O projeto inovador europeu REDWine, em que a A4F Alga Fuel, empresa de biotecnologia do grupo português A4F Algae for Future, especializada no projeto e fornecimento de unidades de produção de algas à escala industrial, se posiciona como parceiro de referência, chegou ao seu termo com a demonstração plena da viabilidade técnica e económica de um modelo de negócio circular, que aumenta a sustentabilidade e a eficiência do setor vitivinícola.
Em entrevista à Green Savers, Luís Costa, administrador da A4F – Alga Fuel, revela que, durante o projeto, foram desenvolvidos dois produtos para a indústria alimentar: um “salmão” vegetariano e um pão brioche sem ovo, utilizando proteína extraída da biomassa da microalga Chlorella produzida na unidade demo, utilizando o CO2 capturado da fermentação do vinho.
O também membro da Comissão Executiva do grupo A4F – Algae for Future estima que que se possa alcançar uma redução de 31% nas emissões de gases de efeito de estufa, em toda a cadeia de valor do vinho, com a captura do CO2 biogénico da fermentação do vinho, que é realizada na unidade instalada na Adega Cooperativa de Palmela e explica que o impacto do projeto na mitigação dos efeitos das alterações climáticas no setor vitivinícola se reflete de de duas formas distintas
Como é que o projeto REDWine consegue transformar o gás libertado durante a fermentação do vinho em algo útil para a agricultura?
O gás, dióxido de carbono, libertado na fermentação do vinho é capturado e utilizado para cultivar uma microalga, a Chlorella. A biomassa produzida pode ser aplicada como bioestimulante na viticultura, fornecendo nutrientes essenciais para a vinha, uma alternativa sustentável aos fertilizantes químicos.
O gás, dióxido de carbono, libertado na fermentação do vinho é capturado e utilizado para cultivar uma microalga, a Chlorella. A biomassa produzida pode ser aplicada como bioestimulante na viticultura, fornecendo nutrientes essenciais para a vinha, uma alternativa sustentável aos fertilizantes químicos
De que forma é que a nova unidade piloto na Adega Cooperativa de Palmela ajuda a tornar a produção de vinho mais sustentável?
Estima-se que se possa alcançar uma redução de 31% nas emissões de gases de efeito de estufa, em toda a cadeia de valor do vinho, com a captura do CO2 biogénico da fermentação do vinho, que é realizada na unidade instalada na Adega. O CO2 capturado é valorizado na produção de biomassa de microalgas, posteriormente transformada em ingredientes para a indústria alimentar, cosmética e agrícola. Para além da captura do CO2, os efluentes líquidos do processo da Adega estão também a ser utilizados para a produção da biomassa. Existe, assim, na unidade, a transformação de resíduos da produção do vinho em novos produtos de valor, demonstrando um modelo de economia circular na vitivinicultura.
Estima-se que se possa alcançar uma redução de 31% nas emissões de gases de efeito de estufa, em toda a cadeia de valor do vinho, com a captura do CO2 biogénico da fermentação do vinho, que é realizada na unidade instalada na Adega. O CO2 capturado é valorizado na produção de biomassa de microalgas, posteriormente transformada em ingredientes para a indústria alimentar, cosmética e agrícola
Que papel têm as microalgas Chlorella neste processo e por que são importantes?
A Chlorella é uma microalga unicelular verde de água doce e que precisa de dióxido de carbono, água, nutrientes e luz para poder realizar a fotossíntese e multiplicar-se, produzindo biomassa. Neste projeto, a Chlorella utiliza o CO2 capturado da fermentação, e a água e nutrientes dos efluentes líquidos da adega, sendo a sua biomassa utilizada para produtos de valor acrescentado. A biomassa de Chlorella é rica em proteínas, vitaminas, minerais (ferro, magnésio, potássio) e clorofila, e tem propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Esta microalga já está bem estabelecida no mercado como um superalimento. Na indústria cosmética, atua no rejuvenescimento da pele, melhorando a produção de colagénio.
