Por Gustavo Barreto, Membro da Comissão Executiva do Grupo Ageas Portugal
De acordo com o último Inquérito à Mobilidade do INE, todos os dias são realizadas, em média, 8,8 milhões de deslocações apenas nas Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto. No entanto, quando analisamos o meio de transporte mais utilizado nestas deslocações, constatamos que o automóvel continua a ser o preferido pela esmagadora maioria: 66% dos inquiridos utilizam este meio. Mais preocupante ainda é perceber que, nos últimos 20 anos, esta percentagem tem vindo a aumentar. Em 2001, o automóvel era usado por 45% dos inquiridos, mas em 2021 já representava 66%, um crescimento de mais de 20 pontos percentuais.
Estes dados colocam Portugal em contraciclo com a maioria das cidades europeias, que têm vindo a reduzir o uso do automóvel, apostando em alternativas mais sustentáveis. Assim, surge a questão: não estará o nosso país perante uma oportunidade de mudança? Acredito que sim. A transição para uma mobilidade sustentável está nas mãos de todos nós, e é essencial termos consciência do impacto das nossas escolhas de transporte. Sempre que possível, devemos optar por soluções mais amigas do ambiente.
Mas afinal, o que é a mobilidade sustentável? Trata-se de um conceito que se refere a sistemas de transporte que minimizam o impacto ambiental e promovem a eficiência energética. Este conceito integra estratégias e soluções que visam reduzir a dependência de combustíveis fósseis, diminuir as emissões de gases com efeito de estufa e melhorar a qualidade de vida nas cidades. Felizmente, esta mudança de paradigma já está em curso, e as pessoas começam a compreender o impacto das suas escolhas.
Um exemplo concreto desta mudança é o aumento da procura por veículos sustentáveis. No Prémio Seguro Directo Carro do Ano, por exemplo, verificou-se este ano um aumento substancial de inscrições de carros com energia sustentável – o dobro da edição anterior. Este dado reflete uma tendência que não se limita a Portugal, mas que é visível em todo o mundo: os consumidores estão a optar cada vez mais por viaturas elétricas e sustentáveis, ao mesmo tempo que adotam estilos de vida mais conscientes. Os números confirmam esta realidade: só em 2024, o parque de veículos 100% elétricos em Portugal cresceu 22,3% face ao ano anterior, totalizando quase 61 mil veículos matriculados (60.736, para ser exato).
A descarbonização é, sem dúvida, uma prioridade global, e as metas são claras, tanto em Portugal como na Europa. Apesar das mudanças no contexto mundial, acredito que o caminho continuará a ser este, com a frota de carros 100% elétricos a crescer de forma consistente. Em Portugal, o Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 (RNC2050) é um exemplo claro do compromisso nacional. Este plano estabelece a visão e as trajetórias para que o país atinja a neutralidade carbónica em 25 anos, o que significa equilibrar as emissões de dióxido de carbono e outros gases com efeito de estufa com as remoções desses gases da atmosfera. Para atingir este objetivo, é necessário reduzir as emissões no setor dos transportes em 90%, compensado, por outro lado, as restantes emissões através de sumidouros naturais, como florestas e outros usos do solo.
Neste contexto, a adoção de um estilo de vida mais sustentável por parte da sociedade e dos consumidores é fundamental. Isso inclui não só a utilização de veículos elétricos, mas também a aposta na micromobilidade, como bicicletas e trotinetes elétricas. A micromobilidade refere-se a formas de transporte pessoal que utilizam veículos pequenos e leves, concebidos para viagens curtas e urbanas. Um estudo recente do Grupo Ageas Portugal revelou que 14% da população ativa nas cidades de Lisboa e Porto já utiliza regularmente veículos de micromobilidade urbana, como bicicletas (simples ou elétricas) e trotinetes elétricas.
Estamos em plena Semana Europeia da Mobilidade, logo acredito que é importante reforçar que, seja através da micromobilidade ou de automóveis elétricos, o mais importante é que cada um de nós reconheça o poder transformador das suas escolhas. Um estilo de vida mais sustentável não é apenas uma questão de reduzir emissões ou poupar recursos; é uma oportunidade de redefinir a forma como vivemos, trabalhamos e nos deslocamos, criando cidades mais limpas, mais seguras e mais humanas. A micromobilidade, especialmente através do uso de bicicletas, é uma verdadeira aliada de um estilo de vida saudável tanto para o nosso corpo – torna-se num exercício físico diário acessível, ajuda na redução dos níveis de stress e permite-nos passar menos tempo no trânsito – quanto para o planeta, ao contribuir para um ar mais limpo, exigindo um menor consumo de energia e provocando menos poluição sonora. Paralelamente, é um transporte de baixo custo, com uma manutenção simples e mais barata, e que permite melhorar o espaço público e tornar as cidades mais seguras.
Cada pequena mudança – desde optar por uma bicicleta até partilhar um carro elétrico – pode desencadear um impacto brutal, inspirando outros a seguir o mesmo caminho e gerando um efeito cascata que transforma não só o ambiente, mas também a qualidade de vida de todos nós. O futuro está nas nossas mãos, e a mobilidade sustentável é o primeiro passo para um amanhã mais equilibrado e consciente.









