Com cerca de quatro anos para se concretizar a Agenda 2030 das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, Jorge Moreira da Silva avisa que “este não é o momento de hesitar”, lembrando que só se conseguirá cumprir os 17 objetivos se a comunidade internacional acelerar de uma forma que está agora não fez.
“Não chegamos lá com o ‘business as usual’, e isso tem consequências”, disse o diretor-executivo do Gabinete das Nações Unidas para Serviços de Apoio a Projetos (UNOPS), durante um evento na passada sexta-feira na Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.
O diplomata português assegurou que a agenda do desenvolvimento sustentável já não é vista hoje apenas como uma agenda de “esverdeamento”, e que é reconhecido que o seu escopo vai muito além da faceta ambiental. Ainda assim, lamentou que esteja quase tudo por fazer, apontando que das 169 metas que constituem os 17 objetivos do desenvolvimento sustentável (ODS), só um terço esteja cumprido ou em fase de cumprimento, enquanto os restantes dois terços estão atrasados ou mesmo a regredir.
“Estamos melhor do que há umas décadas, mas aquém do necessário”, afirmou Jorge Moreira da Silva, referindo que 24 dos 30 sinais vitais do planeta foram ultrapassados ou estão ameaçados, que “não estamos em linha com 1,5 graus” de aquecimento global como era objetivo do Acordo de Paris, e que persiste uma lacuna de ajuda ao desenvolvimento dos países pobres por parte dos mais ricos na ordem dos quatro biliões de dólares.
Além disso, salientou que, de acordo com os compromissos climáticos levados pelos países para cimeira climática que decorreu em novembro último na cidade de Belém, no estado brasileiro do Pará, o mundo alcançará uma redução de 10% das emissões de gases com efeito de estufa até 2035, face a níveis pré-industriais. Contudo, a Ciência diz que, para se poder cumprir o Acordo de Paris e evitar os priores cenários climáticos, essa redução tem de ser de 55%.
Assim, é muito provável que a meta de 1,5 graus Celsius fique fora de alcance, o que Jorge Moreira de Silva alertou que seria não apenas uma rutura dos limites planetários, mas também “uma rutura com o Acordo de Paris”.
Conflitos e instabilidade podem fazer derrapar desenvolvimento sustentável
O responsável da UNOPS considera que os conflitos e a instabilidade que se multiplicam pelo mundo arriscam fazer derrapar o desenvolvimento sustentável.
“Não há desenvolvimento sem paz, nem paz sem desenvolvimento”, salientou, lembrando que se vive hoje a maior crise de insegurança e conflito desde que a Organização das Nações Unidas foi criada, e que 25% da população global vivem atualmente em conflito, o valor mais alto desde a Segunda Guerra Mundial.
“A impunidade grassa, há violações sistemáticas do direito humanitário internacional, as resoluções do Conselho de Segurança [das Nações Unidas] são ignoradas”, sublinha Jorge Moreira da Silva, para descrever o nível de instabilidade que hoje caracteriza o mundo. Para ele, isso levanta uma série de dificuldades à concretização da Agenda 2030, uma vez que “o desenvolvimento sustentável começa pela paz”.
No que toca aos objetivos do desenvolvimento sustentável, dos 17, Portugal cumpriu um, o relativo às energias renováveis. Contudo, o diplomata, embora reconhecendo o cumprimento desse objetivo, lançou que “de pouco serve que Portugal seja 100% a energia renovável se não contribuir para que Moçambique chegue ao mesmo patamar”.
E acrescentou que Portugal é dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) que menos contribui para a ajuda pública ao desenvolvimento.
Jorge Moreira da Silva lembrou que Moçambique é frequentemente afetado por extremos climáticos, apesar de contribuir menos de 1% para as emissões globais de gases com efeito de estufa. Nesse contexto, argumentou que quando há crises globais “quem fica para trás são sempre os mais frágeis”, e referiu que por cada euro que se investir em adaptação climática está a poupar-se 10 euros em custos resultantes da inação.
“A prevenção compensa”, assegurou, lamentando que apenas 3% do financiamento sustentável esteja nos países em desenvolvimento, onde ele é realmente preciso. Por isso, apelou a um total alinhamento do financiamento, tanto público como privado, com a agenda do desenvolvimento sustentável.
Jorge Moreira da Silva destacou também o papel fundamental das empresas para suprir a falta de financiamento dos países mais pobres, dizendo que menos de 1% dos ativos, a nível global, do setor privado seria suficiente para colmatar essa lacuna.
Por fim, e num recado às empresas, afirmou que “ir atrás da legislação é pouco” e que as devem ambicionar ir mais além do que aquilo que lhes é exigido. Para o diretor-executivo da UNOPS, “ninguém vence no desenvolvimento sustentável se só cumprir o que diz a lei”.
