Mistério com dois séculos leva à descoberta de novas espécies de corais

Um estudo permitiu resolver um enigma científico com quase 200 anos e conduziu à identificação de uma nova espécie, um novo género e uma família inteiramente nova de corais moles.

Redação

Um estudo liderado por cientistas do Queensland Museum Tropics e da Universidade James Cook, na Austrália, em colaboração com investigadores internacionais, permitiu resolver um enigma científico com quase 200 anos e conduziu à identificação de uma nova espécie, um novo género e uma família inteiramente nova de corais moles.

A investigação, publicada na revista científica Invertebrate Systematics, veio reformular a classificação dos corais moles em toda a região do Indo-Pacífico, um grupo altamente diverso, mas historicamente pouco estudado quando comparado com os corais duros construtores de recifes.

Ao contrário dos corais duros, os corais moles não possuem um esqueleto rígido de carbonato de cálcio. Apesar de serem abundantes em recifes como a Grande Barreira de Coral, a sua diversidade e relações evolutivas têm sido, durante décadas, fonte de confusão científica.

O estudo revisitou o género Clavularia, descrito pela primeira vez em 1830. Para esclarecer a sua verdadeira posição na árvore da vida, os investigadores combinaram técnicas modernas de análise genética com um reexame minucioso de espécimes históricos de museu conservados na Europa e na Austrália.

Um dos aspetos mais relevantes do trabalho foi a análise dos chamados espécimes-tipo (holótipos) — os exemplares originais utilizados para descrever oficialmente cada espécie nos séculos XIX e XX, considerados a referência máxima para a classificação biológica.

Entre as principais descobertas está a descrição de uma nova espécie até agora desconhecida da ciência, Clavularia brunafolia, encontrada exclusivamente na Grande Barreira de Coral, sendo atualmente a única espécie deste género conhecida apenas nesta região.

A equipa identificou ainda um novo género e espécie no Japão, Bairdium iriomotejimaensis, bem como uma nova família de corais moles, Hicksoniidae, que inclui espécies encontradas na Austrália Ocidental e no Japão.

O investigador principal do estudo, Stefano Borghi, gestor de coleções do Queensland Museum Tropics e doutorando na Universidade James Cook, sublinha a importância do trabalho para a compreensão da biodiversidade marinha. “Durante quase dois séculos, o nome Clavularia foi usado sem se saber exatamente a que espécie original correspondia. Era um verdadeiro caso arquivado da ciência”, afirma.

“Ao localizar os espécimes originais em museus europeus e aplicar técnicas genéticas modernas a material preservado há mais de um século, conseguimos finalmente corrigir a árvore genealógica dos corais moles”, acrescenta.

Um dos maiores feitos técnicos do estudo foi a extração e sequenciação de ADN de um espécime recolhido na Indonésia em 1899, conservado há mais de 125 anos. Para Peter Cowman, cientista principal de biodiversidade marinha no Queensland Museum Tropics e coautor do estudo, este avanço representa uma mudança decisiva na investigação em taxonomia marinha.

“Obter informação genética de um espécime preservado desde a era vitoriana é extremamente raro”, explica. “Permite-nos confirmar com precisão o que os cientistas do século XIX observaram, ligando descobertas históricas à tecnologia do século XXI.”

Os autores consideram que os resultados demonstram que muitas espécies anteriormente tidas como amplamente distribuídas são, afinal, muito mais específicas e raras do que se pensava, revelando uma diversidade significativamente subestimada nos recifes tropicais.

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