O interesse humano por cristais poderá ter origens muito mais antigas do que se pensava — e pode até ser partilhado com outros primatas. Um novo estudo indica que os chimpanzés demonstram uma clara preferência por cristais, sobretudo devido à sua forma geométrica e transparência, características que também podem ter despertado a curiosidade dos primeiros antepassados humanos.
A investigação, publicada na revista científica Frontiers in Psychology, foi conduzida por uma equipa de cientistas em Espanha e procurou compreender por que razão os hominídeos começaram a recolher cristais há centenas de milhares de anos, mesmo sem lhes dar uma utilização prática aparente.
Cristais encontrados junto de vestígios humanos antigos
Vestígios arqueológicos mostram que os antepassados do ser humano recolhiam cristais há pelo menos 780 mil anos. Estes objetos aparecem frequentemente associados a restos de hominídeos em escavações arqueológicas, mas não existem evidências de que fossem usados como ferramentas, armas ou adornos.
Essa aparente ausência de função levou os investigadores a questionar o que poderia tornar estes minerais tão atrativos.
Experiências com chimpanzés
Para explorar essa questão, a equipa realizou várias experiências com chimpanzés, um dos primatas geneticamente mais próximos do ser humano.
Num primeiro teste, foi colocado um grande cristal ao lado de uma pedra comum de tamanho semelhante dentro do recinto dos animais. Inicialmente ambos os objetos despertaram curiosidade, mas pouco depois os chimpanzés passaram a concentrar-se quase exclusivamente no cristal.
Os animais examinaram o objeto atentamente, rodando-o e inclinando-o para observar diferentes ângulos. Num dos casos, um chimpanzé chegou mesmo a transportar o cristal para outra zona do recinto.
Capacidade para distinguir cristais
Num segundo ensaio, os investigadores colocaram um conjunto de pequenas pedras arredondadas misturadas com cristais de quartzo. Os chimpanzés conseguiram distinguir rapidamente os cristais das pedras comuns, selecionando-os em poucos segundos.
Quando foram introduzidos cristais de outros minerais, como pirite e calcite, os animais continuaram a identificá-los com facilidade. Em vários momentos, os chimpanzés foram observados a segurar os cristais ao nível dos olhos para olhar através deles, aparentemente intrigados com a transparência.
Em alguns casos, os animais transportaram os cristais na boca, um comportamento pouco habitual, que os investigadores interpretam como um possível sinal de que consideravam os objetos valiosos ou interessantes.
Transparência e forma podem explicar fascínio humano
De acordo com os cientistas, duas características parecem explicar o interesse demonstrado: a transparência e a geometria dos cristais.
Na natureza, a maioria dos elementos — como árvores, montanhas ou rios — apresenta formas curvas ou irregulares. Já os cristais distinguem-se por terem superfícies planas e formas geométricas bem definidas, algo raro no ambiente natural.
Estas propriedades poderão ter captado a atenção dos primeiros humanos, tal como acontece com os chimpanzés estudados.
Um possível traço evolutivo antigo
Os investigadores sublinham que humanos e chimpanzés divergiram evolutivamente há cerca de seis a sete milhões de anos, o que significa que partilham muitas características comportamentais.
A atração por objetos com determinadas propriedades visuais poderá, por isso, ter raízes evolutivas profundas e estar ligada à forma como os primatas interpretam padrões no ambiente que os rodeia.
Os autores defendem que futuras investigações deverão incluir chimpanzés selvagens, para perceber se o mesmo comportamento se observa fora de ambientes onde os animais estão habituados à presença humana.
Segundo os investigadores, compreender esta curiosidade pode ajudar a explicar as origens evolutivas do sentido estético humano e da forma como interpretamos o mundo natural.









