Estão as empresas mesmo ao serviço da sociedade e do planeta?



As empresas não existem em vácuos. São parte de sociedades, estão enredadas em ecossistemas e integram o planeta, tal como qualquer outra organização humana. Saber o que as move, ou deve mover, numa Terra em radical transformação é fundamental para saber onde precisamos de mudar.

 

Sem as empresas, o desenvolvimento sustentável e, a uma escala mais ampliada, a proteção e prosperidade do planeta e da humanidade não será possível a longo-prazo. Essa é uma mensagem que transparece em várias estratégias, iniciativas e discursos pelo mundo fora, a começar pela Organização das Nações Unidas.

Na Agenda 2030 do Desenvolvimento Sustentável, o setor privado surge como um parceiro importante de governos e da sociedade civil, e parte central dos esforços para inaugurar uma nova era da existência humana na Terra. No texto desse instrumento estratégico global, os líderes e representantes dos Estados de todo o mundo, em setembro de 2015, apelavam a todas as empresas para aplicarem “as suas criatividade e inovação na resolução dos desafios do desenvolvimento sustentável”.

Num documento de 2018, editado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), que apresenta os indicadores para Portugal no âmbito dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), lê-se que “para atingir os objetivos de desenvolvimento sustentável torna-se fundamental mobilizar, flexibilizar e redirecionar recursos privados”. O mesmo trecho aponta que caberá ao setor público “a criação, revisão e manutenção de quadros de monitorização, regulamentos e regras, e estruturas de incentivos que possibilitem tais financiamentos, de modo a criar condições atrativas de investimentos e reforçar o desenvolvimento sustentável”.

Em suma, a participação das empresas e outras organizações privadas no desenvolvimento sustentável é indispensável, mas, para tal acontecer, é preciso incentivá-las a ocuparem esse lugar na dianteira do movimento em prol de um bem global. Posto isto, poderemos questionar-nos: as empresas existem para servir a sociedade e o planeta, como são agora encaradas por alguns, inclusivamente pelos seus próprios gestores, ou o seu principal propósito continua a ser a geração de lucro e o resto é colateral ou, em alguns casos, “conversa”?

Empresas, associações setoriais, especialistas e académicos parecem concordar, mais ou menos enfaticamente, que o mundo empresarial está a trilhar o caminho da sustentabilidade, orientado pelo reconhecimento de que é importante aliar os objetivos de negócio com uma participação ativa na promoção do bem-estar e prosperidade sociais (dentro e fora das organizações) e na redução dos impactos negativos sobre os ecossistemas. Alguns observadores dizem que esse caminho não só é importante como indispensável para a própria viabilidade dos negócios num planeta assolado por crises múltiplas e interligadas.

No entanto, apesar de toda a retórica, as empresas estarão realmente a ser o parceiro indispensável que é suposto serem? Num artigo publicado em junho de 2019 no portal online da Harvard Business Review, um trio de especialistas questionava se, no âmbito da Agenda 2030, “as empresas estão a apresentar soluções sérias ou estão simplesmente a embarcar numa massiva farsa de relações públicas de escala global”.

“Infelizmente, a nossa investigação interna aponta para a segunda hipótese”, lamentam, acrescentando que os compromissos para com a sociedade e o planeta assumidos publicamente por muitas empresas parecem ser “meramente cosméticos”. E lançam a pergunta: “Será que estas empresas esperam realmente que fazer o que sempre foi feito [o chamado ‘business as usual’] permitirá alcançar os resultados exigidos pelos ODS?”.

Lucro, pessoas e planeta: Quem é que as empresas devem servir?

Eleger as empresas como parceiros fundamentais da luta por um planeta mais saudável e por sociedades humanas mais prósperas e com níveis mais elevados de bem-estar é diferente de as empresas assumirem tal como desígnios próprios.

“As empresas visam o lucro. É da sua natureza e a razão por que são criadas”, conta-nos João Miguel Simão, Professor na Universidade Aberta e investigador nas áreas de Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social das Empresas.

“A sua atenção para temas sociais e ambientais surge a reboque de pressões institucionais (Estado) ou da sociedade, para que possa satisfazer um leque mais vasto de stakeholders numa lógica de contenção de riscos”, explica, detalhando que se as empresas não o fizerem “os danos reputacionais podem prejudicar a remuneração do capital investido”.