Europa deve ignorar “ruído” e persistir no caminho da sustentabilidade
O evento na Católica de Lisboa contou também com a presença de Wim Vermeulen, autor e orador premiado e reconhecido internacionalmente como autoridade na integração consequente da sustentabilidade nas estratégias de negócio das empresas.
O especialista abriu a sua intervenção com críticas ao governo norte-americano, sobretudo pelo combate acérrimo que o executivo liderado por Donald Trump tem lançado contra os esforços globais de sustentabilidade e no campo do desenvolvimento sustentável.
Trump é “o elefante na sala”, apontou, mostrando uma imagem de um elefante com um boné vermelho com o lema da administração Trump: “Make America Great Again” (“Tornar a América Grande de Novo”, traduzindo para português).

Vermeulen falou de um “ruído” que nos leva a crer que a população mundial, incluindo Estados e empresas, está farta de ouvir falar, de apoiar e de gastar dinheiro em sustentabilidade e na transição energética para lá dos combustíveis fósseis. E avisou que esse ruído faz-nos perder o rumo e de vista o que é realmente importante: proteger o planeta e as pessoas.
O especialista assegurou que não há um recuo na Europa no que toca ao papel das empresas nos esforços de proteção ambiental e do clima, reforçando que esses contributos deixaram de ser vistos como “imperativo moral” para serem encarados como uma questão de “gestão de risco, pura e simplesmente”.
Vermeulen disse que há um crescente nível ve “greenhushing”, fenómeno que leva as organizações a não tornarem públicos as suas ações e investimentos em matéria de ambiente e desenvolvimento sustentável. Para ele, isso deve-se ao facto de as empresas terem receio de publicitarem o que fazem nessas áreas e serem acusadas de “greenwashing” ou porque temem ser impedidas de aceder a determinados mercados externos, como os Estados Unidos da América.
O orador apontou que existe uma pressão por parte da potência norte-americana para que as empresas europeias, se quiserem fazer negócios do outro lado do Atlântico, retirem dos seus websites informações e páginas relacionadas com alterações climáticas, sustentabilidade e assuntos de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI). Vermeulen frisou que, apesar dessas pressões, a Europa deve continuar a seguir em frente no que toca à sustentabilidade e ignorar “o ruído”.
No que toca à atuação da Comissão Europeia, que, nos últimos tempos, tem sido criticada fortemente por organizações não-governamentais, especialmente ambientalistas, por estar a arrepiar caminho nos regulamentos que protegem os recursos naturais e os ecossistemas, Vermeulen referiu o executivo comunitário “perdeu-se um pouco pelo caminho”.
Para o especialista, o Pacto Ecológico Europeu foi feito “sem o conhecimento da realidade empresarial”, o que gerou resistência por parte de algumas empresas e setores, e que agora o que se está a faze é a aliviar a burocracia e a desenhar incentivos para promover um maior alinhamento entre negócios e sustentabilidade.
Vermeulen garantiu também que não existe uma “fadiga” da população relativamente aos esforços de maior sustentabilidade, considerando tal uma “ideia estranha”. O que existe, explicou, é uma desconfiança por parte das pessoas sobre a capacidade ou vontade dos governos para tomarem a dianteira na ação climática e na sustentabilidade.
“As pessoas não confiam nos políticos para resolverem o problema”, afirmou, pelo que a liderança tem de ser assumida pelas empresas.
Sustentabilidade cada vez mais no centro das decisões das grandes empresas e das PME
As intervenções de Jorge Moreira da Silva e de Wim Vermeulen aconteceram no âmbito da apresentação dos resultados do quarto relatório do Observatório dos ODS nas Empresas Portuguesas, que revela que a Agenda 2030 atingiu “um patamar de maturidade inédito na gestão corporativa nacional”, tornando-se uma ferramenta de apoio à gestão societária.
De acordo com o estudo do Observatório – uma iniciativa do Center for Responsible Business & Leadership da Católica-Lisbon School of Business & Economics – cerca de 96,4% das grandes empresas e 82,6% das PME concordam que a sustentabilidade melhora substancialmente a competitividade.
No universo do estudo, 80% das empresas de maior dimensão e 62% das PME admitem também que a sustentabilidade já alterou, ou está a alterar, a forma como produzem e geram valor.
Ao mesmo tempo, 69% das empresas portuguesas afirmam já ter os ODS “totalmente ou bastante” incorporados na sua estratégia, ao passo que nas grandes empresas esse valor sobe para 98% do total.
No entanto, o Observatório alerta para a necessidade de acelerar o ritmo, já que a nível global apenas 17% das metas dos ODS estão atualmente numa trajetória favorável, e nenhum dos 17 objetivos está em vias de ser plenamente alcançado até 2030.









