Sustentabilidade no imobiliário: “Estamos num momento de transição, mas ainda longe da mudança estrutural”

Tiago Ferreira, Head of Operations Real Estate Portugal do Imovirtual & OLX, acredita que a sustentabilidade está a deixar de ser um “extra” e a tornar-se parte integrante das decisões de compra, investimento e construção. Mas alerta: o setor ainda enfrenta barreiras significativas, desde os custos iniciais até à falta de sensibilização.

Ana Filipa Rego

O setor imobiliário em Portugal está a dar passos importantes rumo à sustentabilidade, mas ainda está longe de uma transformação consolidada. “Estamos claramente num momento de transição”, afirma Tiago Ferreira, Head of Operations Real Estate Portugal do Imovirtual & OLX, em entrevista à Green Savers. “A verdadeira mudança acontecerá quando a reabilitação sustentável e a eficiência energética passarem a ser um padrão, e não um diferencial”, sublinha. Para já, acrescenta, a preocupação ambiental nota-se sobretudo nas novas construções, enquanto o parque habitacional antigo — que representa a maioria da oferta — permanece pouco adaptado às exigências do futuro.

Segundo o responsável, a pressão regulatória europeia, aliada à maior consciência dos consumidores e à necessidade de diferenciação dos promotores, está a criar um novo ecossistema no mercado. A sustentabilidade começa a “caminhar lado a lado” com a rentabilidade, explica, sublinhando que critérios como o conforto térmico, o isolamento e os custos de manutenção ganham relevância nas escolhas dos compradores, sobretudo entre os mais jovens. No entanto, admite que ainda existe um desfasamento entre a vontade e a prática — e que a mudança exige uma conjugação de incentivos, regulação e informação clara.

– A sustentabilidade tem vindo a ganhar destaque em várias áreas da economia. No caso do setor imobiliário em Portugal, considera que estamos perante uma mudança estrutural ou ainda numa fase embrionária?

Estamos claramente num momento de transição. O tema da sustentabilidade deixou de ser apenas uma tendência e começa a ganhar expressão real nas decisões de investimento e na forma como os imóveis são concebidos, promovidos e geridos. No entanto, ainda estamos longe de uma transformação estrutural consolidada. Em Portugal, o setor está a dar passos firmes, mas graduais — muito concentrados ainda nas novas construções e menos visíveis no parque habitacional existente, que continua a representar a maioria da oferta. Acredito que a verdadeira mudança acontecerá quando a reabilitação sustentável e a eficiência energética passarem a ser um padrão, e não um diferencial.

– Na sua perspetiva, o que está a motivar esta crescente atenção à sustentabilidade no mercado imobiliário — é uma pressão regulatória, uma exigência do consumidor, ou uma estratégia de diferenciação por parte dos promotores?

É uma combinação das três. A regulação europeia tem tido um papel determinante, ao impor metas concretas de eficiência energética e redução de emissões. Mas também vemos uma crescente consciência por parte dos consumidores: quem procura casa hoje valoriza não só o preço e a localização, mas também o conforto térmico, o isolamento e os custos de manutenção — fatores diretamente ligados à sustentabilidade. Paralelamente, os promotores começam a perceber que incorporar práticas sustentáveis é também uma forma de diferenciação e de valorização do ativo a longo prazo. O resultado é um ecossistema onde sustentabilidade e rentabilidade começam a caminhar lado a lado, e onde plataformas como o Imovirtual têm um papel relevante ao dar visibilidade a estas novas dinâmicas do mercado.

– Do ponto de vista da procura, já se nota uma valorização clara de imóveis com certificações energéticas superiores ou com características sustentáveis?

Sim, começa a ser visível, embora ainda de forma gradual. As certificações energéticas superiores e as soluções construtivas mais eficientes já têm um peso maior nas decisões de compra, sobretudo entre públicos mais jovens e informados. No entanto, o fator preço continua a ser determinante. O que observamos é uma mudança de mentalidade: há cada vez menos tolerância para imóveis energeticamente ineficientes, e um reconhecimento crescente de que uma casa com melhor desempenho térmico ou energético representa poupança e conforto a médio prazo. Em zonas urbanas mais competitivas, essa valorização é já evidente — os imóveis com classificação A ou A+ tendem a ser mais procurados e a permanecer menos tempo em oferta.

– Os dados do Imovirtual revelam alguma mudança no comportamento dos utilizadores em relação a critérios ambientais na pesquisa ou na escolha de imóveis?