Fátima Jorge, Professora do Departamento de Gestão da Universidade de Évora, vê as empresas de uma ótica diferente. Para a académica, especializada em ética e responsabilidade social das organizações, o lucro já não é a principal razão de ser das empresas.

“As empresas, enquanto organizações, são sistemas sociais que interdependem do suprassistema ambiental onde atuam os vários stakeholders internos e externos, diretos e indiretos, cujas necessidades e expectativas têm de satisfazer, e até de forma pró-ativa”, explica a também investigadora do Centro de Investigação em Ciência Política (CICP), acrescentando que aquelas que têm uma “cultura organizacional ética e responsável”, orientada por valores como a inovação responsável, o impacto local, o crescimento sustentável e o bem-estar dos seus trabalhadores, “são exemplos que indiciam a construção de empresas com um ADN onde pode florescer uma estratégia de gestão ética e socialmente responsável”.

São essas empresas, sustenta Fátima Jorge, que “potenciam territórios com crescimento e desenvolvimento sustentáveis, nos pilares económicos, ambientais e sociais”, e que se tornam, no contexto de um planeta em crise, “agentes privilegiados de desenvolvimento humano nos territórios onde operam”. Há narrativas, amplamente disseminadas, que defendem que proteger o planeta e impulsionar o bem-estar das sociedades humanas é do total interesse das empresas.

Por exemplo, a investigadora Francesca Boyd, da Universidade de Exeter (Reino Unido), diz, num artigo publicado em 2024 no ‘The Conversation’, que “as empresas não sobreviverão num mundo sem natureza”, por estarem dependentes dos recursos que dela retiram para criarem os seus produtos e serviços.

Mais recentemente, no passado mês de janeiro, um relatório do Fórum Económico Mundial, do Instituto Potsdam de Investigação sobre os Impactos Climáticos (PIK) e da organização CDP previa um declínio de 18% da riqueza global até 2050 por causa do agravamento dos problemas ambientais (custos de eventos climáticos extremos, perda de produtividade laboral por causa de temperaturas elevadas, aumento de custos nas áreas da saúde e dos seguros).

“E considerando que mais de 60% do [Produto Interno Bruto] do mundo vem do setor privado (…), a ligação entre as atividades das empresas e como o ambiente a elas reage não poderia ser mais clara”, diz o Fórum Económico Mundial.

Ainda assim, a análise revelava que apenas 10% das empresas à escala mundial tinham já dado provas de estarem a agir de forma tangível para mitigar os seus impactos ambientais negativos e para fortalecerem o combate à crise climática.

A conclusão é que “as empresas estão a agir, só que não suficientemente rápido”, dizem os autores, e uma possível explicação para isso é que os efeitos dos problemas ambientais e das crises planetárias não afetam as economias de um dia para o outro. Dessa forma, o sentido de urgência, tantas vezes sublinhado pela Ciência, perde força quando chega às salas de decisão empresariais e às reuniões de conselhos de administração, especialmente porque os ciclos empresariais (que geralmente correm ao trimestre) e os ciclos naturais (de décadas, séculos ou mais) raramente, se alguma vez, estão alinhados uns com os outros. Contudo, apesar de terem na sua génese a produção de lucro, “as empresas não operam num vácuo”, diz-nos João Miguel Simão.

“Se as empresas internalizassem na sua atividade todas as externalidades ambientais, os preços ao consumidor seriam muito mais elevados para manterem o lucro requerido pelos acionistas”, explica, dando como exemplo que “se empresas dos setores da pecuária internalizassem os impactos ambientais da sua produção, o preço da carne seria tal que apenas um número muito restrito de pessoas poderia consumir o produto”.

Contudo, refere que “não é que fosse problema do ponto de vista da saúde pública, porque existem alternativas proteicas de origem vegetal”. Em contraponto, “se pensarmos no setor do petróleo, então aí teríamos um problema maior”.

Posto isto, João Miguel Simão considera que a pergunta que nos devemos colocar, quando exigimos que as empresas façam mais para atenuar os seus impactos nas sociedades e no planeta, é a seguinte: “está a sociedade disponível para consumir de modo diferente e em menor quantidade?”. A resposta, para já, não é clara, apesar de um movimento crescente de pessoas, empresas, organizações não-governamentais, cientistas e governos em prol da mudança.

