Um novo estudo internacional ajuda a esclarecer um dos grandes enigmas da biologia evolutiva: porque é que os reis e rainhas das térmitas mantêm relações estritamente monogâmicas. A resposta, segundo os investigadores, está menos na aquisição de novas capacidades genéticas e mais na perda de genes ao longo da evolução.
A investigação, liderada pela Universidade de Sydney e publicada na revista Science, mostra que as térmitas evoluíram a partir de ancestrais semelhantes às baratas, mas tornaram-se socialmente mais complexas não por acrescentarem genes, e sim por eliminarem vários deles — incluindo genes associados à competição entre espermatozoides. Esta descoberta lança nova luz sobre o papel da monogamia na origem de sociedades de insetos altamente organizadas.
Os cientistas reconstruíram a evolução das térmitas desde baratas primitivas que passaram a alimentar-se de madeira morta. Essa mudança alimentar, pobre em nutrientes, desencadeou uma transformação profunda, tanto ao nível genético como social. Para o estudo, foram sequenciados e comparados genomas de baratas, de “woodroaches” (parentes próximos que vivem em pequenos grupos familiares) e de várias espécies de térmitas com diferentes níveis de complexidade social.
Uma das conclusões mais surpreendentes é que os genomas das térmitas são mais pequenos e simples do que os das baratas. Ao longo da evolução, perderam genes ligados ao metabolismo, à digestão e à reprodução, tornando-se cada vez mais dependentes da cooperação e da partilha de alimento dentro da colónia. Em particular, desapareceram genes responsáveis pela formação da cauda do espermatozoide, tornando o esperma das térmitas imóvel — uma característica rara no reino animal.
Segundo os autores, esta perda não causou a monogamia, mas indica que ela já existia. Em espécies onde as fêmeas acasalam com vários machos, como acontece nas baratas, há forte competição entre espermatozoides, favorecendo a sua mobilidade. Nas térmitas, a monogamia eliminou essa pressão evolutiva, tornando desnecessários os genes associados à competição reprodutiva.
O estudo contribui também para o debate científico sobre se a elevada proximidade genética é essencial para o surgimento de sociedades complexas. No caso das térmitas, os resultados sugerem que a monogamia e a elevada relação de parentesco foram decisivas. Quando um rei ou uma rainha morre, o seu lugar é geralmente ocupado por um descendente direto, reforçando ainda mais a consanguinidade dentro da colónia.
A investigação explica ainda como estas sociedades se organizam internamente. Experiências mostram que o destino de uma térmita jovem — tornar-se operária ou futura rainha ou rei — depende em grande medida da alimentação recebida nas fases iniciais do desenvolvimento. Este sistema permite às colónias ajustar finamente a sua força de trabalho e manter uma organização estável e eficiente ao longo do tempo.
Ao combinar genética, fisiologia e comportamento, o estudo oferece uma das explicações mais completas até hoje sobre a transição das térmitas de insetos solitários para algumas das sociedades mais complexas do planeta. Como sublinham os investigadores, a evolução social nem sempre avança através da adição de novas características — por vezes, progride precisamente através daquilo que deixa para trás.









