Estudo coordenado pela Universidade de Coimbra revela novas espécies de orquídeas africanas com polinização rara

Um novo estudo dá a conhecer as espécies Rhipidoglossum acuminifolium e Rhipidoglossum falcatulum. Segundo as informações divulgadas, apesar de só agora terem sido cientificamente descritas, já se encontram ameaçadas de extinção, sobretudo devido à destruição de habitat, o que é agravado pelo facto de terem uma distribuição limitada.

Redação

Cientistas do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Universidade de Coimbra descobriram duas espécies de orquídea na África Central que têm um método de polinização “raramente observado na natureza”: os seus grãos de pólen são transportados por mariposas noturnas.

Publicado na revista ‘Phytokeys’, o novo estudo dá a conhecer as espécies Rhipidoglossum acuminifolium e Rhipidoglossum falcatulum. Segundo as informações divulgadas, apesar de só agora terem sido cientificamente descritas, já se encontram ameaçadas de extinção, sobretudo devido à destruição de habitat, o que é agravado pelo facto de terem uma distribuição limitada.

Orquídea Rhipidoglossum acuminifolium. Foto: Jean-Michel Hervouet e Štěpán Janeček.

As espécies, encontradas em áreas tropicais de montanha e floresta, foram identificadas através de uma abordagem que combinou trabalho de campo, análise morfológica e dados de distribuição geográfica.

Para além da descoberta, os investigadores conseguiram algo pouco comum: observar diretamente a interação com os seus polinizadores, neste caso mariposas noturnas. A polinização noturna é considerada rara no mundo natural, sendo sobretudo feita por polinizadores que estão ativos durante o dia.

Para os investigadores, estas observações ajudam a confirmar que a forma das flores está intimamente adaptada aos insetos que as polinizam, revelando relações ecológicas altamente especializadas.

Orquídea da nova espécie Rhipidoglossum falcatulum. Foto: M. Schaijes.

Para os investigadores, este trabalho demonstra que a biodiversidade tropical é não só mais rica do que se pensava, mas também mais complexa nas suas interações ecológicas. A falta de dados e a pressão sobre os ecossistemas tornam urgente continuar a estudar e proteger estas espécies antes que desapareçam, alertam.

“No grande quebra-cabeças que é a biodiversidade tropical, cada nova amostra ou registo pode representar uma peça ainda desconhecida pela ciência”, diz, em nota, Arthur Macedo, doutorando do CFE e primeiro autor do artigo.

“Estes ecossistemas estão entre os mais ricos em biodiversidade do planeta, mas também entre os mais ameaçados e com maiores lacunas de informação. Estudos que combinem coleções biológicas, trabalho de campo e colaboração internacional são essenciais para compreender esta diversidade e apoiar estratégias de conservação antes que muitas destas espécies desapareçam”, detalha.

Orquídea Rhipidoglossum acuminifolium com possível polinizador, uma mariposa noturna do género Afroracotis. Fotos: Štěpán Janeček e Yannick Klomberg.

Os investigadores registaram ainda interações entre grilos e flores de orquídeas, “um fenómeno extremamente raro e pouco documentado em escala global”. Esta observação representa uma “descoberta inédita” e sugere, dizem os cientistas, que estes insetos poderão desempenhar um papel ecológico mais relevante na polinização de algumas espécies tropicais do que se pensava anteriormente.

“A grande diversidade floral de Rhipidoglossum deixa adivinhar muitas interações desconhecidas. Quem sabe se os grilos não poderão ser os polinizadores principais de alguma espécie na flora da África Tropical?”, questiona João Farminhão, investigador do CFE e principal coautor do estudo.

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