Arquitetura subaquática melhora fixação de corais e pode reforçar recuperação dos recifes

Uma equipa de investigadores concebeu uma série de placas inspiradas na forma dos pólipos de coral, recorrendo a impressão 3D e moldes para criar diferentes padrões de superfície.

Redação

Um projeto de investigação liderado pela Griffith University está a demonstrar que a união entre arquitetura e ecologia pode desempenhar um papel decisivo na recuperação dos recifes de coral. O objetivo foi identificar a geometria de superfície ideal para a fixação e o crescimento inicial de larvas de coral — uma etapa crítica no ciclo de vida destes organismos marinhos.

Tal como um recém-nascido necessita de condições adequadas para sobreviver, também as larvas de coral precisam de um ambiente específico para se fixarem e iniciarem o seu desenvolvimento. Durante dias ou semanas, permanecem em suspensão na coluna de água até encontrarem uma superfície apropriada, onde sofrem metamorfose e dão origem a novas colónias.

O estudo, desenvolvido com o apoio da empresa australiana Monsoon Aquatics, foi conduzido pela investigadora Despina Linaraki, da Escola de Engenharia e Ambiente Construído da Griffith University. A equipa concebeu uma série de placas inspiradas na forma dos pólipos de coral, recorrendo a impressão 3D e moldes para criar diferentes padrões de superfície.

Superfícies inspiradas na natureza

As placas foram testadas em tanques nas instalações da Monsoon Aquatics, em Bundaberg, no estado australiano de Queensland. Corais do género Acropora fixaram-se com sucesso nas novas superfícies, permitindo recolher dados relevantes sobre a influência do desenho na taxa de fixação e crescimento.

Em média, as placas desenvolvidas pela equipa registaram uma taxa de fixação mais de quatro vezes superior à observada em azulejos cerâmicos planos convencionais, utilizados como referência nas mesmas condições.

“Foram dois anos de experimentação com sistemas vivos, o que exige tempo e paciência. É especialmente gratificante obter resultados significativos”, afirma Despina Linaraki, sublinhando que, neste caso, “os corais eram os clientes”, pelo que o foco esteve na criação dos habitats mais favoráveis ao seu desenvolvimento e sobrevivência.

85 protótipos e nove desenhos biomiméticos

No total, foram concebidos nove desenhos biomiméticos com recurso aos programas Maya e Rhinoceros 3D, resultando na produção de 85 protótipos com 15 por 15 centímetros. As peças foram fabricadas com cinco materiais distintos — PETG impresso em 3D, betão, betão com conchas de ostra, betão com coral e argila — e em sete cores diferentes.

Segundo a investigadora, o impacto do desenho arquitetónico na construção de recifes artificiais de grande escala tem sido amplamente negligenciado, não existindo estudos sistemáticos que avaliem de forma integrada o contributo da arquitetura para a fixação e crescimento de corais.

A investigação sugere que a incorporação dos corais como elementos centrais no próprio desenho estrutural poderá dar origem a estruturas “autoformativas, autoadaptativas e autossustentáveis”, reduzindo a necessidade de recursos adicionais ao longo do tempo e aumentando os serviços ecológicos prestados.

Contributo para a recuperação da Grande Barreira de Coral

O trabalho poderá ter implicações relevantes para a recuperação da Grande Barreira de Coral, considerada um dos maiores tesouros naturais da Austrália e atualmente sujeita a múltiplas pressões ambientais.

Para Jonathan Moorhead, responsável científico da Monsoon Aquatics, a investigação contribui para compreender melhor as preferências de fixação dos corais e para promover condições ideais ao seu crescimento inicial, alinhando-se com os objetivos da empresa na aquacultura sustentável para o comércio de aquários e na restauração de recifes.

Também Daniel Kimberley, diretor da empresa, considera que o estudo reforça a importância da aquacultura de conservação como componente essencial de estratégias de restaauro de recifes em larga escala, não apenas na Austrália, mas a nível global.

A investigação, intitulada “Design and Fabrication of Bio-Enhancing Surfaces for Coral Settlement”, foi publicada na revista científica Architecture e continuará a explorar de que forma os materiais e as cores influenciam a fixação das larvas, bem como o potencial da arquitetura ecológica na criação de estruturas subaquáticas que possam sustentar tanto a vida marinha como atividades humanas.

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