Alterações climáticas apontadas como uma das principais causas do declínio global dos anfíbios

Investigadores revelam que, com base na análise de dados dos últimos 20 anos, de mais de oito mil espécies de rãs, salamandras e cecílias avaliadas, duas em cada cinco estão ameaçadas de extinção.

Filipe Pimentel Rações

A perda de habitat e as doenças têm sido amplamente apontadas, e estudadas, duas das grandes causas que estão a impulsionar perdas nas populações de várias espécies de anfíbios. Agora, um grupo de especialistas nesse grupo de vertebrados alerta que os efeitos das alterações climáticas estão rapidamente a subir na lista das principais ameaças.

Num artigo publicado esta semana na revista ‘Nature’, especialistas do grupo de anfíbios da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e dezenas de outros investigadores revelam, com base na análise de dados dos últimos 20 anos, que, de mais de oito mil espécies de rãs avaliadas, salamandras e cecílias, duas em cada cinco estão ameaçadas de extinção.

Só entre 2004 e 2022, mais de 300 espécies terão sido empurradas para ainda mais perto do precipício da extinção, sendo que 39% delas tiveram as alterações climáticas como causa. E os cientistas dizem que a realidade pode ser ainda mais grave, à medida que mais e melhores dados forem recolhidos e estudados.

Só entre 2004 e 2022, mais de 300 espécies de anfíbios terão sido empurradas para ainda mais perto do precipício da extinção, sendo que 39% delas tiveram as alterações climáticas como causa.
Foto: David Clode / Unsplash

Para os anfíbios, as alterações climáticas representam uma ameaça mais preocupante do que para outros grupos, uma vez que esses animais são “particularmente sensíveis a alterações nos seus ambientes”, explicam.

“À medida que os humanos provocam mudanças no clima e nos habitats, os anfíbios tornam-se prisioneiros climáticos, incapazes de se moverem para muito longe para escaparem às alterações climáticas”, que estão a intensificar, e a tornar mais duradouros e mortíferos, eventos climáticos extremos, como incêndios, cheias, tempestades e ondas de calor, afirma Jennifer Luedtke Swandby, do grupo de especialistas da UICN e uma das autoras do artigo.

Para ela, “o nosso estudo mostra que não podemos continuar a subestimar esta ameaça. Proteger e restaurar as florestas é essencial, não apenas para proteger a biodiversidade, para também para combater as alterações climáticas”.

A par dessa ameaça global, com impactos locais, a perda de habitat devido à expansão agrícola e da presença humana continuam a ser uma ameaça bastante presente aos anfíbios, e a uma miríade de outras espécies, quer animais, quer vegetais. De acordo com o artigo, a destruição e degradação dos habitats afeta 93% de todas as espécies de anfíbios classificadas atualmente como ameaçadas.

“À medida que os humanos provocam mudanças no clima e nos habitats, os anfíbios tornam-se prisioneiros climáticos, incapazes de se moverem para muito longe para escaparem às alterações climáticas”, alertam os especialistas.
Foto: Tyler Donaghy / Unsplash

As salamandras são o grupo de anfíbios que mais sofre com a forma displicente com que os humanos têm tratado o planeta. Dizem os especialistas que três em cada cinco espécies estão ameaçadas de extinção, sobretudo devido à destruição dos seus habitats naturais e dos efeitos das alterações climáticas.

Contas feitas, estima-se que, a nível mundial, 41% de todas as espécies de anfíbios estejam hoje ameaçadas de extinção, com estatutos de ‘Criticamente em Perigo’, ‘Em Perigo’ ou ‘Vulnerável’. Para podermos ter uma noção da dimensão do problema, 26,5% das espécies de mamíferos, 21,4% dos répteis e 12,9% das aves carregam estatutos de ameaça.

Nos últimos 20 anos, quatro espécies de anfíbios já se extinguiram: Atelopus chiriquiensis, Taudactylus acutirostris, Craugastor myllomyllon e Pseudoeurycea exspectata. E os investigadores alertam que outras 160 podem ter seguido o mesmo desfecho trágico, embora ainda estejam a ser recolhidas evidências que permitam clarificar o seu estado de conservação.

Mas nem tudo são más notícias, pois 120 espécies incluídas na Lista Vermelha da UICN melhoraram o seu estado de conservação desde a década de 1980, fruto, sobretudo, de programas de conservação.

“Os anfíbios estão a desaparecer mais rapidamente do que a velocidade que a conseguimos estudá-los”, diz Kelsey Neam, uma das principais autoras do artigo. Mas aponta que “a lista de razões para protegê-los é longa”, uma vez que permitem avanços na Medicina, ajudam no controlo de pragas, servem como indicadores do estado ambiental e “tornam o planeta mais belo”.

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