COP30: Longe dos holofotes, longe da mente nacional

O cheiro a floresta queimada tornou-se tão inconfundivelmente português como o pastel de nata. Ano após ano, a inércia das nossas autoridades tinge o céu de laranja, à medida que as nossas colinas são devoradas pelas chamas. Mas enquanto as florestas continuam a arder, há outro fumo bem mais perigoso que se eleva – o da indiferença – e não me refiro apenas à apatia do governo perante este assunto. Deixem o Luís trabalhar no seu bronzeado, daqui a três meses ele terá de ir ao Brasil.

Redação

Por Filipe Ferreira, investigador na Meliore Foundation e na Zero Carbon Analytics

O cheiro a floresta queimada tornou-se tão inconfundivelmente português como o pastel de nata. Ano após ano, a inércia das nossas autoridades tinge o céu de laranja, à medida que as nossas colinas são devoradas pelas chamas. Mas enquanto as florestas continuam a arder, há outro fumo bem mais perigoso que se eleva – o da indiferença – e não me refiro apenas à apatia do governo perante este assunto. Deixem o Luís trabalhar no seu bronzeado, daqui a três meses ele terá de ir ao Brasil.

Brasil? Se não faz ideia do que estou a falar, então provavelmente já inalou a fumaça de indiferença a que me refiro: Pela primeira vez, um país de língua portuguesa será o anfitrião da Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, a COP30. Em novembro deste ano, Belém, no coração da Amazônia, irá comandar a atenção do mundo sobre a crise climática. É um momento histórico para a Lusofonia – uma oportunidade de se unirem através de uma língua, cultura e história comuns, e de se afirmarem como líderes na luta contra as alterações climáticas. No entanto, em Portugal, a conferência passa quase despercebida – não só por um governo cujo líder parece mais empenhado a ir a banhos do que mostrar a cara, mas também por uma comunicação social que mal a menciona numa nota de rodapé.

Os jornais e a televisão nacionais parecem estar, em grande parte, a fazer vista grossa à COP30. Uma rápida pesquisa nos principais órgãos de comunicação social portugueses devolve apenas um punhado de resultados. Recentemente, um dos periódicos de maior referência nacional lançou uma seção dedicada exclusivamente a notícias do Brasil, direcionada para a comunidade desse país que vive ou planeia vir para cá viver, mas surpreendentemente, a COP, um dos maiores eventos internacionais já realizados em solo brasileiro, não parece ser digno de notícia.

Este ano, a COP assume um peso histórico que não pode ser ignorado. Pela primeira vez, espera-se que muitos países renovem e reforcem as suas Contribuições Nacionalmente Determinadas ao abrigo do Acordo de Paris – compromissos que irão traçar novos caminhos de cada nação rumo à mitigação das alterações climáticas, podendo representar a nossa última esperança de manter viva a meta de limitar o aquecimento global a 1,5 °C. Espera-se igualmente uma elevada participação dos povos indígenas, conferindo às suas vozes uma plataforma vital na definição da ação climática global.

Mas a verdade é que Belém enfrenta graves problemas de infraestrutura e logística: esgotos a céu aberto, elevada criminalidade e falta de alojamento adequado. Não é, de forma alguma, o cenário mais desejável para receber uma conferência de tal magnitude e certamente não rende manchetes bonitas, mas é a realidade e essa exige sempre atenção.

A comunicação social tem o dever de levar essa realidade ao público, colocar holofotes sobre a COP e provocar discussões. O seu trabalho é transformar o cenário denso, técnico e complexo da conferência numa narrativa acessível que permita às pessoas compreendê-la, interessar-se, agir ou até sugerir alternativas. E, quando a conferência ocorre numa «nação irmã», essa responsabilidade torna-se inevitável: passa a ser uma obrigação enquadrá-la como um desafio comum, e não como um evento distante.

Há quem possa dizer: “Mas Filipe, não estarás a transferir toda a responsabilidade para a comunicação social e a poupar o governo?” A presença do governo em Belém é um dado adquirido – embora, previsivelmente, venha a desiludir – é difícil nutrir grandes esperanças sobre uma liderança que trata devastadores incêndios como mero incómodo.

Cabe, contudo, à comunicação social fazer jus ao seu dever profissional: questionar, contextualizar, exigir responsabilidades. Noutros domínios, os órgãos de comunicação portugueses têm escrutinado este governo com rigor notável, para evidente desdém do primeiro-ministro. Perante a COP30, porém, parece ter-se instalado uma trégua silenciosa.

Este silêncio não é apenas um mero lapso de cobertura jornalística. Ao ignorar o mais significativo evento internacional sobre o clima, os nossos meios de comunicação estão a sinalizar que, como nação, ainda estamos dispostos a desviar o olhar – e, ao fazê-lo, estão a perpetuar um perigoso status quo.

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