Sim. Embora a sustentabilidade ainda não seja o critério principal de pesquisa, há sinais claros de evolução. Notamos um aumento na procura por imóveis com certificação energética A ou superior, e também um maior interesse em características associadas à eficiência, como isolamento térmico, painéis solares ou janelas de vidro duplo. Além disso, a forma como os utilizadores exploram a plataforma mostra uma preocupação crescente com o consumo energético e com o custo de vida associado à habitação. Esta tendência está a ganhar força sobretudo entre os compradores mais jovens, que têm uma visão mais integrada entre sustentabilidade, conforto e responsabilidade ambiental.

– E quanto aos investidores — nomeadamente fundos ou compradores institucionais — que peso tem hoje a sustentabilidade nas suas decisões de investimento em Portugal?

O peso é cada vez maior. Para investidores institucionais, a sustentabilidade já não é apenas uma questão reputacional — é um fator de gestão de risco e de valorização do ativo. Projetos com certificações ambientais, maior eficiência energética e soluções de construção sustentável tendem a ter uma performance mais estável e a atrair financiamento com condições mais vantajosas. Em Portugal, esta exigência está a crescer de forma visível, sobretudo nos segmentos de build-to-rent, reabilitação urbana e escritórios, onde os fundos internacionais impõem critérios ambientais muito rigorosos. Ainda assim, há espaço para evoluir. O desafio passa por garantir que as boas práticas se estendem também ao mercado residencial tradicional. Essa democratização da sustentabilidade é o passo seguinte — e plataformas como o Imovirtual têm aqui um papel relevante, ao ajudar a tornar esses critérios mais visíveis e acessíveis a todos.

– Apesar da crescente sensibilização, que principais barreiras identifica na adoção de práticas mais sustentáveis no setor?

Os custos iniciais ainda são um entrave significativo? Sem dúvida. Os custos iniciais continuam a ser uma das principais barreiras, sobretudo num contexto em que o preço final da habitação já é um desafio para grande parte da população. Implementar soluções sustentáveis exige investimento — quer em materiais, quer em tecnologia — e nem sempre o retorno é imediato. Além do custo, há também uma barreira cultural e informativa: muitas pessoas e até promotores ainda associam sustentabilidade a um “extra” ou a um elemento estético, quando na verdade é um fator que impacta diretamente a eficiência e o valor do imóvel a longo prazo. O caminho passa por equilibrar incentivos, regulação e sensibilização, para que o investimento em práticas sustentáveis deixe de ser visto como um custo e passe a ser entendido como uma vantagem competitiva e uma necessidade inevitável.

– Acha que o atual parque imobiliário português, caracterizado em grande parte por edifícios antigos, está preparado para este novo paradigma? Ou será necessário um esforço profundo de reabilitação e adaptação?

Portugal tem um dos parques habitacionais mais envelhecidos da Europa, e isso torna a transição sustentável um desafio maior. A maioria dos edifícios não foi pensada com critérios de eficiência energética, o que significa que será necessário um esforço profundo de reabilitação e modernização. A boa notícia é que existe um potencial enorme: investir na reabilitação sustentável não só melhora a qualidade de vida dos residentes, como valoriza o património e dinamiza a economia local. Acredito que a transformação passará menos por novas construções e mais por recuperar e adaptar o que já existe — e aí o digital pode ter um papel relevante, ajudando a conectar proprietários, promotores e soluções tecnológicas que acelerem essa mudança.

– A legislação europeia, nomeadamente as metas do Pacto Ecológico Europeu e o pacote “Fit for 55”, pode funcionar como motor de transformação do setor imobiliário nacional?

Sim, sem dúvida. A legislação europeia é um dos principais motores desta transformação. O Pacto Ecológico Europeu e o pacote “Fit for 55” introduzem metas claras de neutralidade carbónica e de eficiência energética que, inevitavelmente, vão acelerar a adaptação do setor imobiliário. Estas políticas criam um enquadramento que obriga à ação — não apenas para os promotores e investidores, mas também para o Estado, que precisa de ajustar incentivos e regulamentação. O impacto será progressivo, mas profundo: desde os materiais de construção até à reabilitação urbana, tudo terá de convergir para padrões mais sustentáveis. Em Portugal, esse impulso europeu está a ser um catalisador importante, sobretudo ao orientar o investimento público e privado para projetos mais eficientes e com menor pegada ambiental.

– Existem hoje, no seu entender, incentivos suficientes para promover a construção sustentável ou a reabilitação energética? O que poderia ser feito a mais neste domínio?

Ainda não. Os programas de incentivo existentes são positivos, mas continuam limitados em escala e acessibilidade. É fundamental simplificar processos, reduzir burocracia e garantir que os apoios chegam de forma mais direta aos proprietários e promotores. Além dos incentivos financeiros, é preciso reforçar o acesso à informação e promover campanhas de sensibilização que tornem mais claro o retorno económico e ambiental destas medidas. A médio prazo, deveria existir também uma estratégia fiscal mais clara, que premie a eficiência energética e a utilização de soluções sustentáveis na construção e reabilitação. A transição verde do setor imobiliário depende tanto de investimento como de estabilidade e previsibilidade — fatores que encorajam quem quer fazer diferente a longo prazo.

