“São necessários 2,3 planetas Terra para alimentar estilo de vida dos portugueses”

Este sábado, 22 de Abril, assinala-se o Dia Mundial da Terra. É a oportunidade perfeita para uma reflexão sobre a pegada ecológica de Portugal, um indicador indispensável para se entender qual o verdadeiro impacto das nossas decisões quotidianas na saúde do planeta.

Dados divulgados recentemente pela Global Footprint Network (GFN), indicam que entre os 19 países mundiais analisados, Portugal ocupa o 62º lugar, tendo descido 20 posições em relação ao último ranking, referente a 2012. Portugal conta assim com uma pegada ecológica de 3,9 gha.

Nos dados relativos ao ano de 2013, a pegada ecológica portuguesa situa-se nos 3,9 hectares globais (gha) por pessoa, para uma biocapacidade (quantidade de área biologicamente produtiva) de apenas 1,5 gha. Isto significa que existe um défice ecológico de 2,3 gha e que são necessários 2,3 planetas para alimentar o nosso estilo de vida e ritmo de consumo.

A nível mundial os níveis registados são bastante reveladores da difícil situação ambiental que se vive. Assim, Luxemburgo (13,1 gha), Qatar (12,6 gha), Austrália (8,8 gha), Trindade e Tobago (8,8 gha) e Canada (8,8 gha) são os países com maior pegada ecológica. No fim da lista, com a pegada ecológica mais reduzida estão Timor-Leste (0,7 gha), Paquistão (0,7 gha), Burundi (0,6 gha), Haiti (0,6 gha) e Eritreia (0,5 gha).

A pegada ecológica mundial é de 2,9 gha, para uma biocapacidade total de 1,7 gha, o que resulta num défice ecológico de 1,2 gha. Desde 1970 que a pegada ecológica global ultrapassou a biocapacidade, tendo vindo sempre a aumentar. Até esse ano, precisávamos apenas do nosso planeta para suportar o nosso modo de vida.

E é pegando nestes valores que surge o alerta da associação ambiental Quercus. Estamos a atingir cada vez mais cedo o Earth Overshoot Day (Dia de Sobrecarga da Terra), ou seja, o dia a partir do qual o consumo de recursos naturais ultrapassou o que o planeta é capaz de regenerar. Em 2016, a data assinalou-se a 8 de Agosto, 5 dias mais cedo do que em 2015. Ou seja, em apenas 8 meses do ano passado, já tínhamos consumido mais do que o planeta consegue produzir num ano inteiro. Esta conclusão baseia-se no cálculo da pegada ecológica, analisando a disponibilidade de vários recursos ecológicos (agricultura, pastagem, florestas, pesca, área construída, energia e área necessária para a absorção de dióxido de carbono) e a procura pelos mesmos.

Segundo os dados mais recentes da GFN, a pegada de carbono representa 60% da pegada ecológica global. Estima-se que, mesmo que consigamos reduzir as emissões globais de gases com efeito de estufa em 30% até 2030, ainda precisaremos de 1,6 planetas para alimentar o nosso estilo de vida actual. Caso contrário, estima-se que sejam necessários 2 planetas para satisfazer a humanidade, cuja população mundial excederá as 9,7 mil milhões de pessoas em 2050, segundo a ONU.

Analisando os dados, podemos concluir desde logo que há consequências imediatas para estes números: problemas crescentes que ameaçam a biocapacidade do planeta, como a escassez de água doce, a desertificação, a queda dos stocks de peixe, a extinção de espécies ou a redução acentuada de área de floresta nativa, acrescentando ainda os impactos das alterações climáticas decorrentes do aquecimento global.

Para a Quercus, a celebração deste dia deve assim ultrapassar o propósito meramente simbólico e deve ser encarada como oportunidade de informação, sensibilização da sociedade para a adopção de medidas concretas pelos seus responsáveis políticos, rumo a novos modelos de produção e de consumo que não hipotequem o acesso aos recursos do planeta por parte das gerações futuras.

Foto: via Creative Commons 

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