Estes insetos tropicais agitam “bandeiras” para manter os predadores afastados (vídeo)

Um inseto que reside nas florestas tropicais do Panamá, da família dos percevejos (os Coreídeos ou Coreidae, na designação em latim), desenvolveu uma técnica peculiar. Usando as suas patas posteriores em forma de folha, anuncia a sua presença aos predadores, como se agitasse bandeiras.

Filipe Pimentel Rações

O mundo natural está repleto de estratégias altamente engenhosas e criativas para espécies diferentes possam comunicar entre si, mesmo não falando a mesma “língua”.

Numa verdadeira corrida às armas biológica, predadores e presas afinam as respetivas capacidades para se tornarem caçadores mais eficazes e para poderem escapar à morte certa, respetivamente.

A presas, normalmente, procuram passar despercebidas aos olhares famintos, embora muitos outros animais seguem o caminho inverso e escondem-se à vista de todos. Por norma, as presas que não temem ser conspícuas estão, ou fingem estar, munidas de defesas tóxicas. Por isso, mesmo que as consigam ver bem, os predadores tendem a evitá-las por receio do que possa acontecer se tentarem ingeri-las.

Um inseto que reside nas florestas tropicais do Panamá, da família dos percevejos (os Coreídeos ou Coreidae, na designação em latim), desenvolveu uma técnica peculiar. Usando as suas patas posteriores em forma de folha, anuncia a sua presença aos predadores, como se agitasse bandeiras.

Vídeo: Smithsonian Tropical Research Institute.

 

Há muito que os cientistas se questionam sobre a função de patas como essas e uma equipa de investigadores, liderada pelo Instituto Smithsonian de Investigação Tropical, acredita ter finalmente descoberto a resposta.

Inicialmente pensava-se que as sinalizações serviriam propósitos reprodutivos, para atrair parceiros, mas percebeu-se que não tinham qualquer relevância nos rituais de acasalamento nem na competição por parceiros. Os cientistas puseram estão a hipótese de o agitar das “bandeiras” ser um comportamento relacionado com os predadores.

Em laboratório, estudaram as reações de Coreídeos da espécie Bitta alipes, que têm “bandeiras” avermelhadas nas patas posteriores, à presença de predadores e de não predadores.

Perante louva-a-deus, exímios predadores, os pequenos insetos agitavam, em média, as suas patas vistosas sete vezes mais do que na presença de uma esperança (família Tettigoniidae), que não se alimenta desses insetos. Além disso, os louva-a-deus nunca atacavam os B. alipes que estivessem a agitar as suas patas.

Por tudo isso, os investigadores, num artigo publicado na revista ‘Current Zoology’, concluem que se trata, afinal, de um comportamento anti-predação, exibido especificamente nas alturas em que o perigo está à espreita.

A equipa verificou também que outras espécies, pelo menos cinco, desses insetos que vivem nas florestas panamianas exibem o mesmo tipo de comportamento, pelo que acreditam tratar-se de uma estratégia mais amplamente difundida do que se pensava.

Estes artrópodes que agitam as patas como bandeiras alimentam-se de flores-da-paixão (cujo fruto é o maracujá), que se sabe conterem componentes tóxicos. Por isso, talvez os pequenos B. alipes estejam a dizer aos predadores que comê-los é uma má ideia.

No entanto, a exata função desse comportamento é ainda desconhecida.

“Ficámos com mais perguntas do que respostas”, admite, citado em comunicado, Ummat Somjee, um dos autores o estudo.

“Mas essa é a beleza do estudo dos insetos. Há centenas de milhares de espécies, a maioria das quais completamente não estudadas, e cada vez que olhamos mais perto descobrimos comportamentos que mudam a forma como pensamos sobre a evolução”, salienta.

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