Plantas nas Maurícias enfrentam ameaça de extinção depois de terem perdido animais que dispersam as suas sementes



As populações de animais e de plantas nas ilhas estão especialmente vulneráveis às extinções provocadas pelos humanos. Comparativamente às comunidades continentais, que podem, em maior ou menor grau, escapar de condições ambientais adversas e procurar novos lares ou formas de se adaptarem, os seres vivos nas ilhas não têm grande espaço para fugas ou margem para adaptações significativas.

O que está a acontecer na Ilha das Maurícias, um pequeno Estado insular no Oceano Índico, é paradigmático. De acordo com uma investigação científica internacional, divulgada na ‘Nature Communications’, cerca de um terço de todas as espécies de plantas frutíferas das Maurícias já não são capazes de dispersar os seus frutos e suas sementes, porque os animais frugívoros que restam e ainda não foram extintos são pequenos demais para as engolirem.

Explicam os autores que este é o resultado de quatro séculos de extinções na ilha, e mesmo as espécies que foram, entretanto, introduzidas não têm dimensão suficiente para cumprirem essa função ecológica.

Algumas das espécies exóticas, como macacos ou porcos, tendem a quebram as sementes para chegarem ao seu interior nutritivo, pelo que não as transportam inteiras nos estômagos e, por isso, não as dispersam. Assim, os investigadores dizem que muitas das plantas nativas das Maurícias enfrentam agora um futuro repleto de incertezas.

“É pouco provável que os animais que chegaram às Maurícias com os navegadores há 400 anos, como ratazanas e porcos, substituam os animais extintos na sua crucial função ecológica de dispersar as sementes das plantas quando comem os seus frutos”, salienta Julia Heinen, da Universidade de Copenhaga e a principal autora do artigo.

A especialista aponta que essa ‘revolução ecológica’ fez com que as plantas das Maurícias, “a maioria das quais está criticamente ameaçada”, tivessem perdido a sua capacidade de dispersão de sementes através dos animais. E alerta mesmo que isso pode fazer com que essas plantas desapareçam totalmente.

“A extinção das plantas nativas pode despoletar extinções em catadupa, levando com elas outras espécies”, assinala.

Estima-se que atualmente apenas restem 4,4% dos habitats originais da ilha, sendo que 57% das espécies de árvores das Maurícias correm o risco de extinção, e os cientistas estimam que tal se deve à perda de animais dispersores de sementes, pelo que o desaparecimento de uns ditará o desaparecimento dos outros, num ‘dominó de coextinções’.

No decorrer das investigação, percebeu-se que, apesar de o número de espécies frugívoras ter, de facto, aumentado na ilha, a sua capacidade para disseminar as sementes seguiu a trajetória inversa.

Um dos últimos grandes dispersores de sementes é o morcego da espécie Pteropus niger, que se alimenta de frutos e cujo focinho lhe valeu o nome de ‘raposa-voador’. Contudo, também ele está ameaçado de extinção, sobretudo devido à caça, à destruição do seu habitat e ao abate.

A ave Hypsipetes olivaceus e o morcego Pteropus niger são duas das últimas espécies nas Maurícias capazes de dispersar as sementes maiores de plantas de fruto. São responsáveis por cerca de 90% da dispersão total de sementes na ilha.
Foto: Claudia Baider (coautora do artigo)

Julia Heinen explica que esse mamífero, com o estatuto de ‘em perigo’, “desempenha um papel vital” no ecossistema das Maurícias, mas lamenta que os animais tenham vindo a ser mortos por causa de preocupações com os ruídos que produzem e por alegadamente prejudicarem a indústria da fruta.

“Este é o último lugar na Terra onde o morcego vive, mas a ciência está a ser ignora”, lança a investigadora.

Outra espécie importante para a dispersão de sementes nessa ilha é a ave Hypsipetes olivaceus, endémica das Maurícias e com estatuto ‘vulnerável’. Em conjunto, essa ave e o morcego são responsáveis por 90% da dispersão total das sementes nas Maurícias, pelo que a sua extinção ditará o desaparecimento de muitas espécies vegetais e, no limite, a degradação ou mesmo o colapso de importantes dinâmicas dos ecossistemas.

Apesar do quadro negro, Heinen ainda acredita ser possível escudar da extinção as plantas nativas das Maurícias, mas para isso é preciso proteger as espécies dispersoras, como o Pteropus niger e o Hypsipetes olivaceus.





Notícias relacionadas



Comentários
Loading...