As alterações climáticas e a gestão das redes continuam a desafiar os sistemas de abastecimento em Portugal. “A seca é hoje um dos riscos ambientais mais críticos para os sistemas de abastecimento: reduz a disponibilidade e aumenta a pressão sobre infraestruturas que não foram concebidas para cenários tão severos”, afirma Vera Eiró, presidente do Conselho de Administração da ERSAR, em entrevista à Green Savers, explicando que “a escassez afeta também a qualidade: com menos água disponível, pode aumentar a concentração de contaminantes, exigindo mais tratamento e elevando custos operacionais”. A responsável sublinha que “cada pessoa faz parte da solução”, lembrando que a participação cívica e a atenção ao consumo diário são essenciais para garantir água segura e sustentável.
Apesar dos desafios, a dirigente vê oportunidades claras de melhoria e resiliência. À medida que a eficiência e o planeamento das entidades gestoras se reforçam, “a resiliência do setor depende da nossa capacidade de planear, investir e manter o foco na qualidade do serviço”. Vera Eiró destaca ainda a importância da sensibilização dos cidadãos: “Vale a pena valorizar a água da torneira – segura, controlada e, em regra, mais sustentável – e adotar práticas simples de eficiência, como evitar desperdícios e acompanhar a informação dos serviços municipais”.
O Dia Mundial da Água é um momento de reflexão global. Quais considera serem hoje os principais desafios da gestão da água em Portugal?
Os desafios da água em Portugal enquadram-se numa realidade global que ultrapassa as nossas fronteiras, com pressão crescente sobre os recursos hídricos. Em Portugal, enfrentamos desafios estruturais: variabilidade climática, com secas mais frequentes e prolongadas e episódios de precipitação mais intensa, como o recente “comboio de tempestades”, envelhecimento de infraestruturas, perdas de água nas redes e necessidade de reforçar a resiliência dos sistemas urbanos.
Destaco dois grandes desafios em Portugal: melhorar a coordenação entre todos os stakeholders, públicos e privados, que utilizam a água, clarificando prioridades e regras de decisão para gerir, quando necessário, a escassez ou o excesso, e reforçar a resiliência dos sistemas urbanos de água
Apesar destes desafios, os dados mais recentes do setor, reunidos no Relatório Anual dos Serviços de Águas e Resíduos (RASARP 2025) da ERSAR, mostram progressos significativos nas últimas décadas que não deixam de estar associados a grandes questões estruturais relativas à concorrência de usos, eficiência, renovação de infraestruturas e sustentabilidade económica. Neste contexto, destaco dois grandes desafios em Portugal: melhorar a coordenação entre todos os stakeholders, públicos e privados, que utilizam a água, clarificando prioridades e regras de decisão para gerir, quando necessário, a escassez ou o excesso, e reforçar a resiliência dos sistemas urbanos de água.
Enquanto entidade reguladora, de que forma é que a ERSAR contribui para garantir o acesso universal à água de qualidade e ao saneamento?
A ERSAR tem um papel central na garantia do acesso universal a serviços de abastecimento de água e saneamento, assegurando que são prestados com segurança, fiabilidade e em conformidade com os requisitos legais e técnicos. Os resultados do RASARP evidenciam progressos que refletem também a ação regulatória contínua da ERSAR. Dando um exemplo, o indicador nacional de “água segura” manteve-se num patamar de excelência, próximo dos 99%. Este resultado assenta num sistema robusto de regulação e controlo, com mais de 600 mil análises laboratoriais por ano, reforçando a confiança dos consumidores. No acesso aos serviços, a cobertura física do abastecimento de água é de cerca de 97% da população e, no saneamento, ronda 90%. A adesão efetiva também tem aumentado, aproximando-se de 90% em ambos os serviços, meta atingida pela primeira vez em 2025.
