População da Praia da Vitória com maior concentração de metais pesados

Uma maior concentração de metais pesados foi detetada na população da Praia da Vitória, nos Açores, provavelmente devido à contaminação ambiental da Base das Lajes, segundo um estudo que analisou esqueletos humanos da ilha Terceira.
A análise foi feita comparando dados da Praia da Vitória e de Angra do Heroísmo.
“É, de facto, um estudo pioneiro. Ele testa pela primeira vez se existe ou não a hipótese de a população da Praia da Vitória ter sido exposta à contaminação e fá-lo através dos metais pesados”, afirmou o investigador Félix Rodrigues, em declarações à agência Lusa.
O autor do estudo publicado na editora académica Springer Nature explica que foram estudados 64 esqueletos humanos dos dois concelhos da ilha Terceira: 44 provenientes de Angra do Heroísmo e 20 da Praia da Vitória, onde se localiza a Base das Lajes.
“Supondo que as pessoas que vivem em zonas de risco têm maior possibilidade de serem expostas a esses metais e contaminantes, seria expectável que os esqueletos tivessem maiores concentrações. e é, de facto, isso que acontece”, disse.
A investigação concluiu que existe um conjunto alargado de metais superiores na população de Praia da Vitória, como o arsénio, o antimónio, o cádmio, o crómio, o ouro, o molibdénio, o estrôncio, o estanho o urânio e o zircónio, em comparação com Angra do Heroísmo (que dista 23 quilómetros da Base das Lajes).
O armazenamento e manuseamento de combustíveis e outros poluentes pela Força Aérea norte-americana na base das Lajes provocou no passado a contaminação de solos e aquíferos na Praia da Vitória, na ilha Terceira.
Identificada em 2005 pelos próprios norte-americanos, a contaminação foi confirmada, em 2009, pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), que monitoriza desde 2012 o processo de descontaminação.
Ressalvando que o estudo não permite “dar resposta definitiva” quanto à causa da concentração de metais pesados nos esqueletos, Félix Rodrigues assinalou, contudo, que o “conjunto de análises colocam” a contaminação da Base das Lajes como a “mais provável hipótese”.
“O facto é que populações com características semelhantes, na mesma ilha, muito semelhantes em termos demográficos, culturais e genéticos, têm valores diferentes na concentração de metais pesados. Isso deve-se, provavelmente, a uma fonte ambiental”, sublinhou.
O investigador sugere a realização de novos estudos e análises com a “população viva” para aprofundar o impacto da presença norte-americana.
“É importante acompanhar a população viva. Estamos a estudar esqueletos de pessoas que já faleceram, mas quem corre sérios riscos é quem vive lá na atualidade. Isso é importante para que se traduza em precauções. É preciso proteger a população se isso estiver a acontecer”, alertou.
A investigação, que utilizou espetroscopia de fluorescência de raios-x para medir a concentração de metais pesados em ossos humanos, assentou na coleção de esqueletos humanos da ilha Terceira, criada em 2023.
Aquela coleção, que resultou de uma colaboração entre as duas autarquias da ilha, conta com 151 exemplares com proporcionalidade entre os sexos e idades entre os 26 e os 98 anos.
“Para o meu doutoramento achei que era uma boa oportunidade de os Açores terem uma coleção própria, não só para desenvolver a área da antropologia forense nos Açores, que não existia, mas também para explorar um conjunto de questões acerca da população terceirense”, explicou Félix Rodrigues.
É na Base das Lajes que a Força Aérea norte-americana tem a maior infraestrutura de armazenamento de combustíveis fora dos Estados Unidos.
Atualmente, os tanques têm cerca 16 milhões de galões de combustível (60,5 milhões de litros), mas têm capacidade para receber 38 milhões (144 milhões de litros), incluindo 32 para abastecimento de aeronaves.