Por cada espécie de vertebrado que é reconhecida e identificada, há, em média, duas que permanecem “escondidas”, sem que se consiga perceber que são uma espécie à parte.
A conclusão é de um estudo de dois investigadores da Universidade do Arizona (Estados Unidos da América), e publicado recentemente na revista ‘Proceedings of the Royal Society B’, no qual revelam que a biodiversidade de vertebrados tem sido altamente subestimada. Isso, avisam, pode ter sérias consequências para os esforços de conservação, sobretudo se as espécies “crípticas” não forem devidamente identificadas.
“Cada espécie que vemos e reconhecemos como distinta pode, na verdade, estar a esconder duas espécies diferentes, em média”, explica, em nota, John Wiens, um dos autores do artigo. Para o investigador e docente universitário, tal significa que, no mundo dos vertebrados, “podem existir duas vezes mais espécies do que pensávamos” e alerta que “muitas dessas espécies escondidas podem estar já em risco de extinção”.
A descrição, classificação e nomeação das espécies (uma ciência conhecida como taxonomia) tem tradicionalmente assentado em práticas como a observação e registo de características físicas, procurando distinguir as espécies umas das outras com fase nesses traços morfológicos. No entanto, os investigadores deste trabalho dizem que as espécies crípticas recebem esse epíteto precisamente porque é muito difícil distingui-las de outras.
Contudo, apesar de terem aspetos semelhantes, é no ADN que estão as diferenças que permitem distinguir linhagens, pelo que a dupla defende a centralidade de técnicas de sequenciação genética para encontrar essas espécies. Assim, à medida que esses métodos vão evoluindo, e tornando-se mais acessíveis e baratos, é de esperar que mais e mais espécies desconhecidas de vertebrados surjam onde se achava que existia apenas uma espécie.
Esta equipa de investigadores chegou a estas conclusões através da revisão de mais de 300 estudos publicados em todo o mundo sobre descobertas de espécies crípticas.
Os cientistas dizem que os esforços de conservação têm de adaptar-se ao surgimento dessas novas espécies, pois muitas ações que visam o que se pensava ser apenas uma espécie, afinal visam duas, que têm áreas de distribuição mais reduzidas. “Regra geral, pensa-se que quanto mais pequena for a área de distribuição de uma espécie, maior a probabilidade dessa espécie se extinguir”, acautela Wiens.
Os investigadores dizem que o primeiro passo para proteger essas espécies crípticas é reconhecer que existem, descrevê-las formalmente e dar-lhes um nome científico só seu, para que possam, eventualmente, vir a beneficiar de proteção legal.
“Se não sabemos que uma espécie existe, não podemos protegê-la”, afirma Wiens.









