Pecuária está a empurrar leões para fora dos seus habitats naturais no Quénia

Na savana do Quénia, os leões e o gado revezam-se no uso do território. Contudo, apesar dessa “vida por turnos”, a pecuária está a empurrar os leões para fora dos seus habitats naturais, com grandes números de vacas a afastarem os predadores dos locais que antes ocupavam

Filipe Pimentel Rações

Um pouco por todo o mundo, a pecuária coexiste, mais ou menos pacificamente, com os predadores em paisagens partilhadas por ambos.

Na savana do Quénia, os leões e o gado revezam-se no uso do território. Durante o dia, o gado pasta e à noite é guardado, pois é quando os leões, e outros predadores, estão mais ativos.

No entanto, apesar dessa “vida por turnos”, a pecuária está a empurrar os leões para fora dos seus habitats naturais, com grandes números de vacas a afastarem os predadores dos locais que antes ocupavam. Esse efeito de afastamento pode afetar o equilíbrio do ecossistema e ter impactos negativos no turismo de Natureza do qual muitas comunidades locais Maasai no Quénia dependem.

A conclusão é de uma investigação publicada na revista ‘Biological Conservation’, liderada pela Universidade de Aarhus, na Dinamarca, e pela organização não-governamental Kenya Wildlife Trust.

O estudo, encabeçado pelo investigador Niels Mogensen, passou pelo registo de diferentes grupos de animais, como leões, outros predados e gado, em áreas de conservação na região de Maasai Mara geridas pelas comunidades locais, no sudeste queniano. Com base em dados recolhidos ao longo de quase uma década, a investigação alerta que os leões estão sob uma crescente pressão por causa de grandes manadas criadas pelos Maasai.

“Embora o gado seja supervisionado por pastores e seja levado para recintos fechados à noite quando os leões se tornam ativos, a vida selvagem continua a ser afetada indiretamente”, aponta Mogensen. Isso, porque se percebeu que os leões tendem a evitar zonas intensamente usadas pelo gado, mesmo quando esse último não está presente.

“Os leões têm um medo natural do gado bovino e dos seus pastores, e, uma vez que o gado está a aumentar em número, são os leões quem recua. Simplesmente alteram o seu comportamento”, explica o investigador.

Embora a equipa, no seu estudo, tenha percebido que é raro as pessoas matarem ou ameaçarem diretamente os leões dentro das áreas de conservação geridas pelas comunidades Maasai, “o uso humano da paisagem criou áreas nas quais os leões têm medo de entrar”, salienta. Assim, esses predadores icónicos da fauna africana, no final de contas, acabam por ficar com menos espaço para se deslocarem, algo que pode criar outros problemas.

“Os leões podem ser empurrados para habitats que não são adequados, a sua capacidade de reprodução pode ser afetada e podem ver-se obrigados a ir para territórios de outros grupos de leões”, refere Mogensen.

Além disso, é possível que os leões, procurando novos espaços, se aproximem mais das aldeias, o que pode aumentar a probabilidade de conflitos.

Os investigadores sugerem que a quantidade de gado a pastar em áreas preferidas pelos leões seja mantida baixa, especialmente perto de rios e em áreas de vegetação densa, onde os grandes felídeos normalmente descansam e se abrigam do calor. Ademais, recomendam a delimitação clara de zonas de pastoreio e a proteção dos refúgios usados pelos leões.

Mogensen espera que o conhecimento adquirido com esta investigação sirva para melhorar o planeamento de atividades de pecuária na região e para promover a coexistência entre gado e leões. E todas essas ações devem ser acompanhadas de perto para perceber se estão a dar os resultados pretendidos.

“Quando os leões são empurrados para áreas mais pequenas, isso pode ter consequências de longo-prazo que ainda não compreendemos totalmente. É por isso que é importante continuar a monitorizar esses desenvolvimentos de perto”, destaca o cientista.

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