– Na sua opinião, estamos a caminhar para um futuro em que os critérios ESG (Ambientais, Sociais e de Governação) serão um requisito obrigatório na valorização de ativos imobiliários, ou ainda é um nicho?

Estamos claramente a caminhar nessa direção. Os critérios ESG estão a deixar de ser um diferencial e a tornar-se parte da matriz de avaliação dos ativos. No caso dos investidores institucionais e dos grandes promotores, essa exigência já é uma realidade. Os ativos que não cumpram padrões ambientais e sociais mínimos tendem a perder valor e a enfrentar maiores restrições de financiamento. Em Portugal, ainda há um desfasamento face a outros mercados europeus, mas a tendência é irreversível. À medida que a regulação e o acesso ao crédito incorporarem métricas ESG, o setor vai ajustar-se. A sustentabilidade deixará de ser uma escolha e passará a ser um critério de elegibilidade, tanto para quem investe como para quem habita.

– Como é que o Imovirtual tem vindo a incorporar esta dimensão da sustentabilidade na sua plataforma? Existem filtros ou informações específicas que ajudem o utilizador a fazer escolhas mais conscientes?

Temos vindo a reforçar essa dimensão de forma contínua. Atualmente, o Imovirtual já disponibiliza a informação sobre certificação energética em cada anúncio, o que permite aos utilizadores reconhecer facilmente opções mais eficientes e sustentáveis. Estamos também a trabalhar na melhoria dos filtros e da apresentação da informação, para que atributos como painéis solares, isolamento térmico ou sistemas de aquecimento eficientes sejam cada vez mais visíveis. Mais do que disponibilizar dados, o nosso objetivo é educar o utilizador, mostrando que escolher uma casa sustentável é uma decisão que impacta não só o ambiente, mas também o conforto e os custos de longo prazo. Esta é uma área em que continuaremos a investir, alinhada com a estratégia global do OLX Group de promover um consumo mais responsável e consciente.

– Há planos para reforçar esta vertente nos próximos anos, por exemplo, com a introdução de métricas de eficiência energética mais visíveis ou parcerias com entidades do setor?

Sim. Estamos a trabalhar precisamente nesse sentido. O objetivo é que a informação sobre eficiência energética esteja cada vez mais integrada e acessível dentro da plataforma. Além da melhoria contínua dos filtros e da normalização dos dados, estamos a avaliar parcerias com entidades do setor energético e da construção sustentável, que nos permitam disponibilizar informação mais completa e fiável sobre o desempenho dos imóveis. Queremos que o Imovirtual seja mais do que um ponto de pesquisa — queremos que seja uma ferramenta de decisão, onde o utilizador possa comparar, compreender e escolher com base em critérios de sustentabilidade.

– Se tivesse de prever o setor nos próximos cinco a dez anos, acredita que a sustentabilidade será um critério central na avaliação de qualquer imóvel — ou continuará a ser um fator complementar?

Acredito que será absolutamente central. Nos próximos anos, a sustentabilidade vai deixar de ser vista como uma vantagem competitiva e passar a ser uma condição de base. Os imóveis que não cumprirem determinados padrões de eficiência e responsabilidade ambiental tenderão a desvalorizar-se, tanto no mercado de venda como no de arrendamento. Veremos também uma mudança no comportamento do consumidor: quem procura casa vai olhar para o custo total de propriedade — não apenas o preço de compra, mas também o consumo energético, o conforto e o impacto ambiental. Em última análise, a sustentabilidade será o novo padrão de qualidade do imobiliário, influenciando todo o ciclo de vida do ativo.

– E para os profissionais do setor — promotores, arquitetos, agentes — que competências e mentalidades serão fundamentais para acompanhar esta transição de forma eficaz?

Esta transição exige uma mudança de paradigma. Os profissionais do setor terão de combinar conhecimento técnico com visão estratégica, entendendo que sustentabilidade não é apenas uma tendência, mas uma nova forma de criar valor. Será essencial desenvolver competências em eficiência energética, materiais sustentáveis, gestão de dados e comunicação transparente com o cliente. Mas talvez o mais importante seja a mudança de mentalidade — passar de uma lógica transacional para uma abordagem de longo prazo, centrada em impacto, eficiência e propósito. Quem souber integrar esta visão de forma consistente estará mais preparado para um mercado que valoriza cada vez mais o equilíbrio entre rentabilidade, responsabilidade e inovação.

 

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