiores velocidades.

“Se tirarmos 20% dos veículos da rua, a cidade está em Janeiro durante todo o ano [Janeiro é o mês de Verão no Brasil]. No período de férias, a queda de veículos nas ruas é pequena, mas suficiente para praticamente eliminar o trânsito.”

Foto: Mark Hillary / Creative Commons

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