Fazer lucro e salvar o planeta: uma encruzilhada complexa

“O capitalismo e a sustentabilidade estão em rota de colisão”, alertava, num artigo publicado em outubro de 2021 no portal online ‘SDG Action’, Daniel C. Esty, Professor de Direito e Políticas Ambientais da Universidade de Yale (Estados Unidos da América).

Nele, o especialista argumentava que a ultrapassagem dos limites biofísicos do planeta é um risco bastante real e que “essa realidade impõe a todos nós um imperativo de sustentabilidade”, exigindo às empresas novas formas de conduzirem os seus negócios.

No entanto, reconhece que viver aquém dos limites físicos, biológicos e ecológicos do planeta é mais fácil de dizer do que fazer. “Fundamentalmente, um futuro sustentável exige um sistema económico que promove a conservação dos recursos naturais e a proteção dos sistemas críticos da Terra, ao mesmo tempo que assegura oportunidades económicas para todos a longo-prazo”, escreve Esty.

O especialista salienta, contudo, que “a nossa atual economia de mercado produz enormes quantidades de poluição e resíduos” que provocam e agudizam problemas ambientais, como as alterações climáticas, e que, pelo menos teoricamente, “a sustentabilidade requer uma nova fundação do capitalismo que leve a sério o Princípio do Poluidor-Pagador” e proíba externalidades.

“A poluição não pode mais ser aceite como um subproduto necessário da produção industrial e justificada numa base de custo-benefício. Em casos em que a poluição é verdadeiramente inevitável, os danos causados sobre outros devem ser pagos na totalidade, tal como deve ser no caso da exploração de recursos naturais”, defende o académico de Yale.

Esty vai mais longe, dizendo que “a doutrina da primazia do acionista”, que aponta como sendo a missão de muitas empresas, combinada com outros fatores, como regras ambientais frágeis e a “propensão para subvalorizar os recursos naturais”, levou ao que descreve como “a generalização de práticas empresariais insustentáveis”.

“De forma simples, a nossa atual estrutura capitalista privilegia os lucros acima das necessidades humanas e da integridade ambiental”, sentencia, embora admita que começa a assistir-se a alguma mudança de mentalidades, com empresas a reconhecerem que “têm um dever não apenas para com os seus proprietários, mas também para com os seus clientes, fornecedores e trabalhadores, bem como para com as comunidades nas quais operam e a sociedade em geral”.

Esty não propõe a destruição do modelo capitalista, mas, ao invés, a sua reforma, dizendo que “as fundações da nossa economia de mercado devem ser reimaginadas e, depois, reconstruídas”.

Assim, percebe-se que, pelo menos na sua configuração atual, o modelo capitalista não parece ser compatível com a proteção do planeta e das sociedades que dele fazem parte. “Se é possível, ainda não foi demonstrado”, diz João Miguel Simão, da Universidade Aberta.

“Os mais otimistas dirão que sim e que se deve continuar a tentar a reforma. Os mais realistas lembrar-se-ão da canção do Sérgio Godinho ‘Pode alguém ser quem não é’”, salienta o académico português.

Ainda assim, recorda que este não é um problema exclusivo do capitalismo.

“O capitalismo é um problema, sim. Mas é apenas uma face de um problema mais vasto de produção e consumo que a humanidade ainda não resolveu”, explica, lembrando que “havia enormes problemas ambientais nos países da Europa de Leste até à queda do muro de Berlim”.

Fátima Jorge, da Universidade de Évora, recorda-nos que “o modus operandi empresarial está entranhado no modelo económico capitalista” e é aí que reside “o cerne do problema”.

A académica reconhece que “estamos no meio da segunda década do século XXI” e que “as estruturas empresariais tiveram tempo e conhecimento para se reinventar”, mas facto é que a essência do mundo empresarial global, de forma geral, continua assente no modelo capitalista e tem na produção de lucro a sua principal força motriz. Como tal, argumenta que “já é o tempo de compatibilizar a geração de valor, para todos os interessados, com o desenvolvimento humano e a proteção da natureza”.

