Comércio global de vida selvagem ameaça a biodiversidade

Um novo estudo veio expor a dimensão do comércio mundial de vida selvagem — vasto, pouco monitorizado e cada vez mais preocupante — que representa uma séria ameaça à biodiversidade e à biosegurança globais.

Redação

Um novo estudo veio expor a dimensão do comércio mundial de vida selvagem — vasto, pouco monitorizado e cada vez mais preocupante — que representa uma séria ameaça à biodiversidade e à biosegurança globais.

Ao contrário do que se pensa, o comércio legal de animais selvagens tem um valor dez vezes superior ao do comércio ilegal, movimentando cerca de 360 mil milhões de dólares por ano, segundo a investigação publicada na revista Current Biology e liderada pela professora Alice Hughes, da Universidade de Melbourne.

O estudo analisou duas décadas de dados sobre as redes globais de comércio de vida selvagem com destino aos Estados Unidos, examinando a origem das espécies, as quantidades envolvidas e os principais percursos comerciais.

“Os resultados mostram que uma parte significativa das espécies continua a ser retirada diretamente da natureza. É alarmante verificar que, além das capturas em larga escala, existem graves problemas de falta de transparência, dados incorretos e até casos de branqueamento e tráfico explícito”, afirma a professora Hughes, da Escola de Biociências da Universidade de Melbourne.

A investigadora estima que mais de 70 mil espécies animais possam estar atualmente envolvidas no comércio internacional, embora o número exato seja impossível de confirmar devido à escassez de registos fiáveis.

“A verdade é que os dados sobre o comércio de vida selvagem são extremamente difíceis de obter e cheios de discrepâncias. Isso significa que o impacto real deste comércio nas populações selvagens continua, em grande parte, desconhecido”, acrescenta.

Segundo Hughes, compreender que espécies estão a ser comercializadas, em que quantidades e de onde provêm é essencial para avaliar se o comércio é sustentável e para concentrar esforços na proteção das espécies mais ameaçadas.

Num estudo anterior, a mesma equipa já havia identificado mais de 21 mil espécies animais comercializadas apenas nos Estados Unidos desde o ano 2000. As regiões tropicais revelaram-se as principais exportadoras, fornecendo uma grande diversidade de espécies raras, muito procurados pelos colecionadores. Em vários casos, as espécies entram no mercado no mesmo ano em que são formalmente descritas pela ciência.

O comércio de animais selvagens acarreta também riscos sérios de biosegurança, incluindo a introdução de pragas, agentes patogénicos e espécies potencialmente invasoras.

“Um exemplo claro é o comércio internacional de rãs Xenopus, que terá sido responsável pela disseminação do fungo Chytrid, uma doença mortal associada à extinção de várias espécies de anfíbios — pelo menos sete delas na Austrália”, explica a investigadora.

Hughes defende uma monitorização mais rigorosa e colaborativa do comércio de fauna selvagem, envolvendo cientistas, autoridades governamentais, empresas e consumidores.

“Sem dados precisos que nos digam que espécies estão a ser comercializadas e se esse comércio é sustentável, corremos o risco de conduzir muitas delas à extinção — diante dos nossos olhos”, alerta.

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