Quando pensamos nas cidades com o ar mais poluído do mundo, é provável que pensemos quase imediatamente em Nova Deli, na Índia, ou em Pequim, na China, e em imagens de zonas urbanas que parecem desaparecer por detrás de uma cortina de smog.
Contudo, a poluição do ar não é apenas um problema de regiões distantes, de países com outras culturas, outros hábitos, outros regimes políticos. O problema está mais perto do que julgamos, mesmo à nossa porta, no coração da Europa.
Um grupo de cientistas liderado pelo Instituto Paul Scherrer, um centro de investigação sediado na Suíça, descobriu que os níveis de poluição do ar por partículas em Sarajevo, capital da Bósnia-Herzegovina, na região dos Balcãs, no sudeste europeu, são ainda mais elevados do que nos céus de Pequim.
Em 2023, o cientista André Prévôt e a sua equipa viajaram por Sarajevo durante três semanas, recolhendo, numa carrinha convertida em laboratório móvel de alta tecnologia, amostras do ar envolvente. Os resultados, publicados este mês num artigo na revista ‘Environment International’, mostram uma realidade preocupante.
Cerca de dois terços das medições feitas pelos investigadores excediam os limites diários recomendados pela Organização Mundial de Saúde relativamente às chamadas partículas finas (ou PM2,5), que é de cinco microgramas por metros cúbico.
Por terem menos de 2.5 micrómetros de diâmetro, essas partículas podem facilmente ser aspiradas, entrar e alojar-se nos pulmões e causar a morte prematura.
Estima-se que em 2022 pelo menos 239.000 pessoas tenham morrido na União Europeia devido à exposição à poluição por partículas finas.
As fontes da poluição desvendadas
Em Sarajevo, a poluição por partículas finas está relativamente bem distribuída por toda a cidade durante o dia. Contudo, com o cair da noite, a poluição, de acordo com as medições feitas, tende a concentrar-se mais intensamente em áreas residenciais fora do centro da cidade.
Perto de 60% dessa poluição localizada deve-se ao uso de fornos de lenha que as pessoas usam nas suas residências para cozinhar e para se aquecerem.
Mas essa não é a única causa da poluição por partículas que torna Sarajevo na cidade com o ar mais poluído da Europa. Na região de Baščaršija, no leste da cidade, também se registam altos níveis de poluição, dessa feita, por causa das emissões das cozinhas dos muitos restaurantes que existem nessa zona histórica da cidade.
“Aqui temos sempre o cheiro de carne grelhada no nosso nariz”, diz, em comunicado, Katja Džepina, coautora do estudo.
Outra fonte de poluição que foi identificada pela equipa é o dióxido de enxofre emitido por antigas centrais elétricas a carvão. Dizem os investigadores que 81% das emissões desse gás têm origem nos Balcãs ocidentais, sobretudo em velhas centrais elétricas a carvão da altura da União Soviética.
Os autores deste trabalho recordam que quando saíram de Zurique, na sua carrinha-laboratório, os níveis de dióxido de enxofre mal se detetavam. No entanto, mal chegaram à Bósnia-Herzegovina dispararam e permaneceram elevados, especialmente nos vales em torno de Sarajevo.
Sugerem os investigadores que, para melhorar a qualidade do ar nessa cidade europeia, é preciso que tantos edifícios quanto possível sejam devidamente isolados e ligados à rede de distribuição de gás. No entanto, reconhecem que não é tarefa fácil, especialmente no que toca a edifícios nas vertentes montanhosas, pelo que não há, como dizem, “uma solução rápida à vista”.
Além do gás, aponta que também a instalação de sistemas de aquecimento e equipamentos menos poluentes poderá ser também uma solução viável.