Olhando para a cena na sua grande amplitude e complexidade, “o desafio que nos temos de colocar enquanto sociedade é: que tipo de organizações devemos criar para responder a um consumo adequado aos desafios planetários?”, lança João Miguel Simão.

Uma das possíveis respostas pode estar num modelo económico alternativo com um nome peculiar, inspirado num artigo de pastelaria característico dos Estados Unidos da América, país que, coincidentemente, é considerado um dos maiores expoentes do sistema capitalista.

Em 2012, num artigo publicado pela organização não-governamental Oxfam, a economista Kate Raworth apresentou uma nova forma de abordar o desenvolvimento económico e social, alinhando-o com os limites planetários. Batizou o modelo de “Economia Donut”, um conceito que desenvolveu mais aprofundadamente num livro publicado em 2017, lançado um ano depois em Portugal pela editora Temas e Debates, com o título “Economia Donut: Sete formas de pensar como um economista do século XXI”.

“Se o objetivo do século XXI é responder às necessidades de todas as pessoas tendo em conta os limites do planeta vivo (…), então como é que pode a humidade lá chegar? Não com o pensamento económico do século passado”, explica a autora.

A alegoria pasteleira deriva do facto de a representação visual do conceito desenvolvido por Raworth ter a forma de um donut. O modelo é composto por um círculo exterior, o “teto ecológico”, onde estão representados os limites planetários biofísicos que a humanidade não deve exceder se o que pretende é ser sustentável. Esses limites, cuja estrutura foi proposta em 2009 por uma equipa de cientistas encabeçada por Johan Rockström do PIK, são as alterações climáticas, a acidificação oceânica, a poluição química, a integridade da biosfera, o uso e disponibilidade de água doce, a destruição da camada estratosférica de ozono, as alterações ao uso do solo, os fluxos biogeoquímicos e a introdução de substâncias desconhecidas.

(Avisam os cientistas que seis desses limites já foram ultrapassados, e é muito provável que um sétimo seja excedido em breve.)

O anel interior é a “base social” ou “fundação social”, representando uma série de necessidades básicas humanas, como emprego, igualdade de género, equidade social, água, energia, alimento, saúde e educação. Abaixo desse limite, estão “várias dimensões de privação humana”.

Entre os dois círculos está o que Raworth chama de “o espaço seguro e justo para a humanidade”, caracterizado por uma “economia regenerativa e distributiva”.

Entre os principais preceitos da Economia Donut estão o fim da ilusão do crescimento eterno do PIB, o reconhecimento de que as economias são parte e dependem da sociedade e da Terra e o destaque da importância da promoção de um comportamento humano cooperativo e cuidador, ao invés de competitivo e individualista.

Em suma, o modelo da Economia Donut pretende um equilíbrio entre o consumo humano e os recursos naturais da Terra (por outras palavras, a sustentabilidade), e transformar as economias destrutivas atuais, predominantemente assentes na exploração dos recursos em detrimento do planeta e das sociedades, em economias regenerativas, sabendo que “o crescimento pode ser uma fase saudável da vida, mas nada cresce para sempre”.

Apesar da visibilidade pública que teve há cerca de uma década, a Economia Donut continua a ser um conceito alternativo e marginal, embora esteja a ser experimentado em alguns locais. De acordo com o website Doughnut Economics Action Lab, cerca de 40 cidades e regiões pelo mundo fora já começaram a explorar, de forma prática, ainda que experimental, o conceito.

No entanto, a Economia Donut não está isenta de críticos, com alguns a considerá-la demasiado utópica e desfasada da realidade e outros a argumentarem que é impraticável ou que as preocupações que procura endereçar não são novidade para o atual modelo económico global.

Seja qual for a opinião acerca do conceito de Raworth, facto é que, como dizem Mark Kramer, Rishi Agarwal e Aditi Srinivas, no texto que publicaram há seis anos na Harvard Business Review, “o ‘business as usual’ não salvará o planeta”.

Altruísmo, obrigação ou estratégia de negócio?

Muitas vezes se ouve empresas, associações setoriais e políticos queixarem-se do excesso de obrigações que recaem sobre as empresas, designadamente no campo do ambiente e da sustentabilidade.

