Alimentar animais selvagens pode aumentar risco de conflitos com humanos

Cientistas avisam que a alimentação de animais selvagens por parte de turistas e visitantes pode resultar em conflitos potencialmente fatais para pessoas e animais.

Filipe Pimentel Rações

O turismo de vida selvagem está a crescer, representando cerca de 4% do setor global de turismo e viagens e estimando-se que chegue aos 7,7% no início da próxima década.

No entanto, com o aumento da procura por viagens a locais exóticos para observar e interagir com animais selvagens nos seus habitats naturais, há problemas que podem surgir, se as coisas não forem bem feitas. Várias notícias dão conta de turistas feridos ou mortos em safáris por se terem aproximado demasiado ou provocado leões e elefantes, sobre conflitos com as comunidades locais por causa de comportamentos menos éticos, e a lista continua.

Um dos riscos das interações entre humanos e animais selvagens está relacionado com os alimentos que os primeiros dão aos segundos. Num artigo publicado na revista ‘Ecologial Solutions and Evidence’, a docente e investigadora Shermin de Silva, da Universidade da Califórnia em San Diego (Estados Unidos da América), avisa que conflitos podem ser exacerbados quando os humanos alimentam animais selvagens.

Homem alimenta elefante-asiático, um macho de nome Rambo, no Parque Nacional Udawalawe, no sul do Sri Lanka. Foto: Udawalawe Elephant Research Project.

Através do estudo de quase duas décadas de dados sobre interações entre turistas e elefantes-asiáticos (Elephas maximus) no Parque Nacional de Udawalawe, no sul do Sri Lanka, de Silva e colegas perceberam que alguns dos animais congregavam em locais específicos perto de turistas para pedirem comida. Os elefantes, dizem os investigadores, não apenas se habituaram a presença humana, como também ao consumo de alimento ricos em açúcares, tendo já sido registados casos de elefantes que romperam barreiras físicas para se aproximarem mais dos turistas.

Em 2021, um homem morreu pisoteado por um elefante que quebrou parte da vedação do parque. Há também casos de elefantes mortos por caçadores furtivos, por atropelamento em estradas e por caírem em ravinas e poços.

Além de aumentar a probabilidade de encontros negativos, a alimentação dos elefantes resultou na ingestão de embalagens e invólucros de plástico e a maior proximidade faz subir o risco de transmissão de doenças dos humanos para os animais.

“Muitas pessoas, especialmente turistas estrangeiros, pensam que os elefantes-asiáticos são domesticados e dóceis, como animais domésticos”, diz Shermin de Silva, em comunicado. “Não se apercebem de que são animais selvagens formidáveis e tentam aproximar-se demasiado para tirarem fotografias ou ‘selfies’, o que pode acabar mal para ambas as partes”, salienta.

Estima-se que entre 800 e 1.200 elefantes-asiáticos vivam no Parque Nacional Udawalawe, e esta investigação descobriu que 66 machos, ou entre 9% e 15% da população masculina local, foram observados a pedir comida aos visitantes.

Os animais selvagens habituados a receberem alimento por parte dos humanos, e que os procuram ativamente para esse fim, “podem tornar-se perigosos, resultando no ferimento ou morte de animais selvagens, de pessoas ou de ambos”, escrevem os autores no artigo.

O turismo de vida selvagem é um importante vetor económico em vários países e comunidades locais, mas os investigadores dizem que o aumento do risco de interações perigosas ou fatais invalida os potenciais benefícios dessa atividade.

Os especialistas consideram que não é possível regular adequadamente a alimentação dos elefantes por parte dos turistas, pelo que as autoridades gestoras dos parques devem proibir terminantemente a prática, para segurança das pessoas e dos animais.

Ainda que reconheçam que muitas pessoas, ao alimentarem animais selvagens, fazem-nos com boas intenções, os custos são demasiado elevados e devem ser mitigados ao máximo.

Shermin de Silva acredita que os animais podem mesmo abandonar os seus comportamentos naturais de procura de alimento, perder conhecimento adquirido sobre fontes naturais e tornar-se excessivamente dependentes dos humanos.

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