O arroz, o milho e a mandioca — três dos principais alimentos básicos consumidos no mundo — foram responsáveis por cerca de 11% da desflorestação global entre 2001 e 2022, superando culturas como o cacau, o café e a borracha. A conclusão é de um estudo publicado na revista científica Nature Food.
A investigação analisou a desflorestação associada à agricultura ao longo de duas décadas e conclui que estas culturas alimentares, muitas vezes ausentes do centro do debate ambiental, devem ser consideradas nas estratégias globais de combate à perda de florestas.
121 milhões de hectares perdidos em duas décadas
A agricultura é amplamente reconhecida como um dos principais motores da desflorestação. No entanto, os esforços internacionais têm-se concentrado sobretudo na produção de carne bovina, óleo de palma, soja, borracha, cacau e café.
Para ultrapassar limitações anteriores — como dados geograficamente restritos ou incapazes de captar dinâmicas complexas de uso do solo — os investigadores Chandrakant Singh e Martin Persson desenvolveram o modelo DeDuCE (Deforestation Driver and Carbon Emissions). O sistema combina dados de satélite sobre perda de cobertura florestal com informação agrícola espacial e estatística relativa a 184 produtos alimentares em 179 países.
Segundo os resultados, entre 2001 e 2022 foram perdidos 121 milhões de hectares de floresta devido à expansão de áreas agrícolas, pastagens e plantações florestais. Esta transformação do uso do solo gerou emissões estimadas em 41,2 gigatoneladas de dióxido de carbono.
A expansão de pastagens foi responsável por 42% da desflorestação e por 52% das emissões de carbono associadas.
Impacto distribuído à escala global
Ao contrário de outras culturas cuja produção — e consequente desflorestação — se concentra em regiões específicas, como o óleo de palma no Sudeste Asiático ou a soja na América do Sul, o impacto das culturas alimentares básicas está distribuído de forma relativamente uniforme pelo planeta.
Esta dispersão geográfica dificulta a identificação de “pontos críticos” e sugere que políticas de combate à desflorestação devem integrar também os sistemas alimentares de base, frequentemente associados à segurança alimentar e ao consumo interno.
Os autores defendem que os resultados podem contribuir para melhorar os inventários nacionais de emissões de gases com efeito de estufa e apoiar o desenvolvimento de enquadramentos regulatórios mais eficazes. O estudo sublinha ainda as diferenças na qualidade dos dados estatísticos e espaciais disponíveis consoante as regiões e os produtos analisados.
A investigação reforça a necessidade de uma abordagem mais abrangente às cadeias de abastecimento agrícolas, numa altura em que governos e empresas procuram cumprir metas climáticas e compromissos de desflorestação zero.