Dizem prejudicar as empresas, exigindo padrões cada vez mais elevados de responsabilidade ambiental e social, face a empresas de outros quadrantes do planeta que não estão sujeitas aos mesmos critérios, mas que acabam por operar nos mesmos mercados. Essas últimas, avisam, acabam por prevalecer por conseguirem produtos e serviços mais baratos e, por isso, mais competitivos, em detrimento das empresas mais social e ambientalmente responsáveis, que, de alguma forma, têm de tentar compensar os custos acrescidos de uma maior responsabilidade para com o mundo.

Os progressos em matéria de sustentabilidade das empresas parecem fluir, sobretudo e salvo algumas exceções pontuais, de cima para baixo. Isto é, é tendencialmente pela “força” de leis e regulamentos que as empresas transformam as suas práticas e, no final de contas, reduzem os seus impactos negativos no planeta e nas sociedades humanas.

Aos que dizem que as legislações ambientais, e de sustentabilidade de forma mais geral, estão a pôr em risco a competitividade das empresas, e aos que defendem, e fazem lóbi político, para revertê-las, Fátima Jorge desafia a refletir sobre uma questão: “Em que nível de desenvolvimento estaríamos se não houvesse legislação de proteção ambiental, de saúde, higiene e segurança no trabalho, de proteção laboral e promoção do trabalho digno?”.

Em 2007, a docente da Universidade de Évora viajou até Angola numa missão de cooperação. No regresso a Lisboa, recorda ter sido acometida pelo mesmo pensamento: “O que seria de Portugal se não pertencêssemos à União Europeia e, por via da legislação europeia, se não tivéssemos sido obrigados a mudar as nossas leis, as nossas instituições, organizações e comportamentos relativamente à higiene urbana, à proteção ambiental, à segurança alimentar, à segurança rodoviária, à SHST [Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho] e muitas outras mudanças civilizacionais?”.

Ainda que admita que “muitas empresas e líderes empresarias são reativos”, Fátima Jorge diz também que “muitos projetos empresariais” estão já “alicerçados na sustentabilidade ambiental em toda a cadeia de valor”. E são esses, afirma, “que me inspiram a fazer acreditar que tenho a missão de educar e formar futuros líderes empresarias que proativamente promoverão projetos de empreendedorismo responsável e sustentável”.

Mas olhando para o presente, significa isso que as empresas, se não for “à força”, de cima para baixo, têm o lucro, e não a proteção ambiental e das sociedades, como prioridade cimeira?

“A coercividade é uma das ferramentas que os governantes e legisladores possuem para que se possa viver melhor em sociedade. Deve ser exercida sempre que necessário”, diz João Miguel Simão, salientando que “o altruísmo não faz parte da natureza das organizações empresariais”.

“As empresas podem agir altruisticamente e no âmbito da responsabilidade social como resposta, ou para precaver possíveis danos reputacionais. Mas apenas nesses casos”, sustenta o docente e investigador da Universidade Aberta.

Mas, sendo organizações feitas de pessoas e geridas por pessoas, poderá a transição ecológica nas empresas ser impulsionada pela mentalidade e valores de quem as comanda, ou será principalmente uma questão de negócios mais do que uma questão de “coração”?

“No geral, é uma questão de negócio”, diz-nos João Miguel Simão, pois “as empresas existem para fazer negócio e serem lucrativas”.

“Na melhor das hipóteses, ocorre um compromisso com a sustentabilidade na sequência de pressões institucionais (Estado) ou sociais para mitigar os riscos reputacionais junto dos consumidores e stakeholders. Na pior das hipóteses, não passa de estratégia comunicacional e greenwashing”, acrescenta.

Porém, também considera que é possível haver motivações de “coração”, especialmente no caso de empresas “criadas com o propósito da sustentabilidade”, embora admita que são “em número muito restrito”. Essas empresas, “geralmente a uma microescala”, subordinam o lucro “à função social ou ambiental que abraçam”.

“Nestes casos, são iniciativas de ‘coração’”, sublinha.

Fátima Jorge diz-nos também que é possível encontrar ambas as motivações, ainda que possam não ocorrer simultaneamente. Conta a docente universitária que “há, com certeza, diversas empresas que desenharam uma estratégia de transição ecológica, alinhada com os seus valores organizacionais”, da sustentabilidade social e ambiental à conservação dos ecossistemas, passando pela inovação responsável, a circularidade das operações e produtos, o desenvolvimento local e das comunidades.

