Apenas uma mão-cheia de peixes tem sangue quente. Mas porque é que ganharam essa capacidade?

Das mais de 30 mil espécies de peixes que existem atualmente no planeta, apenas 0,1% são endotérmicos, ou seja, a temperatura dos seus corpos aumenta com o calor produzido pela atividade dos seus metabolismos.

Filipe Pimentel Rações

Das mais de 30 mil espécies de peixes que existem atualmente no planeta, apenas 0,1% são endotérmicos, ou seja, a temperatura dos seus corpos aumenta com o calor produzido pela atividade dos seus metabolismos.

Assim, os peixes de “sangue quente” são muito raros, mas existem. A classificação científica da endotermia pode variar: por exemplo, o calor produzido por alguns espadartes está centrado no cérebro ou nos olhos, enquanto os atuns têm um endotermia regional, geralmente associada aos músculos que usam para nadar. Não é por acaso que os atuns e os espadartes figuram entre os peixes mais velozes dos oceanos. O peixe-cravo (Lampris guttatus) é o único que se considera ser um peixe totalmente endotérmico, com calor gerado pelo corpo todo, conseguindo, por isso, manter a sua temperatura corporal acima da temperatura da água que o envolve.

Agora, sabe-se quando e por que razão esses peixes desenvolveram a endotermia.

Num artigo publicado na revista ‘Science Advances’, uma equipa de cientistas dos Estados Unidos da América, da Europa e do Japão revela que alguns peixes aprenderam a geral calor interno há milhões de anos para competirem com as baleias e outros cetáceos, que começavam a transitar de uma vida em terra para os mares e oceanos da Terra antiga.

Com base no que descrevem, em comunicado, como sendo “uma análise genética exaustiva sem precedentes” da árvore evolutiva de uma classe de peixes ósseos cujas barbatanas dorsais são suportadas por raios, os chamados actinopterígios, os investigadores perceberam que a endotermia nos peixes coincidiu com o aparecimento desses novos concorrentes. Registos fósseis confirmam que os peixes de “sangue quente” e os cetáceos viviam nos mesmos locais.

Explicam os autores que a endotermia dá àqueles que a possuem uma vantagem no que toca à procura e captura de presas. Isto, porque manter uma temperatura corporal interna estável e mais alta do que a do meio envolvente permite uma função muscular e um processamento visual mais rápidos, bem como confere aos peixes a capacidade para nadarem velozmente durante mais tempo. Há milhões de anos, os peixes endotérmicos conseguiram adaptar-se a mares com mais e maiores bocas para alimentar.

Até agora, pensava-se que a endotermia nos peixes havia evoluído por causa das suas dietas, mas “este estudo vem alterar o nosso entendimento de como a endotermia evoluiu [nos peixes actinopterígios]”, diz, citado em nota, Fernando Melendez-Vazquez, primeiro autor.

“Com a integração de dados ecológicos, morfológicos e genómicos, mostrámos que a competição com os cetáceos, combinada com adaptações físicas e genéticas específicas, provavelmente levaram à emergência deste traço raro”, refere.

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