A ERSAR acompanha continuamente o desempenho das entidades gestoras, monitorizando a qualidade do serviço, o cumprimento de obrigações legais e contratuais e a evolução dos indicadores de eficiência e sustentabilidade. Este trabalho ajuda a identificar assimetrias, orientar investimento e reforçar a proteção da saúde pública e do ambiente. A atividade inspetiva é igualmente determinante. A ERSAR realiza fiscalizações e campanhas laboratoriais autónomas e, quando necessário, instaura processos de contraordenação, contribuindo para corrigir incumprimentos e promover a melhoria contínua. Em suma, pela regulação técnica, económica e da qualidade do serviço, pela monitorização e pela promoção da transparência, a ERSAR contribui para que os cidadãos tenham água segura na torneira e saneamento fiável.
As perdas reais de água nas redes mantêm-se elevadas, embora haja uma ligeira redução face ao ano anterior, mostrando o potencial de melhoria na gestão das redes. Outro desafio é o estado das infraestruturas. A reabilitação de condutas de abastecimento é baixa, quando o desejável seria mais elevada; nos coletores de saneamento, é ainda menor
Persistem, contudo, fragilidades na eficiência. As perdas reais de água nas redes mantêm-se elevadas, embora haja uma ligeira redução face ao ano anterior, mostrando o potencial de melhoria na gestão das redes. Outro desafio é o estado das infraestruturas. A reabilitação de condutas de abastecimento é baixa, quando o desejável seria mais elevada; nos coletores de saneamento, é ainda menor. Este défice é mais visível nos sistemas em baixa, maioritariamente municipais, onde muitas redes já evidenciam envelhecimento. A ERSAR trabalha para que estes dados sejam fiáveis, conhecidos e usados como referência, ajudando as entidades gestoras a definir prioridades de investimento e metas de melhoria e a servir melhor os consumidores de hoje e de amanhã.
As alterações climáticas têm vindo a intensificar períodos de seca e de escassez hídrica. Que impacto têm estas mudanças na sustentabilidade dos sistemas de abastecimento?
As alterações climáticas estão a intensificar fenómenos extremos em toda a Europa. A seca é hoje um dos riscos ambientais mais críticos para os sistemas de abastecimento: reduz a disponibilidade e aumenta a pressão sobre infraestruturas que não foram concebidas para cenários tão severos. O relatório “Overheated and Underprepared: Europeans’ Experience of Living with Climate Change” (EEA, 2026) confirma que a seca e a escassez de água já afetam milhões de europeus. Para Portugal, a EEA destaca elevada exposição a riscos climáticos, com secas prolongadas, menor armazenamento em albufeiras e impactos económicos relevantes, aumentando a pressão sobre a segurança hídrica, incluindo para consumo humano.
Face à média europeia, Portugal destaca-se pela maior frequência e duração de períodos secos e pela vulnerabilidade de várias bacias hidrográficas, com impactos relevantes na agricultura e nos ecossistemas, que competem com os usos urbanos. A escassez afeta também a qualidade: com menos água disponível, pode aumentar a concentração de contaminantes, exigindo mais tratamento e elevando custos operacionais
Face à média europeia, Portugal destaca-se pela maior frequência e duração de períodos secos e pela vulnerabilidade de várias bacias hidrográficas, com impactos relevantes na agricultura e nos ecossistemas, que competem com os usos urbanos. A escassez afeta também a qualidade: com menos água disponível, pode aumentar a concentração de contaminantes, exigindo mais tratamento e elevando custos operacionais.

Que papel atribui à eficiência na gestão da água e à redução de perdas nas redes de abastecimento?
A eficiência é um pilar da sustentabilidade do setor. Reduzir perdas preserva o recurso num contexto de escassez, melhora a eficiência económica e reduz custos energéticos e ambientais. É também essencial para adaptar os serviços a cenários climáticos mais extremos, com maior fiabilidade, sem comprometer a qualidade da água.
A confiança dos cidadãos nos serviços de água é essencial. Como avalia a evolução da qualidade do serviço prestado em Portugal nos últimos anos?
