A transição energética está a entrar numa nova fase, com o sistema global a sofrer uma “reconfiguração profunda” devido à preocupação cada vez maior com a segurança energética e a acessibilidade dos preços.
A conclusão é de um relatório divulgado pela Boston Consulting Group (BCG), que explica a segurança e os preços são “duas variáveis que deverão manter-se alinhadas com as metas de descarbonização”.
“Nos últimos 36 meses, o panorama mundial mudou de forma significativa”, aponta a consultora. A guerra na Ucrânia, tensões comerciais, inflação e aumento da procura de eletricidade criaram o que os relatores descrevem como “um contexto de volatilidade sem precedentes”, no qual “o acesso à energia voltou a ser visto como condição essencial de estabilidade económica e social”.
Avança a BCG que, nesse quadro de convulsões internacionais e de redefinição de prioridades políticas, económicas e sociais, a transição energética continua a ser “inevitável”, mas “o seu percurso deixou de ser linear”.
“Em vez de um único movimento global, há agora múltiplas transições regionais, com diferentes ritmos, prioridades e escolhas tecnológicas”, aponta a consultora, que identifica sete “grandes mudanças globais” que estão atualmente a redesenhar o rumo da transição energética.
Um delas está relacionada com o facto de a segurança energética ter assumido um maior sentido de urgência, com os países a concentrarem os seus esforços no aumento da sua quota de energia proveniente de fontes renováveis, mas também na criação de cadeias de valor localizadas para tecnologias críticas de baixo carbono, nomeadamente através de proteções comerciais e políticas industriais.
Outra, prende-se com o facto de a Europa ter sido a região onde o acesso à energia, especialmente para as famílias mais pobres, mais se deteriorou nos últimos 25 anos e de forma mais acentuada nos anos mais recentes.
Diz a BCG, a título de exemplo, que na Alemanha ou França os utilizadores industriais e domésticos pagam cerca de 2,5 vezes mais por energia, em comparação com os utilizadores de regiões mais competitivas como os EUA, a China ou a Índia.
Os elevados preços da energia, argumenta a consultora, levaram a uma diminuição do apoio público aos consumidores para a transição energética, com o foco a evoluir da mitigação para a adaptação climática: a preferência por este tipo de políticas aumentou, entre 2020 e 2024, de 33% para 44% na Alemanha, de 34% para 43% em França e de 22% para 29% em Itália.
A procura de eletricidade entrou também num “superciclo estrutural”, revela o estudo, impulsionado pelos data centers, mas também pela crescente procura por soluções de refrigeração e eletrificação de transportes, edifícios e indústria. “Só até 2030, o consumo deverá aumentar entre 350 e 450 TWh na China, 100 a 130 TWh nos EUA e 50 a 70 TWh na Europa”, avança a consultora.
Outra grande mudança está relacionada com a energia nuclear. Uma opção sem emissões de carbono que está a passar por “uma fase de renascimento”, dizem os autores do relatório, ao mesmo tempo que se estima que a capacidade de geração de gás natural aumente até cerca de 40%, “o que reflete a necessidade de fontes firmes, essenciais para garantir estabilidade e capacidade de resposta”.
Prevê-se ainda que o investimento global em infraestruturas de energia cresça cerca de 50% até 2030, passando de sete para 10 biliões de dólares, o equivalente a 1,5% do PIB mundial. “O custo de construção de grandes redes elétricas é hoje até seis vezes superior ao último grande ciclo de investimento, tornando o custo de capital o principal fator económico do setor”, estima a BCG.
Ainda, a procura de petróleo e gás tem sido superior à esperada, apoiada pelo crescimento de mercados emergentes e pela lentidão na substituição tecnológica.
E, por fim, os custos tecnológicos divergem: desde 2010, o preço médio da energia solar caiu 86%, o da eólica onshore 49% e o das baterias LFP 88%, enquanto o hidrogénio verde e o armazenamento de longa duração “continuam caros e em desenvolvimento desigual”.
Por todos esses fatores, “percebemos que o futuro exigirá equilíbrio, transparência e escolhas difíceis”, diz, citado em nota, Jaime Ruiz-Cabrero, Managing Director & Senior Partner da BCG Lisboa.
“Não basta ambicionar descarbonizar: é fundamental garantir soluções que sejam competitivas, seguras e sustentáveis a longo prazo. O desafio desta década será conciliar estes três pilares enquanto aceleramos a transformação”, sentencia o responsável.
A consultora considera que numa altura em que os mercados enfrentam “pressões contraditórias entre a urgência de reduzir emissões e a necessidade de manter energia acessível”, as empresas e outras organizações que conseguirem “agir com visão sistémica e investir de forma consistente” são aquelas que estarão mais bem preparadas para “liderar o novo capítulo da transição energética”.