Nestes casos, “os líderes destes projetos empresariais têm visões transformacionais, éticas, de comprometimento afetivo com os colaboradores internos e externos”. Fátima Jorge considera esses projetos “sementes inspiradoras pelo exemplo, que fazem florescer organizações empresariais sustentáveis, assentes na qualidade e autenticidade dos seus relacionamentos multi-stakeholders”.

O negócio da sustentabilidade

Regra geral, entende-se que arguir a defesa da transformação sustentável das empresas do ponto de vista do negócio é uma boa forma de motivar os seus gestores a fazerem as mudanças necessárias, e a suportarem potenciais custos e perdas daí advindas, para alinharem as suas atividades com a proteção do planeta e das sociedades humanas.

Por outras palavras, dizer e mostrar que a sustentabilidade é boa para o negócio é meio caminho andado para que as empresas trilhem, de boa vontade, esse caminho. Atendendo a essas narrativas, que são ouvidas a académicos, organizações empresariais e políticos, podemos pensar que se não fizer sentido do ponto de vista do negócio, a sustentabilidade é contrária aos objetivos das empresas. Será?

João Miguel Simão, da Universidade Aberta, diz que as empresas, enquanto organizações económicas, “não têm como função a sustentabilidade ambiental e social”. Nesse sentido, “no seio de uma democracia liberal, se queremos organizações alinhadas com a sustentabilidade temos de ‘inventar’ outro tipo de organizações”, pelo que, até isso acontecer, “a responsabilidade das empresas para com o ambiente e a sociedade só acontece se fizer sentido do ponto de vista do negócio”.

Neste tópico, Fátima Jorge, da Universidade de Évora, considera que esse é um argumento “muito unilateral e algo ultrapassado”. Para ela, “as empresas que definem estratégias de sustentabilidade não têm apenas como foco ‘vender mais’, aumentar as quotas de mercado, melhorar nos rankings, nos índices bolsistas”. Ao invés, conta-nos, pretendem “a criação de empresas que impactam o futuro dos negócios, com novos e renovados modelos de organização do trabalho”, em que, por exemplo, a adoção de modelos de trabalho híbrido “não tem por base a redução de custos fixos com as infraestruturas, mas a redução de deslocações dos colaboradores e a conciliação da vida pessoal, familiar e organizacional”.

Ainda embrenhadas nas teias do modelo capitalista, onde o lucro assume posição de destaque na lista de prioridades, as empresas podem ter um espaço limitado para a transformação sustentável, especialmente uma que tem como objetivo romper com os problemas e vícios que emanam do próprio sistema do qual são parte.

No entanto, cada vez mais exemplos surgem de empresas que estão a mudar a forma de estar no planeta, a reduzir os seus impactos nos ecossistemas e nas comunidades locais afetadas pelas suas operações. Por obrigação ou vocação altruísta, por “coração” ou coerção, a mudança, em maior ou menor grau, vai acontecendo, talvez não tão rapidamente como seria desejado e preciso, mas lá vai acontecendo.

O reposicionamento das empresas numa Terra assolada por múltiplas crises, a múltiplas escalas, poderá, como vimos, exigir a reflexão sobre o propósito dessas organizações, que não existem no vazio. Apesar de defensores e críticos de como as empresas funcionam – face ao mundo que as rodeia, em que estão inseridas e do qual dependem – terem visões distintas sobre até mesmo a sua própria natureza, será preciso pensar em que empresas queremos e se, de facto, a obtenção de lucro é realmente compatível com a proteção do planeta e das sociedades humanas. Até agora a realidade, e a História, deixam-nos com sérias dúvidas sobre se tal é possível, mas, com vontade e visão, de líderes empresariais, políticos, legisladores, consumidores e clientes, talvez seja possível criar algo novo, em linha com os ciclos naturais, com as reais necessidades das pessoas e menos agrilhoadas às ambições dos acionistas e dos mercados. Ainda será no modelo capitalista? Só o tempo o dirá.

*Reportagem publicada originalmente na revista de setembro de 2025.






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