A confiança na água da torneira tem vindo a consolidar-se, com indicadores como o de “água segura”, a adesão ao serviço em baixa e a utilização das infraestruturas de tratamento a mostrarem uma trajetória positiva. No entanto, apesar dos avanços, subsistem áreas com margem para melhoria
Portugal apresenta hoje padrões muito elevados de qualidade da água para consumo humano, fruto de décadas de investimento, maior profissionalização das entidades gestoras e exigência regulatória. A confiança na água da torneira tem vindo a consolidar-se, com indicadores como o de “água segura”, a adesão ao serviço em baixa e a utilização das infraestruturas de tratamento a mostrarem uma trajetória positiva. No entanto, apesar dos avanços, subsistem áreas com margem para melhoria, nomeadamente na adesão ao serviço, na reabilitação de infraestruturas envelhecidas e na redução de perdas, para garantir a sustentabilidade futura do serviço.
Que importância têm os dados, a monitorização e a transparência na regulação dos serviços de água e saneamento?
Os dados e o conhecimento são o núcleo da regulação económica moderna. O acesso a informação atualizada e fiável e a sistemas integrados de monitorização é decisivo para planear políticas eficazes e atuar onde persistem fragilidades, como a reabilitação de infraestruturas envelhecidas e a redução de perdas. Por outro lado, os dados resultantes da ação regulatória são igualmente fundamentais numa lógica de melhoria contínua por parte dos intervenientes do setor e, claro, numa ótica de transparência e de promoção da confiança junto dos utilizadores.
Os fenómenos climáticos extremos que temos vivido em Portugal reforçam a perceção de que a água é um recurso vital e escasso
Considera que os consumidores estão hoje mais conscientes do valor da água e da necessidade de um consumo responsável?
Sim. Os fenómenos climáticos extremos que temos vivido em Portugal reforçam a perceção de que a água é um recurso vital e escasso. Ainda assim, há margem para maior envolvimento e mudança de comportamentos, acompanhados por políticas públicas que reconheçam e sinalizem esse carácter vital e escasso da água.
Que mensagem gostaria de deixar aos municípios e às entidades gestoras neste Dia Mundial da Água?
A mensagem principal é de compromisso partilhado e de cooperação. Os desafios atuais exigem investimento contínuo, inovação e cooperação institucional. A resiliência do setor depende da nossa capacidade de planear, investir e manter o foco na qualidade do serviço.
E que apelo deixaria aos cidadãos portugueses sobre a forma como utilizam e valorizam a água no seu dia a dia?
Cada pessoa faz parte da solução. A água é um recurso precioso e finito: vale a pena valorizar a água da torneira — segura, controlada e, em regra, mais sustentável — e adotar práticas simples de eficiência, como evitar desperdícios e acompanhar a informação dos serviços municipais. Acrescentaria ainda a importância do envolvimento cívico: interessarmo-nos pelos serviços de água e saneamento e, através do voto, escolher decisores que os tratem com rigor técnico e sustentabilidade económica, no curto, médio e longo prazo.
Cada pessoa faz parte da solução. A água é um recurso precioso e finito: vale a pena valorizar a água da torneira — segura, controlada e, em regra, mais sustentável — e adotar práticas simples de eficiência, como evitar desperdícios e acompanhar a informação dos serviços municipais
Olhando para o futuro, quais são as prioridades estratégicas da ERSAR para garantir serviços de água mais resilientes, justos e sustentáveis?
Em 2026, a ERSAR tem como prioridade a transformação digital. Enquanto regulador, interagimos com centenas de entidades e recebemos e validamos centenas de milhares de dados. Um novo portal, com interação segura e em tempo real com entidades reguladas, trabalhadores da ERSAR, consumidores e demais stakeholders, será crítico para melhorar processos, qualidade do reporte e conhecimento do setor. Mantemos também prioridades constantes: proteger os recursos naturais que sustentam estes serviços, promover a sustentabilidade financeira das entidades gestoras e reforçar a proteção dos consumidores. Como se trata de serviços essenciais, em que os cidadãos não podem escolher o prestador, importa garantir qualidade e equidade no acesso em todo o Portugal Continental para todos.









