Cientistas reconstroem crânio de ‘crocodilo ancestral’ com mais de 300 milhões de anos

Chama-se Crassigyrinus scoticus e terá tido uma forma semelhante à dos crocodilos modernos. Embora os fósseis tenham sido descobertos há quase um século, só agora a tecnologia permitiu criar um imagem mais clara e precisa do crânio deste réptil que dominou os pântanos da América do Norte e da Escócia.

Filipe Pimentel Rações

Há quase um século que os paleontólogos têm tentado perceber a criatura cujos fragmentos craniais foram encontrados na Escócia. No entanto, devido ao mau estado de conservação desses vestígios, tinha sido impossível reconstruir o crânio e obter uma imagem mais nítida de um predador anfíbio que terá vivido há mais de 300 milhões de anos (período Carbonífero) na Escócia e no Canadá.

Contudo, o avanço tecnológico permitiu superar essa barreira. Com recurso a tomografia computorizada e tecnologia de imagens 3D, cientistas de centros de investigação no Reino Unido conseguiram, por fim, dar uma ‘cara’ a esse réptil quadrúpede, de nome Crassigyrinus scoticus, que se pensa ser um parente próximo dos primeiros animais que, deixando para trás o mar, colonizaram a terra, andando sobre ela.

Laura Porro, da University College London e primeira autora do artigo publicado hoje na revista ‘Journal of Vertebrate Paleontology’, explica que o crânio do C. scoticus assemelha-se, em forma, ao do crocodilo moderno, “com grandes dentes e poderosas maxilas que lhe permitiam comer praticamente tudo o que se atravessasse no seu caminho”.

Tomografia computorizada dos fragmentos craniais de Crassigyrinus scoticus.
Foto: Porro et al. (Artigo)

Apesar da proximidade aos primeiros animais que andaram sobre a terra, o C. scoticus, dizem os cientistas, era sobretudo um animal aquático. Contudo, não se sabe se terá sido porque os seus antecessores, depois de irem para terra, voltaram para o meio aquático, ou se nunca fizeram realmente essa transição.

Ao reunirem os fragmentos craniais desse predador reptiliano, os investigadores ficaram com um crânio achatado, tal como o do crocodilo, e dizem que os outros ossos encontrados suportam essa forma, uma vez que os vestígios paleontológicos sugerem que se tratava de um animal com um corpo também achatado e com membros curtos.

Reconstrução digital do crânio do Crassigyrinus scoticus, através de tomografia computorizada e de tecnologia de imagem 3D.
Foto: Porro et al. ( Artigo)

Laura Porro diz que o C. scoticus, cujo nome do género (Crassigyrinus) literalmente significa ‘girino grosso’, não terá tido uma aparência especial aterradora, mas terá sido um predador nato.

“Em vida, o Crassigyrinus terá tido entre dois e três metros de comprimento, o que era bastante grande para a altura”, explica a investigadora, acrescentando que provavelmente terá tido um comportamento semelhante aos crocodilos que hoje conhecemos, caçando por emboscada, aguardando, muito quieto, sob a superfície da água até que uma presa incauta se aproximasse, altura em que abriria a sua grande boca para apanhá-la.

Além disso, este animal terá tido olhos grandes para ver nas águas turvas dos pântanos e órgãos sensoriais, localizados ao longo do dorso, para detetar vibrações produzidas por outras criaturas.

Agora, os cientistas, com um crânio formado em mãos, procurarão compreender que outros órgãos sensoriais teria o C. scoticus que lhe permitissem caçar, percebendo, assim, como vivia este predador anfíbio de um passado distante, revelando os seus mistérios através da tecnologia mais avançada.

Partilhe este artigo


Nova Edição

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.