Projeto propõe usar decomposição para criar ‘bioparagem’ de elétrico em Lisboa



O projeto de design biointegrado UrbanMYCOskin, finalista dos prémios Novo Bauhaus Europeu, propõe utilizar micélio, organismo que decompõe matéria orgânica, para construir uma paragem de elétrico sustentável no Martim Moniz, em Lisboa, aumentando a resiliência da praça ao clima.

“A base deste projeto é utilizar micélio como um organismo vivo capaz de decompor matéria orgânica e, neste caso, nós queríamos que fossem resíduos que existissem muito em cidades, como resíduos de agricultura ou dos têxteis”, disse à Lusa Rita Morais, uma das criadoras do projeto, juntamente com a polaca Natalia Piorecka e a chilena Jennifer Levy.

O micélio “é capaz de decompor esses resíduos e criar um material sustentável para a arquitetura”, numa lógica de reaproveitamento de resíduos e de economia circular, explicou.

O Urban_MYCOskin, criado pelas jovens estudantes no âmbito de um mestrado em Design Biointegrado em Londres, é um dos três projetos portugueses finalistas do prémio Novo Bauhaus Europeu, no caso na secção Estrelas Ascendentes, dentro da categoria Moldar um Ecossistema Industrial Circular e Apoiar a Reflexão Sobre o Ciclo de Vida, cuja cerimónia está marcada para sexta-feira, em Bruxelas.

“É como se fossem as raízes dos cogumelos”, refere Rita Morais sobre o micélio: “o que faz na natureza é decompor matéria orgânica, por exemplo folhas de árvores, que depois transforma em nutrientes”.

Ao longo do processo de decomposição, o organismo “vai criando uma rede e depois consegue criar algo como se fosse uma cola de material orgânico”, sólida, bem como painéis que depois podem ser utilizados em mobiliário urbano, prevendo-se a utilização da impressão em três dimensões (3D) para “a parte mais estrutural, para dar forma aos painéis, e também à parte de mobília”.

Para Rita Morais, “uma parte muito importante é a da circularidade do projeto e do material em si”, e até o material usado “para a impressão 3D também pode ser biodegradável em condições específicas, e os painéis de micélio podem sempre ser biodegradáveis e transformar-se em nutrientes”.

“O que a nossa estrutura pretende, através da geometria, é criar uma zona de sombra, de ventilação passiva e também de recolha de água para depois ir para as zonas verdes, ou seja, para as zonas onde estão a crescer as plantas”, também parte do projeto.

No final, “o objetivo, com estas várias estratégias ambientais, é um bocadinho criar microclimas” em plena paisagem urbana.

O desenvolvimento do projeto requereu a pesquisa de “zonas mais vulneráveis às alterações climáticas dentro de espaços urbanos”, abordando o conceito de ilhas de calor urbanas.

“O espaço da Praça do Martim Moniz interessou-nos muito porque, como sabemos, é uma zona muito desconfortável a nível climático, especialmente com temperaturas extremas”, sendo também marcada por “pouco conforto humano e poucas zonas que sejam realmente confortáveis quando existem temperaturas extremas”.

Apesar da “forte agenda para renovação daquele espaço”, as três jovens sentiram que “ainda estavam a faltar estruturas que fossem um bocadinho mais resilientes a nível climático”, motivo pelo qual acabaram por fazer “várias análises climáticas e várias simulações, por exemplo, de radiação solar, de passagem do vento, até análise de distribuição de água”.

Por agora, a implementação do projeto em grande escala “continua a ser um bocadinho especulação”, sendo para já “um projeto mais académico”, que no futuro visa o envolvimento da comunidade “na manutenção do espaço ou até na parte de dar material para a estrutura”, como por exemplo roupas usadas.

“Depois também teríamos de fazer um bocadinho de estudo sobre como é que a estrutura iria evoluir ao longo do tempo. Certamente iria ser diferente desde o dia em que fosse implementado até passados alguns meses. As plantas começariam a crescer e [teríamos de analisar] como é que os painéis de micélio se iriam comportar”, anteviu.





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