Pinguins na Antártida estão a reproduzir-se semanas mais cedo por causa das alterações climáticas



Três espécies de pinguins que vivem na Antártida estão a antecipar em mais de uma semana a sua época de reprodução. Os cientistas falam de uma “mudança recorde” e que provavelmente se trata de uma adaptação aos efeitos das alterações climáticas.

Entre 2011 e 2012 e entre 2021 e 2022, um grupo de investigadores liderado pela Universidade de Oxford estudou 37 colónias distintas de pinguins-gentoo (Pygoscelis papua), de pinguins-de-adélia (P. adeliae) e de pinguins-de-barbicha (P. antarcticus). O objetivo era identificar alterações no calendário de reprodução desses animais.

Com base em imagens recolhidas por câmaras colocadas na península antártica e em algumas ilhas subantárticas no Atlântico, para assegurar que os resultados são relevantes para toda a espécie e não se limitam a apenas uma colónia em particular, a equipa revela que todas as três espécies anteciparam as suas épocas de reprodução durante a década de estudo.

Pinguim-de-adélia (Pygoscelis adeliae). Foto: Jason Auch / Wikimedia Commons (licença CC BY 2.0).

Num artigo publicado esta semana na revista ‘Journal of Animal Ecology’, os cientistas mostram que os pinguins-gentoo foram a espécie onde a mudança foi mais notória, com uma antecipação, em média, de 13 dias por década. Em algumas colónias essa antecipação chega aos 24 dias.

Essa é, segundo os autores do estudo, a alteração mais rápida do comportamento reprodutivo alguma vez registada numa ave, e possivelmente também em qualquer espécie de vertebrado.

No que toca aos pinguins-de-adélia e pinguins-de-barbicha, a antecipação ronda, em média, dos 10 dias entre 2011-2012 e 2021-2022.

Ignacio Juarez Martínez, primeiro autor do artigo, explica que os resultados obtidos sugerem que, no contexto de avanço das alterações climáticas, as três espécies de pinguins estudadas não serão afetadas todas da mesma forma.

“As cada vez mais marcadas condições subpolares da Península Antártica provavelmente favorecem generalistas como os pinguins-gentoo”, salienta, em detrimento de especialistas que têm dietas mais limitadas, como os pinguins-de-barbicha e dos pinguins-de-adélia.

“Os pinguins desempenham um papel essencial nas cadeias alimentares na Antártida e perder diversidade de pinguins aumenta o risco de amplo colapso do ecossistema.”

Pinguins-de-barbicha (Pygoscelis antarcticus). Foto: lwolfartist / Wikimedia Commons (licença CC BY 2.0).

As regiões polares estão a aquecer mais rapidamente do que qualquer outra no planeta. Dados recolhidos por termómetros incorporados nas câmaras revelam uma realidade preocupante.

Os locais onde estão as colónias dos pinguins da Antártida estão a aquecer a um ritmo médio de 0,3 graus Celsius por ano, quatro vezes mais do que a média da região, que se cifra pelos 0,07 graus por ano. Por isso, os investigadores dizem que os lugares onde estão as colónias de pinguins no pólo sul da Terra são dos habitats que mais rapidamente estão a aquecer a nível planetário.

Embora estejam inclinados para essa ideia, os cientistas admitem que não é ainda possível confirmar se a antecipação da época de reprodução se trata realmente de uma adaptação dos pinguins a uma Antártida cada vez mais quente ou se essa mudança pode estar a ser influenciada por outros fatores.

Seja como for, dizem que antecipar a reprodução pode causar um desfasamento com outros importantes fatores e ciclos ecológicos, como a disponibilidade de alimento. Se os pinguins começaram a reproduzir-se, que envolve grandes gastos de energia, antes que no mar exista quantidade abundante de alimento, como krill, a reprodução pode ser uma sentença de morte para muitos desses animais, com sérios impactos na sobrevivência das colónias e, em última análise, das próprias espécies afetadas.

Além disso, com menor disponibilidade de alimento, o desenvolvimento e até mesmo a própria sobrevivência das crias pode ficar em risco. Embora as três espécies estejam classificadas como “Pouco Preocupantes” em termos da sua conservação, de acordo com a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, esse cenário pode inverter-se, e rapidamente, se as transformações ambientais e ecológicas na Antártida se revelarem altamente prejudiciais para essas aves.

Mesmo que realmente se trata de uma adaptação climática, persistem dúvidas sobre os limites dessa capacidade dos pinguins para e moldarem a um ambiente que à sua volta se está a alterar rapidamente.

Uma vez que essas aves aquáticas são consideradas indicadores das alterações climáticas, “os resultados deste estudo têm implicações para espécies por todo o planeta”, declara Fiona Jones, coautora do artigo.

“É preciso continuar a monitorização para compreender se esta antecipação recorde das épocas de reprodução destas espécies de pinguins está a impactar o seu sucesso reprodutivo”, acrescenta.






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