O tráfico de vida selvagem, avaliado em cerca de 20 mil milhões de dólares anuais a nível mundial, poderá passar a enfrentar um novo obstáculo tecnológico. Um estudo conduzido por investigadores da Universidade de Adelaide demonstra que a combinação de cães farejadores com um simples dispositivo portátil de recolha de ar permite detetar produtos ilegais escondidos em contentores marítimos selados com uma taxa de precisão próxima dos 98%.
A investigação, publicada na revista científica Conservation Biology, conclui que o ar extraído do interior de contentores pode ser analisado por cães treinados, possibilitando às autoridades identificar cargas suspeitas sem necessidade de abrir os contentores ou perturbar as operações portuárias.
Método não invasivo
O projeto, desenvolvido ao longo de quatro anos no âmbito de um doutoramento e em colaboração com a transportadora marítima CMA CGM — a terceira maior do mundo —, constitui uma prova de conceito que poderá agora ser testada em ambiente operacional.
De acordo com a investigadora principal, Georgia Moloney, da Escola de Ciências Animais e Veterinárias da Universidade de Adelaide, os contentores marítimos representam um ponto vulnerável no controlo do tráfico ilegal.
“Os contentores são ideais para os traficantes porque podem ser selados e misturam-se facilmente com o elevado volume de mercadorias que circula nos portos. O nosso estudo mostra que é possível fazer uma triagem não invasiva, recolhendo o ar do interior e permitindo que os cães façam aquilo que sabem fazer melhor”, afirma.
Os investigadores desenvolveram um dispositivo portátil que se adapta às aberturas de ventilação padrão dos contentores e aspira o ar para um filtro. Esse filtro é depois apresentado a um cão treinado, que indica a presença — ou não — de odores associados a produtos de vida selvagem ilegais.
Testes com peles de grandes felinos
Para avaliar a eficácia do método, a equipa escondeu peles de cinco espécies de grandes felinos — leão-africano, tigre, leopardo, leopardo-das-neves e chita — em contentores de 20 e 40 pés. As peles foram acondicionadas de forma a simular condições reais de contrabando, incluindo a ocultação em caixas de cartão.
O cão de deteção analisou amostras de ar recolhidas em diferentes configurações de ventilação e disposição interna dos contentores. Segundo os resultados, conseguiu identificar a presença das peles com um grau de exatidão muito elevado, mesmo quando estas estavam bem dissimuladas.
“A deteção manteve-se consistente independentemente da dimensão do contentor, do método de circulação de ar ou do nível de ocultação”, explica Moloney, sublinhando a capacidade olfativa excecional dos cães treinados.
Mais contentores rastreados, menos perturbação
Atualmente, cães farejadores são amplamente utilizados por autoridades aduaneiras e de fronteira em todo o mundo. No entanto, a inspeção de contentores selados em larga escala tem sido limitada por constrangimentos logísticos e de segurança, já que muitos estão empilhados ou localizados em áreas pouco adequadas ao trabalho dos animais.
Com esta abordagem, “é o odor que vai até ao cão, e não o cão até ao contentor”, destacam os investigadores. Tal permitirá rastrear um número muito superior de cargas em ambiente controlado, sem necessidade de abrir mercadorias ou interromper a atividade portuária.
Embora o estudo tenha sido realizado em condições controladas, a equipa considera que os resultados oferecem uma base sólida para testes em portos com elevado risco de tráfico. Está igualmente prevista a expansão do método a outros produtos de vida selvagem e até a outras formas de contrabando, como o tráfico de estupefacientes.