A biomassa de Chlorella é rica em proteínas, vitaminas, minerais (ferro, magnésio, potássio) e clorofila, e tem propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Esta microalga já está bem estabelecida no mercado como um superalimento. Na indústria cosmética, atua no rejuvenescimento da pele, melhorando a produção de colagénio
Como é que se consegue reduzir o consumo de água ao aproveitar os efluentes das cubas de fermentação?
Como mencionado anteriormente, a microalga Chlorella produz-se em meio aquático. Uma parte da água necessária ao cultivo pode ser substituída pelo efluente líquido da lavagem das cubas de fermentação. E este traz ainda nutrientes, como açúcares, que são aproveitados pela Chlorella como fonte de carbono, acelerando a produção de biomassa. Para além disso, os processos de colheita da biomassa podem incorporar a recuperação da água, que é recirculada de novo aos sistemas de cultivo, reduzindo em 90% o consumo de água do processo.
Que benefícios práticos traz para as adegas e para o ambiente este modelo de cultivo de microalgas?
O modelo implementado na Adega de Palmela permite às adegas reduzir as suas emissões diretas de gases com efeito de estufa e de efluentes líquidos, e cria uma nova fonte de receita com os produtos de valor acrescentado a partir da biomassa de microalgas. Para o ambiente, esta solução permite a redução de nutrientes nas águas residuais e a descarbonização da produção do vinho, diminuindo a pegada ambiental desta indústria.
O modelo implementado na Adega de Palmela permite às adegas reduzir as suas emissões diretas de gases com efeito de estufa e de efluentes líquidos, e cria uma nova fonte de receita com os produtos de valor acrescentado a partir da biomassa de microalgas
De que forma é que os resultados do projeto podem inspirar outras adegas a adotarem soluções semelhantes?
Se o modelo desenvolvido neste projeto na Adega de Palmela demonstrar que há um plano de negócio interessante, que valoriza resíduos do processo e os transforma em produtos com valor no mercado, outras adegas podem replicar o mesmo modelo.
Como é que este projeto ajuda os alunos e investigadores a aprenderem na prática sobre biotecnologia e produção sustentável?
O projeto REDWine foi desenvolvido por um consórcio de várias universidades, centros de investigação e empresas com áreas de I&D, e o trabalho envolveu alunos de mestrado e investigadores das várias entidades, que fizeram parte da inovação do projeto nas áreas da biotecnologia e da sustentabilidade. Durante o projeto, a unidade instalada em Palmela acolheu diversas atividades de formação a jovens investigadores na operação de fotobiorreatores e outros equipamentos de escala de demonstração, promovendo ambientes de ensino/aprendizagem com forte cariz prático, em contexto real, e aplicável nas indústrias biotecnológicas em Portugal e na Europa.

De que maneira é que o REDWine pode criar novas oportunidades de negócio, transformando CO2 em recurso para a indústria alimentar?
Durante o projeto foram desenvolvidos dois produtos para a indústria alimentar: um “salmão” vegetariano e um pão brioche sem ovo, utilizando proteína extraída da biomassa da microalga Chlorella produzida na unidade demo, utilizando o CO2 capturado da fermentação do vinho.
Durante o projeto foram desenvolvidos dois produtos para a indústria alimentar: um “salmão” vegetariano e um pão brioche sem ovo, utilizando proteína extraída da biomassa da microalga Chlorella produzida na unidade demo, utilizando o CO2 capturado da fermentação do vinho
Como explicam a importância deste projeto na mitigação dos efeitos das alterações climáticas no setor vitivinícola?
De duas formas distintas: em primeiro lugar, aumenta a resiliência hídrica do setor, ao acoplar a produção de microalgas com a produção de vinho, encorajando o reaproveitamento dos efluentes líquidos para uma segunda atividade produtiva (o cultivo de microalgas). E, em segundo lugar, porque, com a utilização de bioestimulantes obtidos a partir do cultivo da microalga Chlorella na viticultura, é possível conferir maior resistência ao escaldão da videira, problemática que ocorre de forma mais intensa pela seca e temperaturas elevadas que o setor experiencia já recorrentemente no verão, fruto das alterações climáticas.









