Vaga de calor na Ásia Central põe em risco colheitas e acesso à água

Uma intensa e invulgar vaga de calor atingiu a Ásia Central em março, pondo em risco colheitas e acesso a água, numa região maioritariamente rural que sente já as consequências do aquecimento global, indica um estudo divulgado hoje.
Durante o mês de março, as temperaturas foram até 10ºC (graus celsius) mais elevadas do que a média pré-industrial, de acordo com a “World Weather Attribution” (WWA), uma rede de referência que realizou a investigação.
O estudo foi feito em cinco países da Ásia Central: Cazaquistão, Quirguizistão, Tajiquistão, Turquemenistão e Uzbequistão.
As alterações climáticas intensificaram a vaga de calor em cerca de 4ºC, afirmou a WWA num comunicado, alertando que o valor será “provavelmente subestimado”.
“Trata-se de uma vaga de calor que não fez manchetes, pois ocorreu na primavera e numa região que não é conhecida por ondas de calor esmagadoras”, salienta Maja Vahlberg, especialista do Centro para Clima do Crescente Vermelho e da Cruz Vermelha, que participou no estudo.
“Os nossos estudos sobre as vagas de calor detetam frequentemente alterações de 2 a 4ºC , pelo que 10ºC é uma loucura”, sublinhou Ben Clarke, investigador do Imperial College de Londres.
E Friederike Otto, co-diretora da WWA, explicou que as temperaturas mais elevadas em março “têm consequências para as colheitas agrícolas e o acesso à água na Ásia Central, bem como para a saúde das populações locais”.
O degelo dos glaciares é já uma grande ameaça para esta região árida e sem litoral, situada a milhares de quilómetros dos mares mais próximos.
Os glaciares atuam como torres de água, cruciais para a segurança alimentar dos centro-asiáticos, alimentando os rios sobretudo durante os meses em que não há precipitação.
No entanto, o Banco Eurasiático de Desenvolvimento estima, num relatório, que entre 14% e 30% dos glaciares do Tian-Shan e do Pamir, as duas principais cadeias montanhosas da Ásia Central, derreteram nos últimos 60 anos.
Esta vaga de calor surge numa altura crucial para a agricultura, quando as amendoeiras, os alperces e as cerejeiras estão a florir e o trigo está a ser semeado.
Cerca de metade dos trabalhadores do Tajiquistão e do Uzbequistão estão empregados no setor agrícola, que representa um quinto da economia da região.
As temperaturas mais elevadas atingiram os 30ºC, o que é muito invulgar em março.
A Ásia Central tem geralmente invernos extremamente rigorosos e verões muito quentes.
Segundo os climatologistas, é pouco provável que estas ondas de calor precoces continuem a ser uma exceção na região.