Em 2022, os países das Nações Unidas concordaram em reduzir para pelo menos metade o risco de pesticidas para a biodiversidade até ao final da década. Contudo, um novo estudo mostra que o aumento da toxicidade dos pesticidas pode fazer resvalar essa intenção.
Um grupo de investigadores da Universidade Kaiserslautern-Landau, na Alemanha, analisou dados sobre o uso de pesticidas em todo o mundo e relacionou a quantidade de cada agente ativo usado com a sua toxicidade. Ao calcularem a toxicidade dos pesticidas usados anualmente na agricultura dos países, a equipa criou um método para estimar o impacto global potencial dos pesticidas agrícolas na biodiversidade.
“Isto dá-nos uma perspetiva completamente nova sobre os potenciais riscos para o ambiente e a biodiversidade representados pelo uso de pesticidas”, explica Ralf Schulz, principal coautor do estudo publicado na revista ‘Science’.
Os investigadores analisaram o uso de 625 pesticidas entre 2013 e 2019 em todo o mundo e concluíram que, durante o período em estudo, esses produtos tornaram-se “significativamente” mais tóxicos.
“Isso deve-se, em parte, ao aumento da quantidade de pesticidas aplicada, uma vez que a área de terra arável está a expandir-se ou a terra existente está a ser cultivada mais intensivamente, mas também devido ao aumento da toxicidade das substâncias aplicadas, especialmente inseticidas”, explica Schulz.
Os aumentos de toxicidade, dizem os investigadores, afetam especialmente insetos terrestres, organismos do solo e peixes. No entanto, foram registados riscos mais elevados também para invertebrados aquáticos, insetos polinizadores e plantas terrestres. Somente para as plantas aquáticas e vertebrados terrestres encontrou-se uma redução da toxicidade.
Todos os grupos de pesticidas – herbicidas, inseticidas e fungicidas – contribuíram para o aumento geral da toxicidade desse tipo de produtos, avançam os cientistas, que identificaram cerca de 20 ingredientes ativos nos pesticidas que têm um impacto significativo em diferentes grupos de animais e de plantas.
Por isso, sugerem que esses ingredientes sejam substituídos por outros menos tóxicos para ser possível uma melhor proteção da biodiversidade.
O Brasil, a China, os Estados Unidos da América e a Índia foram os países que mais contribuíram para a tendência global de aumento da toxicidade dos pesticidas entre 2013 e 2019. Mesmo para os país que menos contribuíram para esse aumento, os investigadores dizem que a expansão e intensificação da agricultura em todo o mundo pode agravar ainda mais os impactos dos pesticidas na biodiversidade e deitar por terra o objetivo no Acordo Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal.
Cerca de 80% dos pesticidas usados a nível global nesse período foram aplicados em culturas de frutas e vegetais, milho, soja, cereais e arroz.
Os autores deste estudo dizem que, embora os dados do trabalho tenham parado em 2019, tudo indica que o aumento da poluição por pesticidas tenha continuado a subir e que continue a aumentar nos dias de hoje.
Sem ação imediata, o Chile será o único país do mundo a conseguir alcançar a meta de 2030 com a qual se comprometeram os Estados signatários do Acordo de Kunming-Montreal. Embora pareça cada vez mais distante, talvez seja ainda possível chegar a essa meta, mas para isso é preciso que, além da substituição por ingredientes ativos menos tóxicos, mais áreas agrícolas convencionais sejam convertidas em produção biológica, “o que teria ainda mais efeitos positivos na proteção da biodiversidade global”, aponta Jakob Wolfram, primeiro autor do artigo.









