Associação Zero critica Governo por premiar “má gestão do regadio” em Alqueva

“O Governo decidiu aumentar o volume anual de água a extrair de Alqueva em 110 milhões de metros cúbicos, sendo que 100 milhões se destinarão ao regadio, situação que foi objeto de despacho interministerial”, criticaram os ambientalistas, em comunicado.

Green Savers com Lusa

A associação ambientalista Zero acusou hoje o Governo de acabar “com a resiliência de Alqueva como reserva estratégica de água”, premiando “a má gestão do regadio”, que vai ter disponível mais 100 milhões de metros cúbicos/ano.

“O Governo decidiu aumentar o volume anual de água a extrair de Alqueva em 110 milhões de metros cúbicos, sendo que 100 milhões se destinarão ao regadio, situação que foi objeto de despacho interministerial”, criticaram os ambientalistas, em comunicado.

Segundo a Zero, esta medida vai fazer com que “o megaprojeto público” deixe “de estar dimensionado para o pior cenário, ficando apenas formalmente garantida uma reserva mínima para o abastecimento público, o que representa menos de 5% dos consumos totais”.

No comunicado divulgado hoje, a associação Zero defendeu a realização de uma pós-avaliação multidisciplinar do Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva (EFMA) e criticou o “agronegócio do regadio” e a “expansão desregrada” do projeto.

“Os ministérios da Agricultura e Mar e [do] Ambiente e Energia cederam mais uma vez às pretensões do agronegócio do regadio ao premiar a expansão desregrada do EMFA com um aumento do volume de água disponível”, disse a associação.

Recordando a recente decisão do Governo que aprovou um novo enquadramento estratégico para a gestão do empreendimento, que aumenta o volume de água utilizável para a agricultura, abastecimento público e indústria, a Zero afirmou que este acréscimo de “extrações na albufeira de Alqueva” vem acabar “com a garantia de três anos de fornecimento a todos os consumos”.

A associação lembrou, também, que as dependências hídricas do EFMA “têm vindo a aumentar nos últimos anos” devido à “decisão de manter a cedência de água para fora dos perímetros de rega oficial para culturas permanentes”, à “expansão da área regada para uma segunda fase com mais 35.000 hectares (ha)” e à “extensão do sistema de distribuição para outros aproveitamentos hidroagrícolas não previstos”.

A Zero criticou “o sobredimensionamento das áreas a regar diretamente” e as “pretensões de esticar o sistema com mais um transvase, desta vez para a bacia hidrográfica do Mira, e as suas necessidades acrescidas de fornecimento de caudais para as duas captações no Baixo Guadiana”.

A Zero apelou ao Governo que realize uma pós-avaliação, de forma multidisciplinar, do EFMA para aferir “todos os impactes, sendo que a mesma deve informar previamente e de forma rigorosa qualquer decisão de aumento das disponibilidades hídricas para a agricultura baseada na expansão ou na construção de novos aproveitamentos hidráulicos, como os que estão previstos na estratégia ‘Água que Une'”.

A Zero reclamou, ainda, o cumprimento dos desígnios da Diretiva Quadro da Água, em matéria de gestão das bacias hidrográficas, do regime económico e financeiro para os recursos hídricos e as obrigações em atingir o bom estado de todas as massas de água, tal como a atualização e alargamento da constituição do Conselho para o Acompanhamento do Regadio de Alqueva.

A Zero afirmou que o EFMA é um regadio público, mas que “95% da água captada é para a atividade económica de privados, de forma crescente para o agronegócio, focado na exportação de mercadorias com baixa criação de valor para o país e sem qualquer preocupação com o autoaprovisionamento”.

“Com 80% da área regada do EMFA ocupada pela monocultura do olival e quando cerca do dobro das nossas necessidades estão satisfeitas em relação ao azeite, importa referir que esta cultura continua a ocupar alguns dos poucos solos capazes para a produção de cereais”, criticou.

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