Centro de Estudos Matemáticos alerta para os riscos de limitar a investigação científica a projetos que geram lucro imediato

O Centro de Estudos Matemáticos (CEMS) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa lança um apelo ao Governo e à nova Agência de Investigação e Inovação (AI2) para que mantenham os apoios e os programas de desenvolvimento da denominada ciência fundamental.

Redação

O Centro de Estudos Matemáticos (CEMS) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa lança um apelo ao Governo e à nova Agência de Investigação e Inovação (AI2) para que mantenham os apoios e os programas de desenvolvimento da denominada ciência fundamental, foi divulgado em comunicado.

Segundo o CEMS, a integração da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) na AI2pode levar ao esvaziamento das políticas de investigação de âmbito mais teórico, que não são guiadas exclusivamente por propósitos comerciais ou demoram a produzir impacto na sociedade. A tomada de posição do CEMS surge no seguimento de um comunicado conjunto que foi tornado público, durante esta semana pelo Centro Internacional de Matemática (CIM), pela Comissão Nacional de Matemática (CNM), pela Sociedade Portuguesa de Estatística (SPE), e pela Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM).

“O CEMS está alinhado com o comunicado destas quatro entidades no que diz respeito aos alertas sobre a necessidade de preservar a ciência fundamental, e também quanto à importância que a matemática tem como área estruturante para as outras ciências”, sublinha Carlos Florentino, coordenador do CEMS e professor do Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (CIÊNCIAS).

Com esta tomada de posição, o CEMS reitera estar em consonância com as preocupações manifestadas pelo comunicado conjunto das quatro entidades acima referidas. Este comunicado expressa o receio de que a nova AI2, que vai agregar a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e a Agência Nacional de Inovação (ANI), represente um desinvestimento na ciência fundamental que poderá limitar “o contributo de Portugal para os grandes desafios globais”.

Fundada em 1997, a FCT assumiu-se como a principal entidade pública de financiamento de projetos e programas ligados à ciência fundamental em Portugal. Em contrapartida, a ANI, que era tutelada tanto pelo ministério com a pasta da ciência como pelo ministério da economia, distinguia-se pelas parcerias entre entidades científicas e empresas privadas e o desenvolvimento de novos produtos e serviços. Por sua vez, a AI2, que vai agregar FCT e ANI, deverá ter tutela partilhada entre o ministério da Economia e o ministério com a pasta da Ciência.

Carlos Florentino receia que a junção de FCT e ANI na nova AI2 possa levar ao sacrifício de políticas de apoio à ciência fundamental. O que poderia revelar-se uma ameaça para “a liberdade de escolha dos temas de investigação”. “Se a escolha dos temas de investigação passar a incidir exclusivamente em projetos que deem lucro dentro de dois ou três anos, possivelmente, os investigadores deixarão de poder dedicar-se aos temas teóricos que fazem parte da ciência fundamental, ou aos temas que têm marcado as linhas de investigação mais ativas a nível internacional”, lembra o coordenador do CEMS, que é também professor do Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (CIÊNCIAS).

O coordenador do CEMS recorda que foi devido ao esforço levado a cabo, há mais de 20 anos, na área da ciência fundamental que a Inteligência Artificial (IA) alcançou o atual nível de sofisticação. “Se há 20 anos tivessem sido exigidas patentes ou lucros em dois ou três anos, se calhar, não teríamos a IA como a conhecemos hoje”.

Carlos Florentino recorda que FCT e ANI tinham missões diferentes, e defende que essa separação de atividades tem de se manter dentro da nova AI2 . “O facto de a AI2 passar a ser tutelada pelos ministérios da economia e da ciência leva-nos a supor que há o objetivo de privilegiar apenas a ciência aplicada em detrimento da ciência fundamental”, alerta.

O responsável do CEMS admite que um eventual esvaziamento na ciência fundamental também produz efeitos negativos nos cursos de doutoramento e mestrado. “A formação avançada não pode chegar ao ponto de negar ao aluno a possibilidade de seguir uma determinada linha de investigação só porque não gera negócio ou lucros imediatos”, conclui o professor de CIÊNCIAS.

 

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