No ano passado, os taxonomistas, cientistas que se dedicam à classificam das espécies não-humanas, descreveram 309 novas espécies de peixes de água doce, quase uma por dia.
De acordo com um relatório publicado pela organização de conservação Shoal, pela Academia de Ciências da Califórnia e por grupos de especialistas da União Internacional para a Conservação da Natureza, esse é o maior número de espécies descritas num ano desde 2017 e o terceiro maior desde que os registos começaram em 1758.
A maioria das novas espécies descritas são da Ásia, com 165, seguida pela América do Sul, com 91, por África, com 30, pela América do Norte, com 20, e, por sim, pela Europa, com apenas três. Foram encontradas numa grande diversidade de habitats, desde grutas calcárias a pântanos e rios.
Dizem os especialistas que a maior parte é endémica e algumas delas estão já ameaçadas de extinção, apesar de terem acabado de ser descritas.
Muitas delas foram descobertas escondidas em grutas, outras a viverem em charcos temporários que secam no verão ou a nadarem por rios que se pensava estarem bem estudados, e ainda outras que estavam guardadas em coleções de museus, mas classificadas como outra espécie qualquer.
De entre as centenas de novas espécies descritas em 2025, os especialistas destacam dois peixes, com os nomes científicos Triplophysa yangi e Claea scet, descobertos em grutas na China e totalmente adaptados à vida na escuridão.

Na República Democrática do Congo foram descritas quatro novas espécies do género Nothobranchius a viverem numa zona húmida sazonal, e que pertencem a um grupo de peixes muito apreciado entre os entusiastas da aquariofilia. Explicam os autores do relatório que esses peixes nascem, desenvolvem-se e reproduzem-se em charcos temporários criados pela chuva que podem existir apenas durante umas poucas semanas.
Quando a água desaparece, os adultos morrem, mas os seus ovos “à prova de seca” permanecem na lama, aguardando que as chuvas regressem para que possam eclodir.

No sul do Brasil, numa pequena ilha na Mata Atlântica, foi descrita a espécie Campellolebias insularis, que pertence à mesma ordem (Cyprinodontiformes) que os Nothobranchius. Vivendo em charcos alimentados pela chuva, passa toda a sua vida nessa ilha, que está a ser fortemente transformado pelo desenvolvimento.
Com menos de 2,6 centímetros de comprimento, vivem em zonas húmidas com tão pouca profundidade e cobertas de vegetação que, a um olhar mais desatento, parecem estar secas.
Na América do Norte, mais especificamente na região do Alabama, duas espécies (Etheostoma birminghamense e Etheostoma gurleyense) de pequenos peixes que vivem em riachos foram formalmente reconhecidas como espécies distintas. Ambas são endémicas do norte do Alabama e foram só encontradas em menos de uma mão-cheia de rios e afluentes.
Por terem uma distribuição bastante limitada, os investigadores dizem que essas duas espécies enfrentam já um risco elevado de extinção.
A nova espécie Phoxinus kottelati foi encontrada na Turquia, na região de Çanakkale, e os cientistas acreditam, com base no que até agora se sabe, que exista apenas em três ribeiros que desaguam no Mar Negro e no Mar de Mármara, considerado o mais pequeno do mundo. Com cerca de cinco centímetros de comprimento, ainda não recebeu um estatuto de ameaça, mas os investigadores avisam que, por estar confinada a um punhado de riachos, a conservação da espécie é “especialmente urgente”.
Os autores do relatório dizem que estas descobertas, além de fazerem avançar o conhecimento científico, mostram que o planeta esconde ainda muitos mistérios, mesmo em regiões que se pensa estarem muito bem exploradas.
“Sob a superfície de rios, em zonas húmidas e grutas, há ainda tanto por aprender”, escrevem.









