Estaremos perante o “engagement da catástrofe”?

As catástrofes, quer se originem por causas naturais ou através da intervenção do ser humano, são dos temas mais badalados diariamente. Seja nos telejornais, nas redes sociais ou nas conversas de café.

Redação

Por José Rolão é Digital Marketeer e Social Media Specialist *

Já vos tinha dito que odeio o sensacionalismo? E se vos falar do engagement da catástrofe? Bem… primeiro vou contextualizar.

As catástrofes, quer se originem por causas naturais ou através da intervenção do ser humano, são dos temas mais badalados diariamente. Seja nos telejornais, nas redes sociais ou nas conversas de café.

Com a internet e com a facilidade com que todos temos uma câmara no bolso, muitas vezes, passados meros minutos, já circulam vídeos nas redes sociais de um dado acontecimento.

Também os media abordam acontecimentos de catástrofe com a ênfase que todos sabemos. Isto não é uma crítica. É apenas um facto. E muito se deve à curiosidade inata do ser humano. E por mais que se critique ao se dizer: “estão sempre a falar da mesma coisa, é só tristeza e desgraça”, de certeza que todos nós já nos demos conta de ficarmos atentos aquando de alguma notícia mais trágica.

Basta pensarmos na clássica observação comum de se abrandar para ver um acidente de carro. É errado, empata o trânsito e pode causar até um novo acidente, mas quem nunca?

Na literatura, uma catástrofe pode ser definida como um acontecimento que foge da normalidade do dia a dia, indo ao encontro de outros conceitos que traduzem a quebra, geralmente, repentina do quotidiano, como crise, emergência ou desastre (Fassin e Pandolfi, 2013 & Craig Calhoun, 2013), e que podem gerar sofrimento, seja a nível físico ou psicológico, este, que pode tanto durar dias, como anos, entrando-se, assim, no campo do trauma.

Não sou contra que se comuniquem acontecimentos ou imagens de catástrofes. Nem concordo que se trate isso como tabu. Sou contra o sensacionalismo e a forma como se exploram repetidamente as imagens do sofrimento alheio na busca de visualizações ou de audiência.

Um pai a chorar a morte de uma filha, uma mãe em prantos a ver a sua casa a arder, um funeral transmitido em direto… são imagens que ficam na nossa mente. São imagens exploradas e repetidas vezes sem conta durante dias e, por vezes, semanas, tanto nos media tradicionais como nos canais de televisão, bem como na internet.

E aqui entra uma das questões com que iniciei este artigo: estaremos perante o engagement da catástrofe?

Estas imagens publicadas na internet vão gerar comentários. Os vídeos de puro terror vão catapultar as partilhas. O algoritmo vai entender isto como um conteúdo que deve ser mostrado e que é de interesse e, assim, pode nascer um viral nas redes.

Imagens de impacto sempre vão causar repulsa, mas também vão criar curiosidade, ou como se diz no jargão das redes sociais: engagement comentários, partilhas, likes, etc.

Estaremos, assim, a contribuir todos nós para este “mercado” do conteúdo das catástrofes? E falo no plural – media, criadores, utilizadores – pois ou estamos do lado de quem cria, de quem publica, ou de quem simplesmente partilha.

Frases pensadas para despertar curiosidade e espanto. Palavras que são associadas na ótica de prender o utilizador. Não são meros acasos, têm o objetivo de gerar engagement e visualizações.

Muitas vezes, os títulos são sensacionalistas e nem representam o conteúdo total da notícia, o famoso clickbait. Isto sempre aconteceu, mas, na era da internet, na era de tudo ser tão fugaz, “quem tem um título chamativo é rei”.

É também possível depararmo-nos, nos scrolls infinitos que todos fazemos, com vídeos de catástrofes editados com música, timings e ganchos que geram dopamina suficiente para nos prender. Será este o nicho das catástrofes?

Não culpo os media, não culpo os criadores, não te culpo a ti nem a mim.

São apenas questões para refletir.

Bibliografia:

Fassin, D. e Pandolfi, M. (eds.) (2013). Contemporary states of emergency. The politics of military and humanitarian interventions. New York: Zone Books.

Calhoun, C. (2013). “The Idea of Emergency: Humanitarian Action and Global (Dis) Order”. In Fassin, Didier, e Mariella Pandolfi (eds), Contemporary states of emergency. The politics of military and humanitarian interventions (29-58). New York: Zone Books.

 

*José Rolão é Digital Marketeer e Social Media Specialist, com experiência em contexto de agência na DCE Loving Brands e no desenvolvimento de projetos próprios, como a plataforma Abelha 7 Trevos e a página Narrativa Hip Hop.

É licenciado e mestre em Antropologia, pós-graduado em Marketing Digital e pós-graduado em Social Media Marketing, contando ainda com formação complementar em SEO, Content Writing, Meta Ads, Google Ads e Criatividade.

Desenvolve trabalho nas áreas de estratégia, branding, ativações de marca, criação de conteúdos, social media e marketing digital, com experiência na gestão de marcas, comunidades e campanhas de diferentes setores.

É autor do livro Abelha 7 Trevos: uma jornada verde, no qual cruza experiência prática, comunicação digital, marketing de conteúdos e marketing de influência.

 

 

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