Painéis solares também avariam. E o mundo não está preparado para os reciclar

Cada vez mais as fontes de energia renovável são a primeira opção, e os painéis solares são uma das alternativas mais procuradas. A procura e o desenvolvimento da tecnologia fez o preço ficar mais baixo, aumentando a receptividade de empresas e particulares.

Na prática, estes painéis são peças complexas de tecnologia, e como todo o material tecnológico tem uma vida útil. Infelizmente não há grandes planos para descartar estes enormes painéis de forma sustentável.

A Agência Internacional de Energia Renovável estima que em 2050, existam cerca de 78 milhões de toneladas métricas de painéis solares obsoletos, e que cerca de 6 milhões de toneladas métricas sejam descartadas anualmente.

Pode parecer pouco, mas já percebemos no passado (e no presente) que as estimativas pecam sempre por defeito, e o que parece um pequeno problema rapidamente se torna grande.

Reciclar e recuperar os elementos mais valiosos destes painéis, como a prata e o silício requerem soluções de reciclagem personalizadas, e praticamente não há empresas preparadas para essa reciclagem.
Num artigo sobre reciclagem de painéis solares, o investigador Meng Tao da Universidade Estatal do Arizona, alerta para esse facto.

Os painéis solares são compostos por células fotovoltaicas (PV) que convertem a luz solar em eletricidade. Quando esses painéis entram em aterros, recursos valiosos são desperdiçados. E, como os painéis solares contêm materiais tóxicos como o chumbo, que podem vazar à medida que se degradam, o aterro também cria novos riscos ambientais.

A maioria dos fabricantes de painéis de energia solar afirma que os seus painéis durarão cerca de 25 anos, e o mundo não começou a implantar amplamente a energia solar até o início dos anos 2000, logo não é um grande problema este ano. Mas em breve será.

Quando os painéis solares chegam ao fim de sua vida hoje, por avaria, mau funcionamento ou simples descarte, enfrentam alguns destinos possíveis. Sob as leis da União Europeia, os produtores são obrigados a garantir a reciclagem dos painéis. No Japão, Índia e Austrália, os requisitos de reciclagem estão em andamento. Nos Estados Unidos, ainda não há obrigatoriedade legal.

Mas mesmo quando a reciclagem acontece, há muito espaço para melhorias. Um painel solar é essencialmente uma espécie de sandes electrónica. O recheio é uma fina camada de células de silício cristalino, que são isoladas e protegidas das intempéries em ambos os lados por folhas de polímeros e vidro. Está tudo unido numa moldura de alumínio. Na parte traseira do painel, uma caixa de junção contém fiação de cobre que canaliza a eletricidade à medida que ela é gerada.

O que acontece na reciclagem básica de lixo electrónico, é a remoção da estrutura de alumínio e a caixa de junção para recuperar o cobre e o próprio alumínio. Em seguida, trituram o resto do módulo, incluindo o vidro, polímeros e células de silício, que são revestidos por um elétrodo de prata e soldados com estanho e chumbo. (Como a grande maioria dessa mistura em peso é vidro, o produto resultante é considerado um vidro impuro e triturado.)
O valor final é residual, e pouco atrativo para esta indústria.

Se os componentes mais valiosos de um painel solar – ou seja, o silício e a prata – pudessem ser separados e purificados de forma eficiente, isto poderia melhorar a relação custo / receita. Um pequeno número de recicladores solares fotovoltaicos dedicados está a tentar fazer isso. Por exemplo, a Veolia, que administra a única fábrica de reciclagem fotovoltaica de silício em escala comercial do mundo na França, tritura painéis e utiliza uma técnica óptica para recuperar silício de baixa pureza.

Investigadores e cientistas acreditam que no futuro será possível fazer mais e melhor, com novos processos de reciclagem onde todos os metais e minerais são recuperados com alta pureza, com o objetivo de tornar a reciclagem o mais economicamente viável e ambientalmente benéfica possível. Tais processos podem incluir o uso de tratamentos químicos ou térmicos para separar o vidro das células de silício, seguido pela aplicação de outras técnicas químicas ou elétricas para separar e purificar o silício e vários metais residuais.

Além de desenvolver melhores métodos de reciclagem, a indústria solar deve pensar em como reaproveitar os painéis sempre que possível, uma vez que os painéis solares utilizados, ​​provavelmente, terão um preço mais alto do que os metais e minerais dentro deles, e uma vez que a reutilização geralmente requer menos energia do que a reciclagem.

Para que a indústria de reciclagem de energia solar cresça de forma sustentável, acabará por precisar de políticas e regulamentos de apoio. O modelo da União Europeia poderá ser uma forma eficaz se for replicada no resto do mundo, porque se deixarmos o ónus para o consumidor final já sabemos onde vamos parar.

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