Da terra com amor: como os micróbios influenciam o nosso corpo e a nossa mente

Especialistas estão a explorar evidências de que os micróbios no solo e nos ambientes ao nosso redor podem afetar a microbiota humana e o “eixo intestino-cérebro”, potencialmente moldando estados emocionais e dinâmicas de relacionamento — incluindo aspetos do amor romântico.

Redação

Especialistas da Universidade Flinders estão a explorar evidências de que os micróbios no solo e nos ambientes ao nosso redor podem afetar a microbiota humana e o “eixo intestino-cérebro”, potencialmente moldando estados emocionais e dinâmicas de relacionamento — incluindo aspetos do amor romântico.

Os investigadores de biologia da Faculdade de Ciência e Engenharia, Jake Robinson, Ondi Crino e o professor associado Martin Breed, juntamente com a neurocientista britânica Araceli Camargo, descrevem a ideia num artigo de revisão que propõe como o microbioma intestinal humano pode influenciar as vias hormonais envolvidas nas emoções comumente associadas ao amor.

“Não estamos a afirmar que os micróbios ‘causam’ o amor”, diz Robinson. “O nosso objetivo é mapear rotas biológicas plausíveis, baseadas na microbiologia e na endocrinologia, que os investigadores agora podem avaliar com estudos rigorosos em humanos”.

A mini-revisão, publicada numa revista da Sociedade Americana de Microbiologia, sintetiza evidências de que os micróbios podem modular hormonas e neurotransmissores importantes, como a dopamina, a serotonina e a oxitocina.

“Estamos a explorar como os fundamentos evolutivos das interações microbianas-endócrinas podem fornecer insights importantes sobre como os micróbios influenciam as emoções além do amor, incluindo o ódio e a agressão”, explicam.

“Se estas vias forem confirmadas, as descobertas poderão abrir caminhos para estratégias baseadas no microbioma para apoiar a saúde mental e o bem-estar relacional. Por enquanto, fornece um roteiro para uma ciência cuidadosa e baseada em hipóteses”, adiantam.

Como parte da sua investigação, Robinson e os seus colegas também estão a mapear a complexa rede de interações entre os sistemas biológicos, ambientais e sociais, com foco no papel potencialmente poderoso dos solos nesta rede.

“Além de emitir sinais químicos e microbianos importantes, solos saudáveis sustentam vegetação que melhora a qualidade do ar, amortece o ruído e modera a temperatura para criar ambientes imersivos que afetam o nosso sistema nervoso, endócrino e imunológico”, acrescenta o professor associado Breed.

“Por outro lado, a degradação do solo pode aumentar as partículas nocivas transportadas pelo ar e reduzir a riqueza do aerobioma, com possíveis efeitos a jusante na inflamação e no bem-estar mental”, sublinha.

Robinson, autor dos livros de ecologia natural Invisible Friends, Treewilding e o novo Nature of Pandemics (com lançamento previsto para outubro), está a lançar uma nova iniciativa nacional para aumentar a consciencialização sobre a necessidade da saúde do solo e mudar as perceções e o conhecimento das pessoas sobre os sistemas alimentares.

No próximo mês, apresentará um seminário online gratuito ao público na série “Soil Yourself September”, discutindo se ou como os solos influenciam as nossas mentes — “desde os alimentos que comemos e o ar que respiramos até às experiências multissensoriais que moldam e sustentam”

No seu último estudo, Robinson e o professor associado Breed participaram de uma investigação em que a biodiversidade do solo em áreas verdes urbanas foi medida em 13 cidades da China.

O estudo, recém-publicado na revista Nature Cities, descobriu que as cidades tendem a aumentar a biodiversidade local do solo, mas tornam os solos mais homogéneos entre as regiões, reduzindo a diversidade e a estabilidade em grande escala.

“De uma forma geral, o nosso grupo de investigação apela à colaboração intersetorial na restauração, planeamento urbano e saúde pública para projetar ambientes que não sejam apenas biodiversos, mas também biocompatíveis”, conclui Robinson.

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